Boas perguntas!


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Não acredito que brasileiro tenha memória curta, como não acredito que as pessoas não se indignem diante de tanta sujeira e indecência das quais tomamos conhecimento. Não acredito que brasileiros pensantes não percebam o quanto o governo manipula a opinião pública – prática antiga! – como não acredito que o filme romântico/biográfico da vida do Presidente não tenha sido lançado num momento estratégico diante das eleições prestes a acontecer. Não sei a que atribuir minha inércia todas as vezes que percebi haver um intenção por trás da superposição de escândalos pela mídia: toda vez que é preciso (ou necessário) um ardiloso, manhoso, tinhoso e inexpressivo acontecimento ganha em proporcionalidade e abafa, relegando a um segundo plano, o acontecimento realmente sério e básico que não interesse ser comentado ou discutido. Ou analisado. Uma moça – com ‘seu jeito’ peculiar – desfila pelos corredores da faculdade com roupa de balada e é selvagem e verbalmente atacada pelos colegas. Duvido que ela tenha sido a primeira a se despir, digo, vestir assim para ir às aulas e se desconhece o estopim que deflagrou a ira dos circundantes. Não participei da quase chacina e se estivesse perto ajudaria a socorrê-la mesmo apostando que sua intenção era provocar atenção e ganhar dois segundos de fama. Ela tinha um plano, acredito. E teve êxito. As notícias publicadas confirmam. Essa é minha opinião, mas não é unânime – felizmente –, porque toda unanimidade é burra, como dizia o filosofante Nelson Rodrigues... Ainda bem, diria o terapeuta, que há diversidade de opiniões. Muito bom cada um ter sua própria ideologia, continuaria dizendo. Que maravilha alguém contestar você! Fantástico suas crenças e valores não serem sólidos e cristalizados: você vai virando ‘gente’, afirmaria, à medida em que as pessoas discordam de você. É um processo – repetiria o que vem me dizendo há anos: alguém diverge de um juízo seu, de uma opinião sua, você se abala, se desestrutura, sente profundo incômodo, tem que repensar, reformular suas assertivas, redirecionar suas emoções e aí dar um passo à frente – aceitar a diversidade ou estacionar, que é o primeiro momento da sequência no fim da qual a gente vira limo. Ainda fico tiririca quando ele me fala assim. Sermos contrariados não é bom mesmo. Mas fica pior, percebi, quanto mais eu quero ter a palavra final de qualquer discussão, ou razão na maioria das vezes em situações nevrálgicas ou dissensões corriqueiras. O papel da similaridade na nossa vida é importante. Qualidade importante, por exemplo, para escolhermos amigos; permanecermos juntos aos familiares – é ela que nos possibilita formar um clã doméstico –; conseguir desenvolver empatia para nos relacionar com o próximo, sentir compaixão – aquela verdadeira: ver com paixão pessoas, situações e até coisas na maioria dos momentos de nossa experiência. Por outro lado a diversidade nos enriquece. É a diferença que nos estimula, que nos tira da acomodação. É a dessemelhança que inquieta nossos espíritos, nossa inteligência. É a divergência que oportuniza e embasa a criatividade. É a contradição que nos faz pensar duas vezes e achar solução para os problemas. E é a oposição que não nos permite tiranizar amores, objetos, pessoas e opiniões. A similaridade é acomodadora, pois confortável. A diversidade é desconfortável, daí ser instigante. Bem. Agora, estou aqui com a cabeça quente, fervendo, até. Enquanto se discutia, clamando pelos mais altos ideais – um fato corriqueiro, banal, dando-lhe notoriedade e importância –, o que estava acontecendo nas Câmaras, Senado e no gabinete que eu perdi? E, com relação à moça, que depois da exposição voltará ao anonimato como todas as outras, o que realmente me incomodou nela? Como diria o terapeuta, ‘boas perguntas!’. <b>ASPAS</b> Bertrand Russell: ‘Encontres mais prazer em desacordo inteligente que em concordância passiva pois, se valorizas a inteligência como deverias, o primeiro será um acordo mais profundo que a segunda.’ <b>CARTAS</b> Começa em janeiro de 2010, na Royal Academy of Arts, em Londres, uma inusitada exposição de obras do pintor holandês Vincent Van Gogh. Alguns poucos quadros, só para contextualizar. As peças a serem mostradas ao público são cartas que escreveu ao longo de sua vida. Amigo de Toulouse-Lautrec, Degas e Gauguin, com eles deve ter trocado alguma correspondência. Será interessante ver o que escrevem aqueles que a gente pensa que só pintam... <b>LIVRO</b> Lançado em setembro pela editora Geração, o livro Honoráveis Bandidos - Um retrato do Brasil na era Sarney , de Palmério Dória, pode ser considerado sucesso editorial: já foram vendidos 28 mil exemplares e está em sua quarta edição. A ilustração da capa sugere coisa de terror. Ao ler, tem-se a certeza: é de dar medo, mesmo. Se tiver hipertensão, não leia. Nem se tiver estômago sensível. <b>HONORÁVEIS BANDIDOS</b> No Amapá, estado pelo qual Sarney é senador, o livro foi lançado com festa, sem tumultos como os ocorridos em São Luís (MA). O que chamou atenção foram as camisetas usadas pelos presentes: um retângulo limitador; dentro, a foto do Lula, todo sorridente e a frase gravada embaixo, como uma mensagem do presidente do Brasil ao presidente do senado: ‘Sarney: Você não vale nada, mas eu gosto de você!’. Sob ela, a continuação em negrito: ‘Tudo que eu queria era saber por quê.’ <b>PONTO FINAL</b> ‘Para um irritante “Queeeemmmmm?” ao telefone, só um rápido e desconcertante “Eu!”, como resposta”. H. V. me aconselha por e-mail. Obrigada! <b>Lúcia Helena Maniglia Brigagão</b> <i>Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras</i> luciahelena@comerciodafranca.com.br

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