E o meu presente?


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Nada. Procurei o meu presente de Natal por todos os cantos possíveis e imagináveis e nada. Passei a mão debaixo da cama, pelo parapeito da janela e nada de presente. Procurei nas gavetas, nas cômodas, nos armários e não encontrei nenhum presente. O meu Papai Noel não veio. Mais uma vez ele não veio. Morreu com a minha infância. Fui em busca da árvore de Natal. Ela estava num canto da sala. Não tinha o perfume do cipreste ou do pinheiro. Era de plástico e cheirava à tinta de parede. Tropecei nela e algumas bolas caíram e se espatifaram. Não tinham nada dentro. Eram ocas, vazias. Uma delas caiu em minha mão. Apalpei-a e olhei-a com atenção. Não vi nenhum brilho e nenhuma cor. Só senti sua frieza. O Natal acabou. Para mim o Natal acabou. Não tem mais o cheiro da serragem e do capim da manjedoura. As árvores são artificiais, as luzes não brilham, o Papai Noel não passa de um carnê de crediário. Antes que uma segunda lágrima brotasse de meus olhos, caiu em meu colo. Veio da árvore de Natal o bonequinho de barro representando a figura de Jesus, o Menino Deus. Tateei-o com meus dedos ásperos e percebi que aquela figurinha tosca representava a vida que nascia sem mácula, que ressurgia, que aflorava, que persistia, que redimia. Então, orei. Orei do meu jeito, com as minhas palavras, com meus sentimentos. Orei tão intensamente que me esqueci dos presentes, das árvores, das festas, dos ornamentos, dos rituais. Um estado de paz, de tolerância, de alegria e esperança tomou conta de mim. Foi aí que tive a certeza de que o Natal não acabou. Não acabou nem para mim e nem para os outros. Eu é que estava procurando-o no lugar errado. Neste Natal, o meu presente caiu de uma árvore de plástico, desmanchou-se em luz, tocou o meu coração, envolveu todo o meu ser e fez-me compreender o verdadeiro sentido da Natividade. Chiachiri Filho Historiador, professor

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