Carros ou ônibus?


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O enfoque ultimamente dado ao tema "transporte coletivo" tem sido apenas na questão da sua gratuidade, concedida por lei, para certos segmentos sociais. Há um viés muito mais importante e necessário nessa discussão. Ela necessita ser feita de forma atrelada à sustentabilidade do desenvolvimento, da proteção do meio ambiente e da qualidade de vida. Esse Comércio, em artigo publicado no dia 12 de dezembro, trouxe um alerta sobre o aumento da frota particular de veículos em nossa cidade. Vivemos uma situação que todos julgam caótica, mas fazemos de conta que não somos afetados por ela. Vivemos a hipocrisia da ilusão causada pelo status em se ter um carro novo. Qualquer jovem, ao começar a trabalhar, justifica que `ter seu próprio carro` é o que busca na sua independência financeira. Na sociedade moderna, carente de conteúdo cultural de qualidade, é comum ouvirmos que o carro dá status social. O carro dá imponência ao indivíduo que, muitas vezes, carrega enormes frustrações e limitações (prova disso é o seu ar de superioridade quando está dirigindo). Até a cor é importante, pois o carro preto ou prateado dá mais distinção ao seu proprietário. Na verdade estamos lidando com um falso paradigma de felicidade. Não entendo como alguém pode ser feliz com um carro se tem que perder horas, todos os dias, preso solitariamente a congestionamentos e à lentidão do trânsito. Os francanos já vivenciam essa trágica experiência. O fato é que não há política pública para o transporte coletivo no Brasil. Em Franca deu-se um grande passo através da reestruturação do sistema, com o Passe Livre e com o gerenciamento do serviço durante o governo Gilmar Dominici, mas, infelizmente, não houve continuidade na sua modernização e dinamização. Ter uma política pública para o transporte coletivo é estar permanentemente atualizando seu sistema e inovando-o. O governo federal também peca pelo raciocínio equivocado. Quando estourou a crise financeira uma de suas primeiras ações foi a de diminuir os impostos incidentes sobre o preço dos carros, defendendo a manutenção dos empregos. Mesmo assim, algumas montadoras demitiram mas não deixaram de aumentar a sua produção e lucrar com ela. O governo erra, também, quando exalta o fato de que representantes das classes C e D estão podendo comprar seus carros. Ótimo, mas a que custo? Do meio ambiente? Sim, porque além de entupir nossas vias públicas (demandando cada vez mais gastos na sua manutenção e na abertura de novas vias) a indústria automobilística é uma das que mais consome água, energia e matérias primas extraídas, cada vez mais, da natureza. Não há dúvida que essa atividade econômica (produção de carros individuais) se tornará cada vez mais insustentável. Precisamos adquirir novos hábitos (p. ex., caminhar e usar bicicletas) e exigir mudanças dos agentes públicos na valorização do transporte coletivo, com mais e melhores investimentos. Assim o ato de locomover será apenas um meio para se chegar onde se quer e não para mostrar (e aparecer) o que se pensa ser. Cassiano Pimentel Agente de exportação e professor universitário

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