Homem monta ‘casa’ com restos de lixo


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<b>O QUINTAL</B> - João Mendes posa para a foto na porta do seu barraco montado na saída para Ribeirão Corrente. Casa foi construída com peças encontradas no lixo.
<b>O QUINTAL</B> - João Mendes posa para a foto na porta do seu barraco montado na saída para Ribeirão Corrente. Casa foi construída com peças encontradas no lixo.
As cachorras Princesa, Neguinha e Pantera são suas únicas companhias. Típicas vira-latas, na manhã do último dia 2, elas estavam na porta de casa, posicionadas como verdadeiros cães de guarda. Lá dentro, João dormia com a porta encostada e sem se incomodar com a movimentação de carros e o sol forte do meio-dia. Desconfiado, ele apareceu na porta e questionou a presença da reportagem. Minutos depois não hesitou ao confirmar ser ali sua residência. João Mendes Pereira, 32, mora em um lixão na estrada para Ribeirão Corrente, via Fundão, e construiu toda sua “casa” com produtos encontrados no local. A “casa”, na verdade, não passa de um barraco de papelão, plásticos e madeiras retiradas do lixo. Tudo no cômodo é fruto do que foi descartado pela população. A cama, o colchão, os tapetes que forram o chão, o travesseiro e até a cômoda e os dois sofás do pequeno e abafado espaço foram encontrados no lixo. Serviços gerais, João disse que chegou ao lixão há cerca de 15 dias e montou aos poucos o barraco que tem servido de abrigo, principalmente durante a chuva e no frio da madrugada. “Antes eu estava debaixo de uma ponte velha no Martins, era no meio do mato, agora estou melhor. Aqui trabalho do jeito e a hora que quero”. Para chegar ao local, na parte alta do lixão, João providenciou uma escada feita de madeira. Analfabeto, sem documentos, ele se diz natural do Paraná, da cidade de Quarto Centenário, mas morava até o começo de 2000 na vizinha Ibiraci (MG). “Perdi meus pais há nove anos e sai de casa para andar. Tenho meus irmãos, mas eles também são pobres e não combinamos”, disse. Remexendo diariamente as três caçambas existente no lixão, João ganha a vida vendendo recicláveis, entre garrafas pet, latinhas, papelão e ferragens. Recolhe em média cinco quilos de material diariamente e por cada quilo recebe R$ 2. O dinheiro, segundo ele, é usado na compra de comida preparada em um fogão improvisado. João diz que em pouco tempo ganhou a confiança dos moradores da região e recebeu doações. As roupas recebidas estão dobradas, como se esperassem a hora de serem colocadas no guarda roupa, que ainda não existe. “Consegui um armário de cozinha para guardar as comidas, mas as roupas não tenho onde guardar”. Se não bastasse a montanha de roupas, no barraco há também três sacos lotados de sapatos, entre pares velhos e alguns novos, ainda embalados para surpresa de João. “Não consigo imaginar e nem entender porque isso vem parar no lixo”, diz indignado. De frente para um espelho, que completa a decoração do barraco, ao lado de duas imagens de santos, ele não prevê data para deixar seu novo lar, mas apresenta seus planos de vida. Seu sonho é juntar dinheiro e conseguir um emprego em uma fazenda onde possa trabalhar no que diz ser seu melhor afazer: mexer com o gado. “Já trabalhei em várias fazendas, mas não deu certo. Sou amansador de gado e penso em voltar a viver numa fazenda”.

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