Caso sinta um gosto amargo na boca, não engula, cuspa. A frase é deveras interessante, entretanto, poucos são aquele que assim agem, preferindo aceitar o fel, mesmo não merecendo ou com discordando, seja por covardia ou desinteresse e até mesmo por acomodação e medo. Ao ouvir essa frase, contida em filme a que assistia numa tarde de domingo, sobre a abolição da escravatura na Inglaterra, senti um nó na garganta e resolvi repensá-la segundo os dias atuais aqui em nosso País.
Não é que acabei por concluir que por aqui, a grande maioria – e ai me incluo –, está constantemente engolindo tudo o que é colocado em sua frente, seja amargo, azedo ou doce, sem questionar nada e muito menos tomar uma posição forte de rejeição, como dita a frase.
Não sei se é culpa da nossa índole, que vem de uma mistura de raças de todo tipo e cor, ou se é fruto de nossa pouca vontade de contestar seja lá o que for, preferindo sempre aceitar passivamente tudo o que nos é enfiado goela abaixo. O que reputo pior é que tudo vira piada e acaba ajudando aos autores da amarga façanha a amenizar a situação e fazer com que tudo acabe como se diz na gíria, em pizza. Seria no mínimo irônico, se não fosse trágico, assistir a governadores e deputados enfiarem dinheiro nas meias e nas cuecas adentro e abaixo, frente a câmeras e ainda, rindo e festejando, em total desrespeito e pouco caso para com a gente, seus eleitores e palhaços.
A reação do populacho – e o termo é esse mesmo porque não há a ser usado –, é de apenas ficar reclamando que o País é uma merda (palavra agora liberada para uso, pelo nosso ilustre presidente) e que ninguém faz nada para mudar as coisas, como se aos outros é que coubesse fazê-lo e não a nós mesmos. É muito triste a constatação, mas, infelizmente é a verdade que se nos apresenta frente aos olhos e que apenas nos faz sentir vergonha que deveria ser de nossa apatia e não daquilo que nos é dado a assistir.
Quem sabe algum dia alguém disporá em cuspir o amargo e não deixá-lo escorrer esôfago abaixo, de preferência em direção ao rosto do responsável ou responsáveis pelo amargor, como fez um cidadão italiano na face do seu primeiro ministro. Isto faria menos estrago físico mas demonstraria que alguém deixou de ser palhaço; que não mais tolerará tantos desmandos em detrimento de um povo que sofre demais por culpa da má distribuição de renda e por viver onde os donos do poder deitam e rolam frente às câmeras, rindo da nossa apatia, covardia e outras tias, cujos nomes não declino porque não seriam publicáveis.
Há que se considerar também que é preciso que haja bastante cuspe, não?
Odorico Antônio Silva
Advogado
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