Não me surpreendo mais quando, em resposta a pergunta que faço sobre resultados de mês (ou semestre) passado, devolvem-me outra pergunta: "Como é que vou saber?". Ou "Dá para saber, sem fazer balanço?". Ou ainda e na maioria dos casos: "Não sei".
Fico a imaginar como está a gestão da empresa, presumivelmente com fins lucrativos. Se estivesse falando com provedor de Santa Casa, tudo bem, mas com empresário de uma empresa viva, atuando no mercado? Francamente!
O nome "contabilidade de resultados" foi dado pelo saudoso Peter Drucker. Antes disso foi chamada de `contabilidade de custos` ou `contabilidade industrial`. Aliás, com este último nome a introduzi na Calçados Saméllo (atenção revisão: na época tinha acento sobre o "e"!). Era uma versão simplificada da contabilidade usada nas organizações Bata, mas os resultados de cada um dos centros de custos e fechamentos semanais, essenciais para uma boa gestão, foram conservados.
Não tínhamos computadores nem calculadoras eletrônicas. Era feito tudo na raça e coragem. Centros de custos abrangiam não somente os departamentos de produção como corte, pesponto, montagem, cartonagem ou almoxarifados, mas também manutenção, ambulatório, administração etc., mais cada loja própria, em separado.
Era um trabalho de perfeita coordenação e de responsabilidade dos dois contadores na época, João Perente, já falecido e Eduardo Belotti, que mais tarde exerceu função de diretoria no grupo Amazonas. A partir de terça-feira juntávamos toda a documentação e, no sábado (sim senhor, trabalhávamos no sábado até o meio dia) apresentávamos os resultados na reunião de diretoria. A documentação não era tão volumosa, mas era feito tudo a mão, com calculadoras mecânicas a manivela que a nova geração desconhece por completo.
E a ansiedade para conhecer os resultados era tanta que a gente tinha que enxotar o Wilson Sábio de Mello de perto de nossas mesas, ele que passava a rodear a partir da quinta-feira, como quem não quer nada. `Wilson, por favor, deixa a gente trabalhar!`; `Sim, sim, eu só queria saber como está saindo a semana!`. A ansiedade era compreensível num dirigente cônscio das dificuldades de uma empresa em crescimento e que tinha entendido perfeitamente a importância do acompanhamento dos resultados. Com sua inteligência privilegiada ele entendeu a importância do conhecimento imediato dos resultados das atividades para a tomada das ações corretivas. Nossos contadores, em geral, não foram treinados como os contadores de uma multinacional igual à Bata, que acumulou conhecimentos práticos no mundo inteiro, obra das melhores cabeças nas várias áreas de interesse.
Quando contador faz o levantamento dos resultados normalmente leva em conta as contas a pagar, contas a receber, realizável, disponível e no fim, com algum grau de incerteza apresenta o resultado com uma porção de ressalvas. A contabilidade de resultados é diferente. Parte do princípio que vida da empresa é dividida entre parte econômica que mostra o desempenho e a parte financeira que, embora intrinsecamente entrelaçadas, são duas grandezas diferentes e como tais devem ser analisadas.
Exemplo? Posso estar no cheque especial empresarial atolado até o pescoço, mas se minha empresa é lucrativa meu aperto acabará mais cedo ou mais tarde; mas, se a minha empresa na parte econômica não apresenta lucros, mais cedo ou mais tarde o meu capital desaparecerá!!!
Nunca vou esquecer o espanto de um empresário de Nova Serrana, empresa do qual introduzi a contabilidade de resultados há dois anos. Lá, junto a uma recém saída da faculdade de administração, verificamos que em quatro meses a firma faturou milhões e lucro se resumiu a R$ 17 mil!!! Bastava alguém não pagar uma duplicata de vinte mil e a firma entraria no vermelho, trabalhando quatro meses de graça.
"Me explique isso", disse-me o empresário, muito nervoso. Retruquei: "não tenho nada a explicar. Você que me explique como está administrando sua empresa produzindo prejuízo". Bem. Isso foi em maio. Em outubro, ele já produzia lucro de 13,5% sobre o faturamento. O susto valeu.
Aqui, volto novamente a meu tema predileto: gente, como vamos competir na área global com este tipo de gerenciamento?
<b>CHINA AMPLIA </b>
Uma nova área para produção de calçados está sendo desenvolvida na cidade de Dagang, na China. Pelas notícias, as firmas estrangeiras estão investindo naquela região. Uma firma de Taiwan está construindo um centro de pesquisas e desenvolvimento num prédio de 2 mil metros quadrados para ser inaugurado até o fim do ano. A produtora americana de equipamentos e máquinas United Shoe Machinery Corporation (USMC) irá investir 500 milhões de yuan (US$ 73,2 milhões) na área.
<b>SAPATILHA ESPECIAL</b>
A Reebok se associou com o Cirque du Soleil para desenvolver uma sapatilha especial destinada a longas horas de treinamento, chamada de FlySet. Enquanto a metade da novidade será lançada através das melhores academias dos Estados Unidos e Europa, a outra metade será lançada para classes de novas bailarinas na Argentina, Chile, Coréia, Hong Kong, Malásia e Polônia.
<b>Zdenek Pracuch</b>
Sapateiro, shoemaker – pracuch@comerciodafranca.com.br
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