Mulheres – desculpa –, moças nascidas nos anos anteriores a 1960 – em sua maioria absoluta – foram educadas para casar. Curso de normalista, arrumar casamento e casar. Véu, grinalda, enxoval, buquê, livro de receitas, curso de culinária, bordados: casar.
O noivo, fundamental figura, durante o processo despencava do gancho da notoriedade para ser apenas mero detalhe à medida em que o grande acontecimento (a cerimônia) se aproximava. No período de caça ainda tinha certa relevância, depois de fisgado, ninguém se importava lá muito com ele, não...
Era necessário que estivesse dentro do estereótipo BBB, nada a ver com o sentido atual da sigla. Significava: Boa-procedência, Bons-modos, Bom-emprego. Se não era BBB, só B ou BB bastavam: o carinho e o amor (a vir depois) tudo vencia, lembra disso? O tipo inverso, o bbb, pouco cobiçável, mesmo assim não era totalmente descartável: defeito masculino, naquela época, era única e exclusivamente não gostar de mulher. (Por bbb entenda-se o gajo que bebia-além-da-conta, batia-nela, botava-chifre-nela. Puro, no ranking, pegava os últimos lugares, porém se tinha um B qualquer a mais, subia na classificação. E, se tinha os três minúsculos e os três maiúsculos, minha filha... ganhava a faixa de macho!)
Toda cidade tinha uma meia dúzia de puríssimos bbbBBB. Aqueles, que tinham engravidado algumas moças e todo mundo sabia – tinham obsessão por tirar-lhes a virgindade, engravidar e deixá-las. Tinham quase sempre algum dinheiro e sempre muita sorte: escapavam das balas dos pais das famílias `desonradas`, casavam-se com as moças mais virgens (e ricas) da região para fazê-las infelizes. Tinham com elas um monte de filhos gerados nas madrugadas em que chegavam bêbados, exigindo da esposa o cumprimento dos chamados deveres conjugais. Fácil reconhecer tais mártires da sociedade: eram as mais rezadeiras, pias, carolas, amargas, intolerantes e moralistas de todas as mulheres.
Mas voltemos aos prosaicos BBBs e às suas prendadas noivinhas. A memória arquiva um monte de prospects BBBs. Alguns médicos – os mais cobiçados, espécie de deuses; outros engenheiros, dentistas, farmacêuticos, advogados (que os avós pronunciavam adêvogados), professores, bancários, funcionários públicos, industriais (nem tanto, que tirando uns poucos de sucesso, os demais eram um tiro no escuro), comerciantes. Eram essas as principais categorias. Os corações femininos pinçavam os objetos a serem amados dentro deste universo restrito de profissionais. Para a moça, um único e exclusivo atributo: ela tinha que ser... tchan, tchan, tchan: virgem! Podia ser feia, podia ter mau hálito, podia ser remelenta, podia ser incapaz de ler e compreender uma receita de bolo que fosse. Mas tinha que ter selo de segurança intato! Corpo puro, impoluto e intocado.
Signos e significados dessa época das cavernas que pareciam deletados da memória, saíram do limbo e se manifestaram durante a leitura das chamadas de capa de revista exposta em banca, ao alcance dos olhos e curiosidade de qualquer criança, que já não é criança como as daquela mesma época das cavernas... Comecemos com o Dicionário Sexual da Paquera – dez interpretações das sutis reações do seu e do corpo dele durante a aproximação. (Nenhuma referência a levitar, à suadeira e ao aceleramento dos batimentos cardíacos); 6 tipo de sexo que eles adoram (leia com cuidado e, para praticar, se não estiver em dia com alongamento, nem tente!); moda: seduza a ala masculina com a saia que deixa as curvas à mostra (nossas minis dos anos sessenta ficaram parecendo anáguas de crinolina...).
Chego à conclusão de que as mulheres nascidas nos anos posteriores a 1960, a julgar pelos apelos dos artigos das revistas, estão sendo treinadas para... caçar. Concluo e encerro a fim de não legitimar a recente alcunha de "denorex" à qual fiz jus, disseram... Independente do merecimento ou confirmação da designação, acredito que temos mais a fazer que ficar correndo – a qualquer preço – atrás das atenções masculinas.
<b>ASPAS</b>
`Duas palavras que abrem muitas portas: Puxe e Empurre.` (Pára-choque de caminhão)
<b>DESEJO</b>
...de ser a bailarina: quem não tem? Veja bem: todo mundo tem pereba, marca de bexiga, de vacina; tem piriri, lombriga, ameba, só ela que não tem. Ela não tem frieira, não tem coceira, nem falta de maneira... Unha encardida? Não! Dente com comida? Nem ver! Casca de ferida? Credo! Além desses atributos, ainda por cima é delicada: nenhuma bailarina grita ou fala alto. Perfeita. Chico Buarque que o diga. Que inveja!...
<b>ANIVERSÁRIO</b>
Franca faz aniversário, os francanos ganham presentes. A Orquestra Sinfônica de Franca, 28 e 29 de novembro, no Teatro Municipal, reapresentará os melhores momentos de suas performances e contará, em alguns deles, com a contribuição fantástica que solistas e seresteiros lhe deram em ocasiões memoráveis. Quem durante o ano acompanhou a OSF sabe do que se trata. Outros presentes: entrega de obras públicas, inaugurações. Fora as festanças, o prazer de ver a cidade crescer e ser muitíssimo bem cuidada.
<b>PONTO FINAL</b>
`Posso ajudar?`, diz a moça da loja. Sim, respondo, esperançosa. Por favor, procuro sandálias tamanho 36, cor clara, de couro, presa no tornozelo, salto baixinho, mas não plataforma, pode ser? `Sim!` ela responde e desaparece. Demora uns dez minutos. Volta equilibrando um monte de caixas e diz, com muita alegria: `Olha, do jeitinho que você pediu, não tem: vai chegar na próxima semana, mas tem essas aqui, ó!`. Sandálias de cetim preto, salto agulha, plataforma de cinco centímetros e de tiras só na frente. Nenhuma 36, só 35 ou 37! Vou embora tentando entender por que me chamam de enguiçada.
<b>Lúcia Helena Maniglia Brigagão</b>
<i>Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras</i>
luciahelena@comerciodafranca.com.br
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