Um seguidor do confucionismo, Ji Mèngke, que passou para a história como Mêncio, escreveu uns 300 anos antes de Cristo: ‘Alguns trabalham com a cabeça, outros com os músculos. Os que trabalham com a cabeça dirigem os que trabalham com os músculos”.
Muito bom, né? O pensamento de Mêncio tem me ocupado a cada vez que observo as coisas inexplicáveis que acontecem neste nosso brasilzão. O apagão do Lula, por exemplo. Ops! Desculpe! A novilíngua petista já definiu que não foi apagão. Foi blecaute. Quem tem apagão é o FHC, né?
Pois bem, nos últimos anos investimos quantidades crescentes de dinheiro em nosso sistema de geração de energia. E então – a se acreditar nas explicações dos técnicos escolhidos para falar – um raio cai no lugar certo e... pimba! Tudo no escuro. Mas ‘nunca antes neste País tivemos tanta geração, tanta conectividade, tanto controle, tanta eficiência”. Qual é o indicador de sucesso? Quantidade.
Outro exemplo? O exame do Enade, obrigando milhares de estudantes a deslocarem-se 40, 60, 100 quilômetros para fazer uma prova. Quem cuidou da logística do exame deve ser uma daquelas figuras onipresentes no Brasil: o burro com iniciativa. E as perguntas com propaganda do governo? Uma vergonha. Qual é o indicador de sucesso? ‘Nunca antes neste País tivemos tantos estudantes participando de uma avaliação’. Quantidade.
Vamos ao SUS, o Sistema Único de Saúde? É tão bom que vão sugerir ao Obama que copie. E as filas, o desaparelhamento, a falta de médicos? Ah... O indicador de sucesso é: ‘Nunca antes neste País tanta gente teve atendimento médico’. Quantidade.
Quer mais? Que tal nosso sistema educacional? Investimos, comunicamos, elaboramos, implementamos. E entra ano, sai ano, terminamos os testes de nível de conhecimento empatados com a Belonésia do Sul em penúltimo lugar. Indicador de sucesso? ‘Nunca antes neste País tivemos tanta criança na escola, tanta sala de aula, tão pouca evasão escolar’. De novo, a quantidade.
Vamos às operadoras de celular? A prestação de serviços é uma merda, mas ‘nunca antes tivemos tantos técnicos, tantas torres, tantos atendentes telefônicos, tantos clientes’. Indicador de sucesso: quantidade.
E aquele programa horrível de televisão, com sangue, bundas e baixarias? ‘Nunca tivemos uma audiência tão alta’. Quantidade...
A resposta é sempre ‘nunca tantos, nunca quantos’: quantidade. Claro! Quantidade dá pra reproduzir facilmente com números que (quase) todo mundo entende. Mas e a qualidade? Dá pra reduzir a números? Não dá. Para avaliar ‘qualidade’ tem que ter cabeça. O Brasil é a República da Quantidade. Quer saber?
Conseguimos. ‘Abrasileiramos’ Mêncio: ‘No Brasil, alguns trabalham com a cabeça, outros com os músculos. Os que trabalham com os músculos dirigem os que trabalham com a cabeça”.
Luciano Pires
Jornalista, escritor, conferencista e cartunista
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