Grande parte do meu tempo é dedicado a treinar e ensinar novos sistemas, métodos de trabalho novos, introduzir modificações no que estava consagrado, mas se tornou obsoleto.
Com isso, desenvolvi um certo grau de tolerância para com as pessoas. Sei que nem todos pensam com a mesma rapidez nem possuem discernimento rápido. Quando observo no horizonte a formação de nova `bolha`, quando a velha ainda está entre nós e os efeitos dela nas finanças mundiais ainda prevalecerão por muito tempo, fico realmente sem saber o que pensar quando muitos teimam em não compreender. Surpreendo-me e não sei se devo atribuir isso à estupidez humana mesmo, a uma ganância sem freios ou, ainda, à volúpia de correr riscos.
De que estou falando? Dou dois exemplos: um, o preço do petróleo. Não houve queda de produção e também não houve aumento de consumo. As reservas para o inverno na Europa e nos Estados Unidos estão prontas há muito tempo, desde o barril a USD 40. Como então explicar o aumento do preço para quase USD 80? Pura especulação. Novamente petróleo está sendo comprado com dinheiro virtual na esperança de vender rápido, dar o lucro especulativo e devolver o dinheiro a quem o emprestou.
Segundo exemplo: a Bolsa de Valores de São Paulo anda beirando 70 mil pontos de valorização. Com base em quê? Na baixa do IPI que está terminando? Com base no otimismo cor de rosa do presidente Lula ou do Mantega, quando todas as estatísticas demonstram uma melhora modesta? Novamente trata-se de capital especulativo que ao primeiro sinal de perigo, sairá em debandada à procura de um porto mais seguro.
O otimismo oficial – e mais ainda em ano de eleição – deve ser tomado com um grão de sal, como dizem os americanos. Alguém ainda se lembra da euforia pelo etanol e pelo biodiesel? Perguntem aos produtores sobre o aperto que estão passando por ter acreditado cegamente nas palavras de políticos. A mesma história está se repetindo com o pré-sal. Os técnicos estão quebrando a cabeça de como tirá-lo do fundo do mar já que ainda não existe equipamento e nem tecnologia segura de como fazê-lo. E quebrarão a cabeça por bom tempo ainda. Existe, no entanto, briga sobre quem ficará com a diretoria da nova companhia que nem nome ainda tem.
E o que a indústria de calçados tem a ver com tudo isso? A indústria, na sua totalidade, muito pouco. Mas os industriais, individualmente, têm muito a ver com a situação da economia e das finanças globais. Nunca foi tão importante medir cada passo a ser dado, como atualmente. Até onde posso aconselhar meus clientes, repito até cansar: vigie seu capital de giro! Analise muitíssimo bem os planos de investimento, se é que vai ter coragem de investir. Não alongue o prazo de vendas. Tenha cautela na concessão de crédito.
A situação financeira da economia global ainda está crítica. Os trilhões de dólares que foram bombeados na economia para salvá-la do naufrágio é dinheiro virtual, mas mesmo este dinheiro virtual, um dia terá transformado em dinheiro real para ser devolvido.
Esta espada de Dámocles ficará pendurada sobre nossas cabeças por alguns anos ainda. A indústria de calçados na sua totalidade sobreviverá, mas as baixas serão bem acentuadas. Os menos preparados desaparecerão fatalmente. Darwinismo na indústria não é novidade. É preciso fazer o dever de casa: vigiar as despesas, calcular muito bem o custo/benefício (a Couromoda vem aí!), pesquisar o mercado antes de lançar a nova coleção para não queimar o capital sem sentido. O bom senso e a experiência ditarão à cada um o comportamento adequado. Ainda bem que a falta de dinheiro não nos deixa especular!
<b>ENTRE CHINESES ABASTADOS</b>
The Luxury Institute de Nova Iorque, especializado em avaliar e pesquisar o mercado de luxo, publicou um relatório sobre o comportamento dos chineses mais abastados, em relação às famosas marcas de luxo do setor de calçados. Em calçado feminino, três marcas se destacam: Ferragamo, Gucci e Hermes. No calçado masculino o mais popular é Louis Vuitton seguido de Versace. O terceiro lugar está dividido entre Giorgio Armani, Brian Atwood e Gucci.
<b>MERCADO MAIS PROMISSOR</b>
Milton Pedraza, diretor executivo do Luxury Institute, declara que a China é o mercado mais promissor em crescimento para os artigos de luxo, no futuro próximo. De algum modo os consumidores chineses cobiçam os mesmos artigos luxuosos que seus vizinhos japoneses e atribuem a estes artigos um valor muito maior, mas não sabem diferenciar muito bem entre eles como o fazem os japoneses bem mais experientes.
<b>LABORATÓRIO GLOBAL</b>
Os que não perdem tempo e se aproveitam desta nova onda de excitação sobre o luxo entre os chineses e passam por cima do movimento `back to basics` (volta ao básico) têm uma larga porta aberta para inovações entre os artigos de luxo, fazendo da China um magnífico laboratório global de inovações.
<b>Zdenek Pracuch</b>
<i>Sapateiro, shoemaker</i>
pracuch@comerciodafranca.com.br
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