Não sei o seu mas, chega o final de ano, meu coração fica dia a dia menor. Até dói. Fico emocionada por conta de tudo e, reservatório de lágrimas abarrotado, um motivo de nada e elas caem. Choro feito uma cachoeira.
Choro porque sim, choro porque não... e pelas simples e boas lembranças dos dezembros anteriores. Formaturas, festivais de balé, festas de amigos secretos, encerramento de trabalho e até de grupos de amigos. Foi bom também para você, não foi? As luzinhas de enfeite nas casas e árvores hoje piscam com muito mais tecnologia e intensidade. É música de Natal tocando até dentro de elevadores. É apelo emocional caindo feito avalanche sobre nós. E aí, clima melhor para recordar o antigamente, não há...
Nos tempos magros de meninice, sonhávamos com uma boneca de louça, que piscava os olhos. Olhos azuis, claro. Na Casa Bettarello, onde tudo era `bom, barato e belo`, apareceu um bebê dentro das especificações oníricas das crianças - ricas e pobres. Meus pais davam um duro danado, não sobrava para esses excessos, mas houve um particular Natal em que o saldo financeiro ficou ligeiramente positivo e aí foi uma maravilha. Naquele tempo o passeio domingueiro da família era ir à praça central, sentar nos bancos de pedra em volta do coreto e tomar sorvete. Depois, percorrer uma a uma as lojas do centro que exibiam lançamentos em utensílios para o lar e novidades para a meninada. Quando ia chegando o Natal, a gente parava na Casa Bettarello e desidratava, babando nas bonecas, nas casinhas, bicicletas. E sonhava: quem sabe, naquele ano, Papai Noel daria bebês, um para cada uma de nós?
Aí chegou o dia dos presentes. Nem bem amanheceu, já estávamos na sala, sem escovar os dentes, de pijama amassadinho, tontos de sono, desvendando as caixas embrulhadas. Cadê as com nosso nome? Pega aqui, levanta lá, minha irmã achou a caixa dela. A minha era pequenininha, quase escondida no pé da árvore, dentro do meu sapatinho. Pelo volume, eu adivinhei que não era a boneca. Minha irmã abriu a caixa e lá dentro, como em um sonho, apareceu o bebê. Ficamos mudas. Ela, de alegria; eu de decepção. Não era ingrata, abri o meu presente: um brinco de pérolas, que virou o ícone da minha frustração por longo período.
O tempo passou. E muito. Mamãe partiu e, quando fomos desmontar sua casa, achamos no maleiro do guarda-roupas, dentro de uma caixa, o bebê já velho, gasto pelo uso, meio perrengue, amarelado, consertado aqui e ali sem muito cuidado. Ficamos emocionadas, contei o que havia se passado num tempo tão distante. Minha irmã desconhecia completamente essa história. Pedi e recebi consentimento para reformar o bebê.
Fui buscá-lo há pouco. Na loja onde esteve internado, virou sensação: afinal é um bebê de quase sessenta anos. Todos se apaixonaram por ele: o profissional que retirou os arames usados para lhe dar sustentação ia lá só para mostrar, com orgulho, seu trabalho meticuloso. Desapareceram todos os sinais de desgaste. A cabeça, que era um cascão só, recebeu uma camada de massa e os cabelos foram novamente pintados à mão. O corpinho exibe a tonicidade de antigamente. As roupas estão como novas. Os olhos (azuis e originais) abrem e fecham novamente. Peguei-o no colo, voltou minha emoção de menina de cinco anos, abracei-o.
Naquele momento senti que Papai Noel existe sim e me dava dois presentes. Um, o bebê para eu dar pela segunda vez, à minha irmã. Outro, a compreensão mais ampla do sentido e significado do que seja recuperação. Percebi que restaurar não é apenas reparar o superficial: vai além disso. Restaurar é começar outra vez; é reiniciar; é dar novo esplendor a alguma coisa, a qualquer coisa desbotada e desgastada pelo tempo. Isso é, também, ato de amor. Se deu certo com algo inanimado, com sentimentos e emoções também deve funcionar. Vou pôr em prática a técnica.
<b>ASPAS</b>
`Ai, meu Deus! Não vai dar tempo!`. (Desde o começo da semana, expressa por jovens e adultos, esta é a frase mais ouvida nas quitandas, corredores dos shoppings, supermercados, lojas de brinquedos, boutiques, varejões, feiras livres, salas de espera dos consultórios, filas de banco e filas de pagamento nos caixas dos estabelecimentos comerciais).
<b>LIVROS</b>
Da lista best sellers da corrupção o mais lido é Honoráveis Bandidos (Palmério Dória), com a história nada edificante de José Sarney. Dois outros, O Chefão (Ivo Patarra), apenas disponível na internet e Nunca Antes na História deste País (Marcelo Tas), têm como figura principal o presidente Lula. Com certeza, não serviram de inspiração ao filme apoteótico/mirabolante que inventa, feito folhetim de literatura de cordel, o nascimento, ascensão e glória do político. Filme, aliás, feito com dinheiro antes considerado sujo, doado por empresários antes considerados bandidos e suas ricas empresas antes abominadas e combatidas, hoje parceiras e muy amigas.
<b>SOBREMESA</b>
Sabe o gostoso e antigo manjar branco? À receita original, acrescente uma garrafinha de leite de coco. Inove a calda: corte em pedacinhos uma porção de damascos e ponha para dar ligeira fervida na calda de açúcar, ralinha. Prepare uma porção de pistache, sem casca, passada (muito rapidamente) no triturador. Monte assim: desenforme o manjar, disponha a calda em volta. Sobre o manjar, espalhe os pedacinhos de pistache. Rapidinha e, talvez por isso mesmo, gostosa!
<b>PONTO FINAL</b>
As apresentações de balé, que tradicionalmente marcam o final de ano de atividades, este ano deram show. Primeiro, na qualidade do espetáculo. Depois, no respeito ao horário. Parabéns às diretoras da escola, às bailarinas.
<b>Lúcia Helena Maniglia Brigagão</b>
<i>Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras</i>
luciahelena@comerciodafranca.com.br
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