Chuvas sempre existiram, todos os anos, em todas as épocas. Mudanças climáticas são descritas pela ciência e devem gerar ações inteligentes, não imobilismo. O que deve ser alterado, se é que alguma coisa pode ainda ser revertida, é o modo como nos relacionamos com a terra, o ar e a água. E o poder público tem muito a ver com tudo isso.
Anatureza é a única inocente e nenhuma culpa pode levar em relação aos dolorosos acontecimentos de fim de ano em São Luís do Paraitinga e Cunha, no Vale do Paraíba, e Angra dos Reis, no Rio. O fatalismo, em que o homem se coloca como impotente diante de um meio ambiente supostamente imprevisível e implacável em suas pegadas, é desculpa para autoridades omissas frente às causas do problema que se agrava. Não é a teoria apropriada para explicar tragédias anunciadas como essas e as muitas que já ocorreram em situações semelhantes (em Santa Catarina, ano passado, por exemplo) e outras de menor proporção no cotidiano de todas as nossas cidades. Chuvas sempre existiram, todos os anos, em todas as épocas. Mudanças climáticas são descritas pela ciência e devem gerar ações inteligentes, não imobilismo. O que deve ser alterado, se é que alguma coisa pode ainda ser revertida, é o modo como nos relacionamos com a terra, o ar e a água. E o poder público tem muito a ver com tudo isso.
Aquecimento urbano
O meteorologista Rodolfo Bonafim, diretor científico da ONG Amigos da Água, é um estudioso dos efeitos da degradação ambiental no clima paulista. Fatos como a devastação de áreas verdes, emissão de gases por veículos e indústrias e a crescente selva de concreto que interfere na circulação do ar e dos ventos criaram o cenário perfeito para transformações na composição química das nuvens. O ar se tornou mais aquecido e instável, “ingredientes perfeitos para a criação de tempestades mais e mais abundantes e com maior produção de raios e chuvas torrenciais”, analisa Bonafim.
Dobradinha
Com o asfalto, antigo símbolo de progresso, a impermeabilização diminui a absorção da chuva, provocando as famosas enchentes antes do fechamento do verão com as águas de março cantadas por Tom Jobim. O desvio do lixo em bueiros é outro problema. Já se pode falar numa espécie de “aquecimento local urbano” que merece ser prevenido por meio de políticas públicas locais e regionais. O fenômeno se junta ao aquecimento global. Ambos formam uma terrível “dobradinha”. Foi o que ocorreu segunda-feira na Capital. O forte temporal que alagou vários pontos da metrópole teve origem na ação conjugada das mesmas áreas de pressão que atuaram sobre Angra dos Reis somadas à ação das chamadas “ilhas de calor urbanas”.
Umidade do ar
A devastação florestal diminui a oferta de umidade do ar. As pessoas ficam mais vulneráveis às doenças do aparelho respiratório e circulatório. Cidades como São José do Rio Preto, Ribeirão Preto, Araçatuba e Presidente Prudente rivalizam em secura do ar com Brasília nos períodos de estiagem do inverno, outono e até da primavera. Tudo fruto do desmatamento que paradoxalmente fez surgir e crescer esses pólos econômicos e demográficos.
Litoral
No litoral, o desafio é outro: conter o avanço do mar provocado pelo derretimento de geleiras. Segundo estudo do Laboratório de Hidráulica da Universidade Santa Cecília, a perpetuar a falta de prevenção global, Santos poderá se tornar uma cidade alagada várias vezes ao dia, de forma rotineira, em algumas décadas. Logo Santos que vive o “boom” imobiliário com a perspectiva do pré-sal. Nesse movimento, a vizinha Praia Grande deve se transformar na maior cidade da Baixada Santista em dez anos, pois é o município com maior oferta de território para essa expansão. Como se dará o crescimento?
O que fazer
O que as nossas cidades podem fazer para evitar tragédias dessa magnitude como as registradas no Ano-Novo? Para ficar restrito à climatologia, Bonafim dá as seguintes sugestões: 1) instalação de pluviômetros em vários pontos das cidades, especialmente naquelas confinadas entre a Serra do Mar e o Oceano Atlântico; 2) Convocação de cidadãos voluntários para treinamento e monitoramento das condições pluviométricas; 3) Instalação de mais estações automáticas, a exemplo das que estão espalhadas em bairros da Capital; 4) Maior contato entre a Defesa Civil e os centros meteorológicos e de geotecnia; 5) Criação de cursos de conscientização e prevenção aos moradores das áreas de risco de encostas e regiões ribeirinhas.
Wilson Marini
wmarini@apj.inf.br
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