Reconhecidos pelo arranhar das vassouras no asfalto e o barulho da pá na lata de lixo, os garis sempre são notados de longe pelo famoso uniforme amarelo. Maria de Fátima Lino, 55, é margarida há 18 anos. Ela é uma das 105 mulheres (de um total de 150 varredores) que retiram, todos os dias, 10 toneladas de lixo das ruas de Franca. Cansada de passar dez horas por dia fechada numa fábrica de sapatos, Maria de Fátima trocou o trabalho de auxiliar de produção para ficar ao ar livre e não se arrepende. “Ficar na rua e ver as pessoas é muito bom. Amo essa profissão. As pessoas me oferecem café, água, são maravilhosas. O tempo passa rápido e é só alegria”, disse ela, que está escalada para limpar as ruas Monsenhor Rosa e Major Claudiano e trabalha oito horas e meia por dia por um salário de R$ 634, mais cesta básica e convênio médico.
O dia de Maria de Fátima começa quando ainda está escuro. Às 4h45, já está de pé. Como os demais garis, trabalha das 7 às 15h30 durante a semana e até 14h30 aos sábados. Ela se sente recompensada pelo esforço e fala com orgulho dos sonhos que realizou. “A varrição me ajudou a comprar minha casa e agora está me ajudando a reformar. Quero rebocar a parede da garagem”. Viúva e mãe de duas jovens, Maria de Fátima vive com a filha caçula, de 24 anos, no Jardim Aeroporto III e comemora o Corsa Ano 97 que conseguiu comprar para irem até o Póli ter aulas de natação. “Consegui tudo com meu salário”, disse ela, que interrompeu os estudos na 4ª série.
A trajetória de Neusa Tarantelli Cubero, 54, tem semelhanças com a de Maria de Fátima. Neusa também é margarida, trabalha no Centro da cidade e parou de estudar na 7ª série. É varredora há 12 anos e se orgulha dos frutos que colheu com seu emprego. Fala com imensa satisfação que formou a filha cabeleireira, varrendo ruas. “Tenho muito orgulho do meu trabalho. Conheci minhas colegas e várias pessoas boas neste serviço. Conquistei muita coisa. Formei minha filha, paguei o curso todinho para ela, ajudei ela a tirar carta e arrumei muita coisa na minha casa”.
<b>Ouça o depoimento de Neusa Cubero:</b>
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Neusa foi camareira num hotel tradicional em Franca até engravidar. Depois do nascimento da filha, decidiu se dedicar à menina e aos cuidados com a casa. Quando a criança completou 5 anos, quis voltar a trabalhar. Procurou emprego e conseguiu uma vaga como varredora de rua. Neusa é uma profissional dedicada. Inicia a jornada às 7 horas, mas às 5 horas já está acordada. Moradora do Leporace, toma o ônibus para o Centro uma hora antes de começar o serviço. Chega e se prepara com calma para retirar papéis e folhas de toda praça Barão. “Deixo tudo arrumado em casa e chego bem antes para arrumar meu material. Coloco manga comprida, boné e luvas. Preciso me proteger do sol e do lixo que a gente pega, para evitar infecção”. Para almoçar, sempre leva uma marmita, que esquenta usando uma latinha, transformada em minifogão. No Centro, as margaridas fazem as refeições num cômodo embaixo da Concha Acústica, na praça.
Neste mesmo local, guardam o carrinho de lixo, sacos plásticos e vassouras. Neusa, como outras varredoras, faz as próprias vassouras. Elas preferem usar os materiais confeccionados artesanalmente para o serviço render mais. Todo mês, Neusa e o marido vão até o Parque “Fernando Costa” para colher folhas de bambu e montar as próprias vassouras. “Uso de 12 a 15 vassouras por mês. Trago os galhos de ônibus, no sábado, porque é mais vazio. Aí encaixo no cabo e uso para varrer. O serviço que faço com uma vassoura normal gastaria duas horas e com a de bambu, levo de meia hora a uma hora e meia, no máximo”. Sozinha, Neusa retira da Praça Barão 12 sacos de cem litros de lixo por dia. “Quando chove é pior porque o lixo fica mais pesado e gruda no chão”.
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Maria de Fátima, Neusa e a também margarida Aparecida Valdecir dos Santos, 50, mais conhecida como Cida, elencam como a melhor parte da profissão o contato com o público. Elas dizem fazer muita amizade enquanto estão nas ruas. “Converso com as pessoas quando estão tristes. Coloco Deus no coração delas”, disse Cida, que trabalha no Parque “Fernando Costa”. No recinto ela tem mais funções. Além de varrer as folhas e outros lixos, rastela a grama e lava banheiros. “Tenho de conservar a beleza do parque. Gosto de lavar meus bancos e, se deixar, lavo até as ruas aqui porque eu gosto mesmo de limpeza. Adoro meu serviço”, diz ela com a simpatia comum a esses profissionais que percorrem, em média, 2,4 quilômetros por dia para limpar guias, calçadas e praças de Franca.
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