O cão e a gente


| Tempo de leitura: 5 min
Continuamos, em casa, vivendo tempo de saudade, tentando nos adaptar ao vazio deixado por um pequeno animal. Falo de uma pequena poodle "champagne", adotada por nós quando tinha apenas 1 mês de vida. Minha mulher, uma descendente de italianos forte, determinada, prática, rainha da organização, não gostava de cachorros. Um dia peguei-a brincando de conversar com "alguém" que, "se emaranhava em seus pés". Perguntei. Disse-me: "preparo-me para finalmente adotar um bichinho. Preciso crescer como ser humano e enfrentar convivência com um pode ser significante". Eu, que sempre gostei de cães não pensei duas vezes: fomos em busca de Jully, nome escolhido antes mesmo de saber quem viria lá. No canil onde nasceu, o primeiro de muitos risos: Jully só pensava em brincar. Maior, esbarrava – e derrubava – as irmãs, tentava correr, tropeçava e rolava, tal um novelo de lã . Encantamo-nos. O pequeno animal ganhou seu espaço e passou a conviver conosco. Aliás, muito mais, com minha mulher. Tornaram-se inseparáveis. Acompanhavam-se no café da manhã, na visita às plantas e nas tarefas domésticas. Ajudou-nos muito na resolução dos conflitos próprios da convivência familiar. Se nos percebia afastados, ia a um, latia, olhava para o outro. Repetia a ação aos pés do outro. Reaproximou-nos em quantas e tantas ocasiões. À noite Jully guardava sua dona aninhando-se em seus pés e esperava o fim do capítulo. Mas preferia música. Música tocando? Podia-se sabê-la deitada, quieta, olhos semicerrados, orelhas se movendo em posição de sentido. Estranho? Há outras estranhices sobre Jully. Foi ensinada – treinada? – por minha mulher a fazer suas "necessidades" fora de casa. E foi assim por exatos nove anos e dez meses. Foi só no último mês, descompensada pela doença, estressada pelas duplas aplicações diárias de insulina, esqueceu-se como era. Cobrada ao início com paciência e depois, firmemente, abaixava a cabeça e saía andando, corpo trôpego, neurologicamente atingido. "Sabia" que errava. Entristecia-se. De quando em quando levantava a cabeça, olhava fixamente e, como a pedir desculpas, emitia um pequeno latido. Apenas um. Voltava a abaixar a cabeça e seguia até o próximo "deslize". Carnívora, nunca comeu carne. Acercava-se nos horários de almoço e de jantar. Sentava. Olhava com olho pidão. Sabe aquele "deem-me aí um pedaço de tomate, ou de cenoura, ou de abacaxi?". Ela gostava! Um dia, ganhou queijo. Adorou. Tornou-se quase um roedor. O queijo, sempre muito esperado, foi também a "manta" aos medicamentos contra dor, no último mês. E foi numa destas ocasiões que percebemos: Jully estava cega! O veterinário confirmou: glaucoma e catarata. Ao alimento dado, várias tentativas de mordidas perdidas no ar. Também se foi parte do faro. Jully não procriou. Não quis. Talvez minha mulher e meus filhos lhe bastassem. Preencheu conosco, certamente, sua necessidade de companhia. De minha mulher, tinha ciúme. Tentava tirar-me de perto na ocasião de um agrado, puxando-me pela calça. Se eu saía, como ela queria, ganhava um pequeno toque de focinho ou da pata, no pé. Se insistisse em ficar, rosnados ameaçadores ou calças quase furadas me faziam repensar. De todos os da família, inclusive de minha mãe que se considerava a "avó de Jully", conhecia os passos. Sabia quem vinha lá. Fazia festas diferentes. Tinha conjuntos de pequenos latidos para se "referir" a cada um. Já muito debilitada, acompanhou-nos à propriedade rural de amigos. Tivemos um dia difícil. Observamos Jully "trombando" com paredes, cadeiras, pessoas. Não encontrava mais água ou alimentação. Aliás, fiquem de olho. Se o ato de beber se tornar quase ensandecido em seus mascotes, corram ao veterinário. À tarde, deitou-se. Percebiam-se seus olhos abertos, enxergando o nada. De repente, levantou-se, descoordenada. Olhou para a "mãe". Mais dois passos e teve uma violenta convulsão. Estatelou-se no chão. Ficou. Desarmamos a visita. Voltamos. Permanecemos com ela por quase duas horas, prostrada, sentados em frente ao veterinário. Impossível descrever o que vai na alma num momento como esse. Um ser vivente mas já sem qualidade de vida, sem possibilidades quaisquer de readquirir saúde, respirando com grande dificuldade, esperava algo de nós. Olhos tristes, sem vida, pediam: "deem-me conforto". Era como saber alguém preso a uma cama, mantido apenas por aparelhos, à espera da decisão de eutanásia. Compreendemos agora, pelo menos em parte, sobre famílias que vivem esse difícil momento. Colegiamos nossas tristezas. Irmanamos o choro. Comungamos a decisão. Tomamos. Agora há um grande buraco, quase um precipício em nossas vidas, não pela decisão tomada e sim, pela falta física e emocional do cãozinho. Cada segundo dos últimos dez anos voltam à nossa memória a cada instante de um novo dia. Queremos lembrar dela em plena saúde, saltitante e partícipe mas não tem sido fácil. A RAZÃO Sei que quem não gosta de cães cobrará a razão de uso deste espaço nobre do Comércio para falar do descontrole emocional que a saudade pela perda de um "animal irracional" causa, mas quis fazê-lo. Aprendemos em família que a presença de um cão por perto tira densidade dos conflitos de relacionamento. Tenho certeza que o cão percebe as nuances do comportamento humano e reage, a seu modo, para reestabelecer a harmonia no cenário em que vive. Há quem diga que tudo isso é bobagem, que bicho é bicho e deve ser tratado como tal; mas quem diz, não o faz em público. Quem se manifesta em público é quem gosta. E, se os bichos estão aí, é preciso respeitá-los e respeitar quem gosta deles. A ESSÊNCIA DA RAZÃO Dedico este texto à minha mulher, Lourdinha. Coração grande de mulher generosa nunca se dá por satisfeito. Já era uma das melhores mães do mundo e, ainda assim, entendia que restava carinho para partilhar. Desafiou-se. Encontrou Jully. Venceu resistência a animais. Adoçou parte de sua forma de ser e tornou-se ainda melhor. Hoje, sofre com a separação causada pela decisão que, corajosamente, nos ajudou a tomar. Lutamos todos, agora, para lembrar só dos bons momentos da convivência. Deveríamos ter a capacidade de suplantar tristezas. Enquanto não temos, vamos treinando. Luiz Neto Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários