Imprescindível


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Não estava em Franca quando soube, nem por isso fiquei menos triste. Passei aquele dia tirando do passado alguns fatos ocorridos durante os diferentes tempos e situações nas quais desfrutei do privilégio e prazer de conviver com Dr. Alfredo Palermo. Conheci-o muito antes de ser sua aluna. Coetânea e colega de escola de sua filha e filha da mais famosa doceira de Franca, algumas vezes fui convidada para os aniversários dela, cujos bolos minha mãe fazia. Em um deles, eu o vi pela primeira vez. Meu pai era ex-barbeiro e funcionário iniciante do Banco do Brasil, Dr. Palermo já era medalhão na cidade. Meu pai era mais novo que Dr. Palermo, mas a distância entre eles não era da ordem de idade, não. O que os separava era um mar de conhecimento, um oceano de sabedoria, um universo de palavras e estrelas que meu pai podia sentir e ver, mas que Dr. Palermo podia ouvir... Nem por isso eles deixavam de se cumprimentar e se reconhecer mutuamente. Meu respeito e admiração por ele aconteceu naturalmente como uma extensão e consequência dos sentimentos de meus pais, com relação à sua figura e significância. Houve um particular aniversário da filha, Maria Teresa, cujo convidado mais ilustre era ninguém menos que o Cavalheiro Antônio Petraglia, já bastante idoso e implicante: a menininha não pode apagar as velinhas porque ele, como médico, considerava isso - soprar sobre o bolo - algo muito anti-higiênico. Ficou na memória o gesto polido e educado do pai da aniversariante que solucionou o impasse: buscou uma colher para que ela não ficasse frustrada e apagasse a velinha, não como todo mundo fazia, mas elegantemente, com um toque delicado da pequena colher sobre a chama. Talvez tenha sido naquele dia que entrei pela primeira vez num espaço particular onde só tinha livros. Paredes cobertas por estantes e, nelas, livro ao lado de livro. Sobre uma escrivaninha, uma máquina de escrever que eu só conhecia de longe, quando ia ao banco ver meu pai. Fiquei fascinada. Voltei àquele escritório outras poucas vezes, sempre com a mesma reverência e respeito pelo dono, pelos livros e por tudo que ele me ensinou. Fui sua aluna no curso ginasial, no colegial, no de magistério, na faculdade de Filosofia. Convivi com ele como cidadã comum, colaboradora dos jornais de Franca e, muitos anos depois e durante pouco tempo, como sua colega na Academia Francana de Letras. Um privilégio. De cada uma dessas fases tenho lembranças fantásticas. Nunca levantou a voz para ninguém, nem para os adolescentes surdos e petulantes que frequentavam os bancos escolares do Torquato Caleiro, do Ateneu ou de qualquer das faculdades onde lecionou. Nenhum deles esqueceu seu jeito de ensinar. Cumpria a rotina pedagógica com delicadeza francesa, precisão suíça e autoridade germânica: chegava (de terno), entrava na sala, cumprimentava, fazia a chamada, ia para a lousa, escrevia com letra legível a matéria do dia, esperava o aluno terminar, explicava ... e reiniciava o processo. Quem terminava mais cedo, merecia sua atenção: ele se aproximava, perguntava, ouvia com atenção a resposta. Quem esquece um professor assim? <B>FOLCLORE</b> Tem a parte do folclore, das lendas urbanas... Circulam entre ex-alunos e admiradores um monte de histórias que sempre terminam com uma precisa, irônica e engraçada tirada. Que ele sempre foi rápido no gatilho para uma boa resposta, é fato. Não afirmaria ser boato que todas elas são verdadeiras... Essa eu presenciei: tínhamos que apresentar em classe uma redação preparada em casa, segundo tema que mensalmente nos sugeria. Em aula, aleatoriamente, chamava um nome (ou número). Se o aluno era aplicado, levantava-se e lia a tal dissertação para a classe ouvir. Se não era, dava-nos nova chance, porém colocava no diário de classe uma cruzinha ao lado do nome do relapso, para indicar a não-apresentação. Era uma das suas maneiras de controlar nossas tarefas e responsabilidade. Um dia, após a chamada, olhou atentamente a página, levantou os olhos do diário, fez silêncio (perigo!), perscrutou-nos com o olhar por instantes e disse: ‘Senhores, estou-me sentindo triste ao observar minhas anotações: em alguns dos nomes, parece-me estar olhando para um cemitério!’. <b>ONISCIÊNCIA,</b> Durante todo o tempo em que convivemos, era como se eu fosse especial: reconhecia-me entre as pessoas, sempre me distinguiu com sua atenção, sabia meu nome, fazia referências aos meus pais. E não era demagogia, não, ele sabia mesmo. Em um dos nossos últimos contatos até comentou a foto que foi publicada no convite da missa para minha mãe: brincou comigo, dizendo que eu a ‘protegera’, que ela estava mais nova e tão bonita quanto ele a conhecera, muitos anos atrás. <b>PERSONAS</b> Quando soube que ele partira, tive uma sensação de dor, bastante intensa. Senti que perdia ali o mestre; o professor que na minha cabeça nunca se aposentara; o companheiro de Academia; o ser humano que nasceu num primeiro dia de abril; o homem sério que revelou seu lado romântico a um bando de adolescentes indiscretos quando, num dia distante e num momento de rara abertura de sua vida particular, respondeu a uma pergunta pessoal em classe e declarara gostar muito da música Nossos Momentos. <b>PONTO FINAL </b> Um dia, ele escreveu na lousa texto de Bertold Brecht que copiei: ‘ Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis’. Vou sentir muito a falta do Dr. Palermo embora leve, pelo resto da vida, a honra de ter aprendido muito com ele. Lúcia Helena Maniglia Brigagão Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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