Uma das palavras mais mal usadas na vida empresarial é "planejamento". Todo mundo enche a boca com planejamento, mas poucos sabem o que a palavra representa na vida diária da empresa.
Planejamento, no cotidiano na fábrica de calçados abrange tudo: desde o planejamento estratégico, que todo mundo recomenda mas poucos fazem e, menos ainda, praticam; até o planejamento de produção, que na maioria das vezes, de planejamento não tem nada. Trata-se de simples e transcrição de pedidos para fichas de produção.
O planejamento propriamente dito fica para o encarregado da produção, em cujo colo são descarregadas, às braçadas, as fichas de produção com um recado: vire-se! Infelizmente, planejamento e a programação na vida real é muito mais que isso. Ajudam as empresas que realmente sabem sua significância, a serem eficientes, prósperas e competitivas. Fica a pergunta: porque todas as empresas não podem ser assim?
Planejamento começa pela definição para que a empresa veio ao mercado. O que queremos vender, para quem, onde e quando. Ou seja planejamento aliado a marketing puro. Uma vez definida esta parte do planejamento, vamos ver a capacidade de produção e até que ponto podemos programar e expandir as vendas, efetuando planejamento por vendedor e por linha de produto. Até agora só estamos planejando. A programação ainda está dormindo.
Muitas vezes alegam-me: mas como saber se vou vender ou não? Ai é que está. Se as companhias aéreas vivessem com esta dúvida, dificilmente um avião decolaria. Do mesmo modo como se espera da produção que produza o esperado, assim também esperamos da venda, que comercialize o que produzimos. (Eu sei: com métodos de vendas do século passado a coisa dificilmente vai funcionar, mas isso já é outra história).
Uma vez, vencido este desafio do planejamento, vem a fase da execução da programação. Uma vez por semana, sempre no mesmo dia e na mesma hora se reúnem chefes de vendas, de compras, de produção, assistidos pelo encarregado da programação. Como vamos programar?
O chefe de vendas diz o que deve entregar na semana vindoura. O chefe de compras confirma que os materiais para estes pedidos estão contados e conferidos na prateleira e o chefe de produção confirma se tem capacidade de produzir. Pode haver alguma complicação – o giro de formas pode não ser suficiente, pode haver alguma máquina com capacidade crítica insuficiente etc. O chefe de compras só pode garantir a produção com os materiais conferidos e disponíveis na prateleira. Não vale dizer que "já está chegando", que o fornecedor "mandou". Mandou o quê? E se não for na cor ou espessura certa, vamos parar para esperar? Finalmente, o consenso completo. Se não houver consenso integral, a reunião não pode terminar. Agora sim, o programador pode iniciar a confecção das fichas de produção.
Este sistema funciona em todas as fábricas do grupo Bata no mundo e chama-se `freezing`, porque o resultado da reunião é congelado e será posto em funcionamento mesmo que o chefe de vendas venha correndo avisar que o cliente cancelou o pedido. Os demais vão dar de ombros: "o problema é seu. Venda para outro". A produção não vai parar por causa disso.
Isto se chama programação. Agora vem a pergunta: quantas fábricas praticam este tipo de programação? Onde cada um sabe com uma semana de antecedência o que vai fazer? Onde não haverá necessidade de horas extras? Onde não haverão pedidos para `tocar na frente`? Enfim, uma fábrica que funciona com tranqüilidade.
Quando trabalhava com exportação e colocava um pedido na Vulcabrás de Franca, diziam-me com um mês de antecipação: "o pedido será embarcado dia 14 de agosto as 16 horas!". E assim era. Por quê? Porque o dono, o senhor Pfulg trabalhou na Bata Suíça e implantou o regime na sua íntegra.
Quantas fábricas andam aos trancos e barrancos porque estão aterrorizadas por seus representantes e até por lojistas? Se o pedido que dei ontem não vier daqui a dois dias será cancelado! O dono da fábrica quer ouvir tudo menos sobre o cancelamento do pedido. Começa a praticar terror dentro da fábrica, atrasa pedidos de outros clientes e a empresa, que poderia ser um lugar agradável de trabalhar vira a antecâmara de inferno. Por falta de planejamento a partir de vendas. Simples assim e terrível!
<b>NA CHINA</b>
A exportação de calçado chineses de couro teve queda de 23,7 % em volume e 18,9% em valor, em agosto de 2009, comparado com agosto de 2008. O total de exportações nos primeiros oito meses atingiu 500 milhões de pares no valor de USD 5,57 bilhões. A despeito destas cifras apareceram notícias positivas na região de Zhejiang que já está vivendo uma virada na tendência.
<b>NA ESPANHA</b>
A Associação Industrial de Elche, na Espanha, que representa o maior centro de produção de calçados daquele país, declarou que em consequência da crise global o numero de membros da Associação diminuiu. Embora a Associação tenha admitido 10 novos membros, 42 deixaram de sê-lo. Destes 20 encerraram atividades. Várias outras declararam que não tinham mais condições de pagar as mensalidades. Numa declaração em separado foi dito que o numero de empresas na Espanha declinou em 11,6% e o número de empregos caiu em 5,4%.
<b>Zdenek Pracuch</b>
<i>Sapateiro, shoemaker</i>
pracuch@comerciodafranca.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.