‘Trabalho desde os seis anos de idade’


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EXPERIÊNCIA - O médico Cleomar Borges acompanhou todo o crescimento de Franca: ‘Comparar Franca de antes com agora é o mesmo que comparar uma criança com um adulto’
EXPERIÊNCIA - O médico Cleomar Borges acompanhou todo o crescimento de Franca: ‘Comparar Franca de antes com agora é o mesmo que comparar uma criança com um adulto’
<p>Ginecologista e obstetra, Cleomar Borges de Oliveira, 77, ajudou trazer ao mundo mais de oito mil francanos. O médico, que há sete anos deixou de fazer partos, acompanhou de perto o desenvolvimento de Franca e, especialmente, da medicina que, segundo ele, evoluiu e deixou a cidade independente. Filho de operário e costureira, Cleomar Borges chegou a Franca doutor, com 35 anos de vida, casado e três filhos. Outros dois filhos e doze netos nasceram na cidade. O mineiro de Conquista cresceu em Sacramento, formou-se na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, mas foi na região de Franca que se tornou um médico conhecido. </p> <p><br />Antes de pisar na terra do capim mimoso, ele trabalhou em Rifaina. Seus diagnósticos precisos atraiam para lá pacientes de Franca que estavam em busca de cura. Sua fama correu e chegou aos ouvidos do médico urologista e vereador Joaquim Pereira Ribeiro. Ele fez o convite para Cleomar se mudar para Franca, se dispôs a cobrir o que ele ganhava no posto de saúde em Rifaina, e o ginecologista topou o desafio. Em 1967 ele chegava à cidade com a família, com a mudança trazida por Joaquim e instalou-se em uma casa no Centro. Na cidade, ajudou a fundar o convênio da Unimed/Franca e foi um dos diretores do Hospital São Joaquim. Também batalhou por melhorias na Santa Casa onde fez a maioria dos partos das suas pacientes. </p> <p><br />De doutrina espírita, Cleomar revela que se realizou fazendo serviço voluntário no Hospital Allan Kardec. Assim que chegou a Franca, paralelo às suas atividades na Santa Casa, ele passou clinicar no hospital. “Todos os sábados eu vinha para o hospital. Na parte da manhã atendia as mulheres e à tarde os homens”. A atuação voluntária continuou ao longo dos anos, mas com menor intensidade, já que o Allan Kardec passou a contratar médicos. Em 1999, ele foi convidado para fazer parte da diretoria da instituição. Logo assumiu a presidência onde ficou até o ano de 2007. </p> <p><br />Atualmente, o médico mantém o atendimento a pacientes no seu consultório de ginecologia e atua, desta vez contratado, como clínico no Allan Kardec. “Atendo aqui três vezes por semana”, disse Cleomar que escolheu a sala do consultório do hospital para conceder a entrevista que segue.</p> <p><strong>Comércio da Franca - O senhor acompanhou toda a transformação de Franca. Como vê o antes e o depois da cidade. De uma cidade típica do interior para um município moderno?<br />Cleomar Borges de Oliveira -</strong> Quando eu mudei para Franca, a cidade tinha 50 mil habitantes e pouco mais de 50 médicos. Hoje são mais de 500 médicos. Comparar Franca de antes com agora é o mesmo que comparar uma criança com um adulto. Naquela época raramente os casos mais graves ficavam aqui. Tudo migrava para Ribeirão Preto. Foi quando vieram dois médicos que considero um divisor de águas na medicina de Franca que é o Fernando Ruas e o Joaquim Pereira Ribeiro. Eram médicos que tinham uma formação acima da média. </p> <p><strong>Comércio - Como era o costume daquela época nos hospitais e a diferença com hoje?<br />Cleomar Borges -</strong> A Santa Casa era praticamente uma enfermaria. Tinha uma com 30 leitos para mulher, outra do mesmo tamanho para homens e uma para criança. Existia uma bem pequena para a maternidade. E nessa ocasião, ela era tocada por freiras bem habilitadas. Uma até anestesia fazia. Os médicos eram chamados emergencialmente. E nós passamos, então, a criar normas lá dentro. Foram chegando médicos novos e os plantões começaram a ser criados. </p> <p><strong>Comércio - Os partos, então, aconteciam sem a presença do médico?<br />Cleomar Borges -</strong> Sim, aconteciam com muita freqüência. Tinham irmãs que eram parteiras. Só quando a coisa complicava que chamava o médico. Mas aí, a gente trouxe uma mentalidade um pouco mais arejada e começamos com os novos as mudanças. Criamos o primeiro Pronto-Socorro, na Santa Casa. Nesse tempo a gente fazia de tudo. Eu ia à sombra do Dr. Joaquim que era um polivalente, um curinga. E as coisas foram acontecendo. </p> <p><strong>Comércio - Quando o senhor começou na área de ginecologia e obstetrícia havia poucos médicos na área. O senhor era, digamos, famoso na cidade?<br />Cleomar Borges -</strong> Não, tinham médicos bem famosos e bastante conhecidos aqui. Procurei entrar no mesmo nível que eles. </p> <p><strong>Comércio - E o senhor conseguiu?<br />Cleomar Borges -</strong> Olha, como todos faziam de tudo, os médicos precisaram se definir como especialistas. O que tinha feito com mais gosto foi a obstetrícia e para isso a gente precisava de título. Em 1972 fui ao Rio de Janeiro e fiz concurso para especialista. Esse concurso geralmente acontece em um congresso. Lembro que fomos eu e outros dois. E os três fomos aprovados. Posso te dizer que neste mesmo concurso 50% dos participantes foram reprovados. A partir daí, me dediquei mais a especializar e fui deixando de lado as outras coisas. </p> <p><strong>Comércio - O senhor se lembra de ter feito parto de alguma personalidade de Franca?<br />Cleomar Borges -</strong> Há pouco tempo estava relacionando os médicos que atuam em Franca e contei dez que nasceram comigo. Os filhos do Chuí e do Guerrinha (atletas do basquete) nasceram comigo. As duas últimas irmãs do Dr. Ubiali (deputado federal) também. Muitas médicas fizeram seus partos comigo. </p> <p><strong>Comércio - E o senhor acompanhou o crescimento dessas pessoas?<br />Cleomar Borges -</strong> As mulheres são muitos fiéis. Geralmente aquelas que a gente assistiu no parto continuam sendo clientes da gente. Estou em Franca há 42 anos, e tenho clientes com 60, 70, 80 anos. </p> <p><strong>Comércio - O que o senhor acha que melhorou e piorou na cidade durante nesses 42 anos que está aqui?<br />Cleomar Borges -</strong> Primeiro plano é que deixamos de sofrer a dependência de Ribeirão Preto. Hoje você tem tudo em Franca. Era muito difícil quando você fazia um diagnóstico, convencer o paciente de se tratar aqui. Se você precisava de um ultra-som tinha que ir a Ribeirão fazer. Isso deixava o profissional enfraquecido. Você não tinha muito argumento. Foi uma luta. Acho que é uma conquista. Nós, os profissionais mais antigos, preparamos o terreno para essa moçada que está hoje feliz da vida. Agora o SUS (Sistema Único de Saúde) piorou. Lembro que o SUS remunerava bem melhor e você não precisava se preocupar em atender um particular porque era compensador. Isso fez com que o médico hoje tenha que atender muito para ter remuneração razoável e também fez cair a relação médico-paciente. <br /></p> <p><strong>Comércio - Tem algum parto ou procedimento que viveu em Franca e marcou sua vida?<br />Cleomar Borges -</strong> Tenho uma história dramática. No tempo em que a Santa Casa vivia um período muito pobre havia duas salas de parto separadas por um biombo. Estava terminando de fazer um parto e alguém empurrava uma maca correndo pelo corredor. Uma enfermeira me gritou e pediu: ‘ajude aqui que a mulher parou, mas o bebê está vivo’. Enquanto ela tentava entubar a mulher para oxigenar, mesmo sem anestesia, eu abri a mulher e tirei a criança viva. Ela não voltou. Como tinha madre superior, era preciso levar o caso ao conhecimento dela. Entregamos a criança a ela e no dia seguinte a notícia correu e apareceu um senhor e pediu a criança. A madre era rigorosa e disse que deveria comunicar ao juiz. Pediu a ele para deixar o nome. Mais tarde esse senhor voltou com a esposa e um casal de filhos da mulher que morreu. Ele, chorando, ajoelhou perante a madre, pediu perdão e disse: ‘eu menti para a senhora, eu sou o pai dessa criança. Contei para minha esposa e ela já me perdoou e quer criar como nosso filho’. Isso marcou. </p> <p><strong>Comércio - O senhor segue a doutrina espírita. Ela te ajuda enquanto médico?<br />Cleomar Borges -</strong> (...) No evangelho, uma carta de São Paulo diz que nunca estamos sós, sempre temos uma nuvem de testemunhas. Acredito que essa nuvem de testemunha é a espiritualidade. Essa espiritualidade é atraída pelos nossos sentimentos e pensamentos. Então sempre que a gente está num procedimento, trabalhando com seriedade, procurando ser útil, ser humano, você não está só. Como o contrário também é real. Se a gente está mal intencionado, só pensando no que vai  render, o acompanhamento não é dos melhores. </p> <p><strong>Comércio - O senhor acredita em milagres, em casos de cura quando a medicina esgotou todas as possibilidades?<br />Cleomar Borges -</strong> Acredito que isso tudo é natural. Isso se explica pela questão de sintonia. É como o rádio, a televisão. Eu pego o canal que eu busco. E isso não é milagre. É uma assistência espiritual. Deus está sempre presente nas nossas vidas, mas é preciso que a gente também esteja presente. </p> <p><strong>Comércio - Mas o senhor acredita que há possibilidade de cura quando a ciência não tem mais recursos?<br />Cleomar Borges -</strong> Lógico. Isso acontece e muito. Muito mais do que vocês imaginam. </p> <p><strong>Comércio - O senhor deve ter se deparado com muitos casos de pessoas sem condições de pagar uma consulta. Como lidava ou lida com isso?<br />Cleomar Borges -</strong> Sempre foi uma norma para minhas secretárias nunca deixar de atender por falta de pagamento. Eu desafio alguém a apontar uma pessoa que foi no meu consultório e que voltou porque não pode pagar. E isso sempre foi muito fácil para mim porque sou de uma origem muito pobre. Somos dez irmãos e eu sou o terceiro. Meu pai era operário, trabalhava em máquina de beneficiar arroz e café. Minha mãe, em casa, além de cuidar dessa turma toda, costurava para fora, fazia crochê, doce e amendoim para a gente vender na rua. Trabalho desde os seis anos de idade. Aos dez anos distribuía jornal da cidade. Então, valorizo muito o esforço e a luta das pessoas. Sei o que é ser pobre. Aliás, continuo pobre. </p> <p><strong>Comércio - Sendo médico e espírita, como vê o nascimento de uma criança?<br />Cleomar Borges -</strong> Nós espíritas somos reencarnacionistas. Acreditamos que a vida é um degrau da nossa evolução espiritual. Em cada vida é como se você se matriculasse em um curso para aprender alguma coisa. Já tive múltiplas e certamente terei muitas outras ainda. A vida material, que a gente considera importante, deve ser um meio, e não um fim. Como meio de progredir. Não vou levar nenhum diploma quando eu partir. Mas o que aprendi, o que conquistei, isso ninguém me tira. </p> <p><strong>Comércio - Em sua opinião, a religião diferencia o profissional médico?<br />Cleomar Borges -</strong> Sempre aprecio o profissional que tenha uma religião. Porque o indivíduo que tem uma religião tem, pelo menos, o respeito ao semelhante. Isso valorizo demais. </p> <p><strong>Comércio - Para finalizar, o que Franca significa na sua vida?<br />Cleomar Borges -</strong> Se há uma cidade a que realmente eu me prendi, onde sinto que minhas raízes penetraram fundo, é Franca. </p>

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