Aceita-se como verdade que deve-se conhecer o passado para que se possa entender o presente e, talvez até mesmo o futuro. Durante o período da ditadura brasileira, era mais fácil abrir uma faculdade de medicina que abrir um posto de gasolina! Sabem por quê? Porque interessava ao governo da época formar tantos médicos quanto possível, sem garantir ensino adequado para os mesmos. Assim, médicos em profusão estariam disponíveis para trabalhar por qualquer honorário, em qualquer situação, na banalização completa da categoria. Houve um governador de Minas Gerais que ao ser informado por seu secretário de saúde que os médicos estavam entrando em greve, disse: “não tem problema, médico é igual a sal, branquinho, barato e tem em todo lugar!”.
Os tempos mudaram. Hoje, abre-se um posto de gasolina com facilidade, uma faculdade de Medicina, não! E por que não? Porque não há necessidade de mercado. Existem faculdades de medicina em excesso. A oferta de vagas é enorme. O Brasil é um dos países com maior número de faculdades médicas em funcionamento no mundo mas a qualidade de ensino fica a desejar. O País contraria a tendência mundial de fechamento de escolas médicas! Por outra, não há garantias de formação de profissionais aptos para o exercício de tão nobre e difícil profissão. O exercício da medicina é extenuante, quase sempre mal remunerado e caracteriza profissão em que o o ato médico revela-se de complexidade infinita frente as individualidades atendidas, o que foi recentemente reconhecido pelo Congresso Nacional. Isso obriga o profissional ao permanente estudo, à dedicação exclusiva, ao desapego aos familiares, a um sentido de prontidão permanente em qualquer lugar, a qualquer hora, qualquer dia. A qualquer urgência e/ou emergência o médico deve estar sempre disponível.
O profissional que todos querem e merecem precisa percorrer um caminho longo em sua formação: locais apropriados para o ensino teórico, docentes experientes na prática médica e qualificados na arte de ensinar, possibilidade de interagir com serviços médicos de relevância, estágios supervisionados com a presença física de seus preceptores, acesso irrestrito a bibliotecas reais e virtuais, encontros acadêmicos com outras faculdades. E digo mais: é necessário que paire sobre as cabeças dos jovens vocacionados um saber acumulado que influencie, incentive e até mesmo maravilhe, fazendo com que dediquem todo o tempo, o intelecto e o mais alto bom senso às suas formações médicas.
É oportuno dizer que todas as entidades médicas são contrárias a abertura de novas faculdades médicas, cada uma priorizando um aspecto ou outro. O que precisamos em Franca é melhorar sempre a capacidade dos médicos que aqui estão e os que vierem, dando-lhes educação médica continuada, locais adequados para o trabalho, remuneração compatível com a profissão (hoje o salário para 20 horas semanais estabelecido pelas entidades médicas é de R$ 8,2 mil/mês, muito diferente do recebido em nossa região), acesso a equipamentos necessários à complementação da profissão, garantia de serem fornecidos os medicamentos prescritos, garantias de execução dos procedimentos médicos solicitados – a exemplo de cirurgias eletivas. Isso oferecido, que nos exijam a mais ética e acolhedora prática médica possível. Não sou contra Franca ou suas instituições. Sou contra a abertura de novas faculdades de medicina.
Marco Aurélio Piacesi
Médico emergencialista, ex-conselheiro deste Comércio da Franca
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