O telefone toca. Uma das telefonistas cá do GCN me pergunta se poderia atender Gisele, que queria falar comigo mas não queria revelar o assunto.
Não costumo atender telefonemas do tipo. Nossa lida diária nos cobra racionalização integral do – pouco – tempo disponível em benefício do cumprimento das obrigações de fazer jornalismo diário. E garanto que o tempo é curto. A curiosidade jornalística falou mais alto. Atendi.
Gisele perguntou como poderia enviar uma carta à seção dedicada aos leitores do Comércio, com a certeza de que seria publicada. Expliquei-lhe que não poderia lhe dar essa garantia. Contei-lhe o que nossos leitores já sabem: recebemos, no GCN, quase duas centenas de mensagens digitais por dia, manifestações sobre matérias publicadas pelo jornal ou irradiadas pela Difusora. Disse-lhe que na seção Cartas, da página 2, publicamos em torno de 10, 12, ao dia. A maioria fica mesmo é no site do jornal, ao pé das matérias respectivas. Grandes debates tomam vida através desse caminho.
Perguntei-lhe – olha o tempo! – o que gostaria de falar. Respondeu-me: “um cachorro de rua atropelado, que cuido desde o fim de dezembro e tenho pago diárias altas em uma clínica particular para devolver-lhe saúde e que, agora, curado, não quero lançar na rua novamente”.
Bem. Dia destes, publiquei aqui a história de Jully, uma cã que conviveu comigo e minha família, por 10 anos. Muita gente diz que chorou, se emocionou, sentiu-se impelida a olhar com mais candura a animais, seres que remetem gente de todos os perfis – inclusive os de perfil atarracado, incapazes de mostrar brandura até com humanos – a escorregões emocionais. Digo isso porque sempre haverão aqueles que cobram bom uso, uso correto do poder que publicações neste Comércio garantem a causas de todos os tipos. E que falar de animais enquanto tantos padecem de fome de comida e de justiça, não é o caminho correto.
A julgar pelas reações – muitas, muitas – ao texto sobre Jully, atrevo-me a dizer que falar em animais adoça, sensibiliza, amolece espíritos, mesmo os retesados, endurecidos e insensíveis que o mundo atual prega como essenciais à condução de negócios, sucesso profissional e carreiras vitoriosas.
Penso diferente. Entendo que neste terceiro milênio que os especialistas dizem ser o tempo do relacionamento pessoal objetivo, mas comprometido, são indispensáveis gestores que combinem doses maciças e iguais de razão e emoção quando em processo de decisão. Só frieza ou só coração, não servem.
Neste tempo em que pais, filhos e famílias só se encontram – quando se encontram – depois do trabalho, com tempo nenhum para conversar e conviver, menos tempo ainda para jogos de pele, deixar para lá ocasiões de exercitar a emoção pode significar a perda definitiva da capacidade de se arrepiar.
Rendi-me. A história de Tobi, um animal que sensibilizou a leitora Gisele, pode servir para fazer (re)pensar sobre solidariedade e exercício de cidadania.
Pode, até, ajudar a mudar o foco com que olhamos para gente de verdade que vegeta ao nosso lado, modificando nosso olhar, de objetivo e especialista, para eficiente e solidário.
TOBI - 1
Trechos da carta que recebi e compartilho: “Chovia. Estacionei no lugar de costume. Abri a porta do carro e lá estava ele, molhado, encolhido e tremendo. Tinha marcas de sangue vivo no pelo. Olhou-me com um pedido mudo: “me ajude”. Me disseram para não mexer com “aquilo”; que se curaria sozinho; que meu carro ficaria sujo; que me morderia. Providenciei transporte especialista. Lá foi ele. Foi medicado. Precisava de um nome. “Tobi. Tem cara de Tobi”. No terceiro dia, aceitou um agradinho. No quarto, abanou o rabo (valeu cada centavo que gastei com ele). No quinto dia, olhou-me e “perguntou”: ‘vai me deixar aqui?”. E agora? Não posso mantê-lo na clínica, que me sai muito caro. Não posso levá-lo para casa. Meus pais têm dois cães”.
TOBI - 2
“Consultei as ONG’s da cidade, mas estão lotadas. Como tem cachorro abandonado em Franca! Tobi precisa de um lar. Não pode voltar para a rua e para os perigos que representa. Não agora que está tão encantado com os cuidados que está recebendo. Precisa de um lar. É um cão de porte médio (mais para pequeno), creme e caramelo. É a doçura e mansidão em forma de cachorro. Tem um olhar que hipnotiza”.
TOBI - 3
Quem sabe, conhecendo e interagindo com Tobi, sua emoção – lembra-se dela? – ressurja das cinzas e dê ordem a este seu velho e empedernido coração a que adote gente que precisa muito de apoio? Não falo de crianças porque seria pedir muito. Falo de pessoas que você sabe sérias mas que passam por dificuldades; que não encontram coragem de dizer ou pedir nada e apenas lançam o olhar “Tobi” e a gente faz de conta que não percebe. O história de Gisele e Tobi é representativa. Gisele poderia ter fechado os olhos. O cão poderia ter perecido. Não restariam lembranças. Se alguém cobrasse, um mero “não tenho tempo para essas coisas” resolveria, sem dor no coração; mas não é disso que falo. É em mudança solidária.
TOBI - 4
Quer saber mais sobre o cão? Anote: 16.9171.8990. Como é um cão só e certamente alguém o levará, restarão as pessoas ai da nota anterior. Levante os olhos e exercite um olhar diferente... E, em tempo: você nem precisa contar quem é. Garanto que fazer diferença na vida de alguém tem gosto de quero mais.
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
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