Que tal vítimas positivas?


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Amplia-se o debate sobre o que embasa a escalada de violência que toma conta de Franca. De certeza – e não há, a rigor, certeza nenhuma – que educação empobrecida e família desestruturada aparecem na maioria das conversas sérias. Dia destes afirmei que o homem moderno está em mutação. Cobraram-me. "É indispensável que haja modificação genética para que uma mutação ocorra". Rebato. Refiro-me não à Biologia, mas à Ética. A mais terrível das mutações é a moral, que desequilibra o homem e as instituições. Os homens de hoje estão prestes a explodir e você pode tentar a experiência: ameace a mais tranquila das pessoas submetendo-a a tensões no trabalho ou mantendo-o fora dele, corte sua possibilidade de ganhos, violente a alegria que ele sente quando faz o que gosta, ofenda ou coloque em risco aqueles que ele ama. Brotará do mais profundo da alma desse indivíduo a fera indomada, mais uma igual às muitas que andam por ai incapazes de pensar mas capazes de matar, pisar sobre qualquer um. Nosso tempo está tomado por bichos ancestrais do tipo, fazendo vítimas reais ou contribuindo para dar vida a outras. São os tempos rápidos de agora – de pais que deixam fluir dinheiro aos filhos ao invés de "perder tempo" com diálogo "que não leva a nada"; de ironia e impaciência com seus poucos e valiosos amigos de caráter, aqueles com quem você pode contar na alegria e na tristeza; de desrespeito aos especiais, diferentes, idosos e menos letrados; de logros, engodos e dinheiros nas meias; de novelas que "retratam" o cotidiano e distanciam consciências ainda em formação; da progressão continuada nas escolas, tipo "manda para a próxima porque atrás vem gente"; de papéis e objetos descartáveis jogados pela janela do carro; de políticos que apõem assinaturas e as retiram porque sabem que "fio de bigode" é passado; de jovens e adultos que fazem sexo de alta rotatividade apenas para "curtir adoidado" o ato em si e propagandearem que são melhores que aquele ou aquela que não faz ou não faz tanto; de gente que grita, esperneia e até mata em defesa só dos direitos; de giletadas, confrontos físicos entre meninos e meninas, de ameaças a professores, "desde que não estejam dentro dos muros das escolas – que garantem: estamos sim, mutando, nos tornando criaturas preocupadas em salvar o nosso e despreocupadas com "o resto". Estamos mutando e conduzindo nossas crias a observarem como fazer para se dar bem sem olhar a quem. Ainda pior que tudo é a cegueira que nos impomos. Convido a quem me lê a praticar experiência fácil, que pode ser repetida todos os dias, em quaisquer ambientes. Olhe curiosamente as pessoas ao seu redor mas não deixe que percebam que você o faz. Preste atenção em como elas agem, como se relacionam, como falam. Perceba como se vestem, como andam. Tente advinhar o que fazem. Surpreenda-se. Apenas observando compreenderá porque alguns são bons e outros, maus. Perceberá, por relações familiares, porque alguns filhos gritam, agridem e porque outros são dóceis, amigos, gente com quem se pode contar. Gente de outro tempo ia à escola e aprendia Educação Moral e Cívica (o que são direitos e, principalmente, o que são deveres; o que significa votar com consciência e exercitar poder real e absoluto; porque dar lugar a alguém idoso, porque não pisar na grama, não atirar lixo em lugar indevido...), Organização Social e Política (o que é um País, um Estado, uma cidade, quais são seus símbolos, seus valores; como se organizam; o que são Poderes Constitucionais, quais são os papéis políticos, o que se espera dos representantes públicos...), Música e Educação Artística (você sabe o que significa solfejar? Você sabe o que são versos, estrofes? Você aprendeu a marcar compassos? Dançou – não, não me refiro a alguém que se deu mal – pelo prazer da dança e não pelo prazer sexual?). Estas eram matérias que foram sacadas das grades curriculares (manda prá frente que atrás vem gente, lembra-se?) de escolas que davam certo, que formavam cidadãos que gostavam de formar outros cidadãos. A conceituação e o ensino da cidadania se perderam. Perdeu-se também, na mesma medida, a escola pública democrática onde pobres e ricos tinham os mesmos bons professores, os mesmos desafios, direitos e deveres. A julgar pela crescente escalada de violência que oprime e deprime esta cidade e o País, este não é um tema para que apenas uma voz clame no deserto. Torço para alguns milhares de bons cidadãos, imutáveis porque forjados no equilíbrio do exercício de direitos e deveres deem o grito que precisa ser acontecer antes que seja realmente tarde. É a hora de fazer `vítimas positivas` aqui e ali e iniciar a revolução de cidadania que precisa ser feita. Será duro e muitos perecerão, mas "navegar é preciso, (só) dizer não é preciso"... TESTES RáPIDOS Verifique como você agiria se defrontado com estas situações: (1) Você acha um dinheiro perto do caixa de um banco. Não tem a mínima idéia a quem o dinheiro pertence. Alguém, que realmente precisa, fica sabendo e lhe diz: “se ninguém reclamar, doe para mim”. (2) O passageiro carona de seu carro, amigo de muitos anos, se prepara para atirar pela janela o saco plástico que continha chocolates. (3) Seu filho acabe de lhe contar que atropelou um cachorrinho que estava com um garoto. Fez e correu para casa. (4) Está claro no regulamento do exame no qual se inscreveu: para fazê-lo você precisa apresentar documento “com fotografia”. Você só tem o protocolo de uma carteira de identidade e não em qualquer outro documento. (5) Uma família muito pobre tem 8 filhos, nascidos quase 1 ao ano. As crianças precisam de leite. Os pais não trabaham. RESULTADOS Não. Não responda a mim. Responda à sua consciência. Luiz Neto Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br

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