‘A vida está banalizada, não vale nada’


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<b>GRITO POR SEGURANÇA</b> - Sobrevivente da violência que assola Franca, Geraldo Américo Taveira diz que chegou a hora da sociedade se unir e dar um basta na situação: “Temos que fazer algo. Quero conclamar n
<b>GRITO POR SEGURANÇA</b> - Sobrevivente da violência que assola Franca, Geraldo Américo Taveira diz que chegou a hora da sociedade se unir e dar um basta na situação: “Temos que fazer algo. Quero conclamar n
<p style="text-align: justify; ">Geraldo Américo Taveira é um sobrevivente da violência que assola a cidade. Advogado e administrador de empresas, Taveira tem uma folha de serviços prestados à sociedade. Por cerca de dez anos, entre as décadas de 70 e 80, foi diretor do Hospital Regional. Também ocupou os cargos de secretário municipal de Administração e de presidente da Emdef (Empresa Municipal para o Desenvolvimento de Franca) durante a segunda gestão do ex-prefeito Maurício Sandoval Ribeiro, cumprida entre os anos de 89 a 92. </p> <p><div style="text-align: justify; "><br /></div><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); ">Aos 76 anos, casado, pai de três filhos e avó de quatro netos, atualmente é um dos donos da Imobiliária Parati, localizada na Cidade Nova. Na tarde de sexta-feira, 6 de novembro, no escritório da empresa, ele viu a morte de perto. Por alguns segundos, ficou com o cano de um revólver a um palmo de sua face. Num gesto de reflexo, levantou o braço. Foi o bastante para que o assaltante abrisse fogo em sua direção.</span></div></p> <p><div style="text-align: justify; "><br /></div><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); ">Taveira foi atingido no braço esquerdo e na perna direita. Perdeu muito sangue e não morreu por sorte. Dez dias depois, ainda traz no corpo as marcas da violência. Caminha com dificuldade e depende de uma bengala para dar lentos passos. Poderá ficar com sequelas para o resto da vida.</span></div></p> <p><div style="text-align: justify; "><br /></div><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); ">Em menos de sete anos, Geraldo sofreu seis assaltos, sendo um na residência e cinco na imobiliária. Em dois dos casos, os criminosos usaram violência física. Na tentativa de se livrar do infortúnio, mudou a empresa de endereço. Não adiantou: os ladrões foram atrás e o roubaram novamente. Não teve resposta da polícia em nenhum dos casos. Não é só. Meia hora antes do assalto em que foi baleado, na sexta-feira, sua secretária foi roubada na rua.</span></div></p> <p><div style="text-align: justify; "><br /></div><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); ">Geraldo Taveira recebeu a reportagem do Comércio para falar de sua revolta com tanta violência e para tentar engajar as forças policiais e a sociedade em geral na busca de soluções para combater a criminalidade. Num período de apenas três meses, não só ele, mas outras 15 pessoas foram mantidas como reféns e agredidas por assaltantes. “Já passou da hora de dar um basta. A situação não pode mais continuar do jeito que está”.  </span></div></p> <p><strong></strong></p> <p><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); "><strong>Comércio - Há dez dias, o senhor foi baleado numa tentativa de assalto. Já passou o susto?</strong></span></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); font-weight: normal; "><strong>Geraldo Taveira -</strong> O susto, sim, mas a sensação de trauma, de pânico ainda vem à memória quando lembro daquela cena em que eu fiquei diante de um elemento estranho na minha sala com o revólver apontado diretamente para minha cabeça. Acredito que isto vai ficar marcado em minha mente por muito tempo.</span></div></strong></p> <p><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); "><strong>Comércio - Como foi o momento em que os ladrões invadiram a imobiliária?</strong></span></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); font-weight: normal; "><strong>Geraldo Taveira -</strong> Inicialmente, entrei na imobiliária e o moço que trabalha conosco me colocou a par de uma situação totalmente diferente que tinha ocorrido minutos antes com a nossa secretária. Ela caminhava próximo à Prefeitura e falava ao celular quando foi atacada por um assaltante. Ele tomou o aparelho e tentou roubar-lhe a bolsa. Houve uma luta corporal e o rapaz saiu correndo com o telefone. Fiquei chateado com isto, mas já tinha acontecido. Entrei e fui para minha sala. Passados uns cinco ou dez minutos, vi que o moço atendeu o portão, que é fechado por controle remoto, mas não notei que eram assaltantes. Em seguida, foi a hora do susto, quando o bandido invadiu minha sala. Ele teve o cuidado de puxar a camisa até a boca e colocou o revólver mais ou menos a um palmo de minha testa. Só disse que era um assalto.</span></div></strong></p> <p><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); "><strong>Comércio - O que aconteceu depois?</strong></span></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); font-weight: normal; "><strong>Geraldo Taveira -</strong> Aí, a coisa foi muito confusa na minha cabeça. Acho que ele me mandou deitar, mas não tinha condições porque a sala é muito pequena. Instintivamente, levantei o braço esquerdo para desviar o cano do revólver que estava direcionado para minha cabeça. Foi quando aconteceu o primeiro disparo. O tiro atingiu meu braço de raspão, cortou bastante e se alojou na parede. Em seguida, com aquele sangue todo, ele saiu correndo e eu fui até a porta. Neste instante, ele deu o segundo tiro, o qual transfixou minha perna. Imediatamente, senti que meu pé já estava insensível. Perdi muito sangue e houve um transtorno grande. Sentei-me e chamamos os bombeiros e a polícia.</span></div></strong></p> <p><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); "><strong>Comércio - O senhor reagiu em algum momento?</strong></span></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); font-weight: normal; "><strong>Geraldo Taveira -</strong> Não. Não tinha porque reagir, mesmo porque a gente não tinha dinheiro lá. Gostaria de transmitir uma mensagem aos bandidos no sentido de desmistificar que imobiliária tem muito dinheiro. Não tem. Os pagamentos são feitos via banco e casa lotérica. Por outro lado, meu porte físico e a minha idade não permitem que eu lute com uma pessoa como a que estava lá, que tinha, no máximo, 20 anos. Não tinha, absolutamente, condição de qualquer reação física. Meu gesto foi apenas instintivo de desviar o cano do revólver. Me lembro que olhei fixamente para os olhos do bandido, que estavam tremendamente vidrados, e vi o buraco do revólver.</span></div></strong></p> <p><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); "><strong>Comércio - Qual é a sensação de ter uma arma apontada para a cabeça?</strong></span></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); font-weight: normal; "><strong>Geraldo Taveira -</strong> É horrível. Não sei se é o momento em que a gente imagina que aquilo é uma coisa surreal, que parece uma brincadeira, que alguém está entrando ali para ter passar um susto somente, ou se é realidade, quando o cidadão te fala que é um assalto, que você teria que agir de outra forma, como a polícia orienta, que você tem que ficar calmo e não reagir. Acho que, dificilmente, uma pessoa nesta condição terá tranquilidade. Então, a sensação é péssima.</span></div></strong></p> <p><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); "><strong>Comércio - A ação dos ladrões foi rápida?</strong></span></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); font-weight: normal; "><strong>Geraldo Taveira -</strong> Extremamente rápida, questão de segundos. Em dois passos, ele entrou pela porta e ficou na minha frente com o revólver apontado. Foi esta rapidez que não me proporcionou qualquer sentido de reação. Se tivesse longe, eu poderia ter perguntado o que ele queria. Não deu tempo de nada. Foi só o gesto instintivo de levantar o braço e desviar o cano do revólver. Acredito que ele iria me matar mesmo, acredito que atiraria em minha direção.</span></div></strong></p> <p><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); "><strong>Comércio - O senhor acredita que o bandido também tenha ficado nervoso?</strong></span></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); font-weight: normal; "><strong>Geraldo Taveira -</strong> Acredito que sim. Ele viu que o sangue espirrou e saiu correndo. Comércio - O senhor tem conseguido dormir? Sonha com o assalto?</span></div></strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); ">Geraldo Taveira - Tenho tomado alguns medicamentos para ajudar. Quando me lembro daquele homem na minha frente, vejo que foi tudo real e sinto um tremor, uma coisa diferente, que vai da cabeça aos pés.</span></div></p> <p><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); "><strong>Comércio - Além da mente, o corpo ainda tem as marcas da violência....</strong></span></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); font-weight: normal; "><strong>Geraldo Taveira -</strong> Sem dúvida. Restou uma sequela na minha perna. A bala que transfixou atingiu o nervo ciático. Estou com o pé totalmente imobilizado, não tenho sustentação e preciso do apoio de uma bengala. Estou passando por fisioterapia e terei que fazer uma ressonância magnética para ver se é preciso operar.</span></div></strong></p> <p><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); "><strong>Comércio - Estamos falando de um assalto específico, mas o senhor já foi roubado mais vezes. Foram seis ao todo?</strong></span></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); font-weight: normal; "><strong>Geraldo Taveira -</strong> Sim, é verdade. Em relação aos anteriores, foram três assaltos contra a imobiliária que tínhamos na Avenida Adhemar de Barros, sendo um deles com violência. Meu sócio foi imobilizado pelo bandido e jogado no chão com uma arma na cabeça. No segundo caso, só levaram computador. No terceiro, levaram o cofre com pouca importância em dinheiro e cheques. A coisa mais estranha nisto é que, dez dias depois, descobri que o cofre estava no Jardim Brasil. Avisei a polícia, mas, infelizmente, não tive qualquer retorno. Este é o meu maior sentimento com a polícia. Nunca tive qualquer retorno, qualquer informação. Por causa dos assaltos, mudamos de lá e nos instalamos na Rua Álvaro Abranches. Um mês depois da mudança, já fomos assaltados. Ladrões também entraram na minha casa, no Centro, e roubaram pertences pessoais e jóias. No tocante à parte da polícia, não tive qualquer retorno ou informações do que aconteceu até hoje. Foi apenas a burocracia de se fazer o BO, a perícia e de se verificar. Esta é a grande indignação que tenho em relação ao sistema policial que, para mim, está totalmente falido. Não pelas pessoas que são dignas, boas, mas os procedimentos precisam ser revistos. Estamos muito carentes de melhorias.</span></div></strong></p> <p><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); "><strong>Comércio - Num período de apenas três meses, pelo menos 15 pessoas passaram por situações muito parecidas com a do senhor e ficaram reféns nas mãos de bandidos. Como vê a explosão dos casos de assalto com violência física na cidade?</strong></span></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); font-weight: normal; "><strong>Geraldo Taveira -</strong> Aliás, a minha preocupação em trazer isto a público é exatamente no sentido de poder dar uma contribuição ou fazer alguma coisa. Somos uma cidade com mais de 300 mil habitantes. A grande maioria é pessoa consciente e de bem. Temos que fazer algo. Quero conclamar nossas entidades de classe e os órgãos de serviço para que a gente faça um movimento em prol da paz de Franca. Não podemos mais ficar esperando só a atuação da polícia. Eles não têm estrutura suficiente. Outras cidades têm conseguido reduzir a criminalidade e precisamos buscar os bons exemplos. Vamos esperar a onda de violência ser cada vez maior? Não é possível que não vamos encontrar um grupo de pessoas interessadas em fazer um movimento. Outro dia, um amigo meu foi ameaçado de morte dentro da sua empresa e procurou a polícia. Disseram que ele teria de contratar dois seguranças: um para a família e outro para a empresa. Não é porque fui atingido que estou falando isto, mas estamos, de uma maneira geral, chegando numa situação insuportável. Algumas imobiliárias estão instalando uma grade depois do portão. O cidadão entra, fica enclausurado, se identifica e só depois e atendido.</span></div></strong></p> <p><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); "><strong>Comércio - O senhor espera que a ocorrência que quase lhe tirou a vida sirva de exemplo para as autoridades e que algo seja feito de positivo para a sociedade?</strong></span></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); font-weight: normal; "><strong>Geraldo Taveira -</strong> Exatamente. Esta é a razão pela qual estou dando este depoimento. Não haveria outro motivo para eu estar falando, pois já fui assaltado outras vezes e não aconteceu nada. Acredito que desta vez também não haverá apuração. Ontem (quarta-feira), já estiveram aqui dois investigadores e me perguntaram se foi assalto ou se eu tinha algum desafeto. É evidente que foi um assalto. Outra indignação que quero registrar é em relação àquele aparato policial depois que acontece o roubo. No dia, tinha dez viaturas da Polícia Militar. Para que isto, meu Deus do Céu? Uma viatura só era o bastante, mas fica aquele monte de gente. Acho isto um absurdo. Era melhor as viaturas estarem correndo atrás dos bandidos. No hospital, se repete a burocracia da polícia. Eu estava deitado no ambulatório com uma dor terrível e veio um policial, com a tradicional prancheta, me perguntando dados pessoais que eu já havia respondido. Falei para ele: moço, tenha paciência, será que não tem outra hora? Ou então pergunta para alguém da família. São umas formalidades que, ao meu ver, ultrapassam o bom senso. Não sei por que isto tem que se repetir sempre. Outra coisa: a polícia estava preocupada em saber se eu reagi. Parece que eu é que sou o culpado. Queria que o sujeito estivesse lá com o 38 na cabeça para ver como é. Reagir para que? Não havia dinheiro nenhum lá.</span></div></strong></p> <p><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); "><strong>Comércio - O senhor acredita que a tranquilidade ainda possa ser restabelecida em Franca?</strong></span></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); font-weight: normal; "><strong>Geraldo Taveira -</strong> Acho que é muito difícil. Primeiramente, precisávamos tratar deste tipo de assunto dentro da nossa comunidade. A violência é uma situação nacional. A vida hoje está banalizada, não vale nada. Eu estava pensando: se tivesse levado um tiro, simplesmente teria acabado. Para as pessoas, não importa matar. Para mudar isto, somente dentro de um contexto a longo prazo. Envolve muito educação, situação econômica e a melhoria do processo de formação. As cidades cresceram e os problemas vieram junto com o progresso. Temos de pensar no futuro e naquilo que a gente pode melhorar um pouco.</span></div></strong></p> <p><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); "><strong>Comércio - Qual mensagem o senhor gostaria de deixar aos leitores?</strong></span></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); font-weight: normal; "><strong>Geraldo Taveira -</strong> A coisa que mais me tem marcado, principalmente, depois que aconteceu isto comigo, é que somos uma maioria de gente de bem, que somos uma maioria de pessoas que não querem saber de violência. Espero que esta minha reação de indignação possa desencadear um movimento, atitudes no sentido de que espante aquele pensamento de que só acontece com os outros. Uma hora vai acontecer com a gente. </span></div></strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); ">Gostaria de registrar os gestos de solidariedade que tenho recebido. É algo sensacional, uma coisa espetacular. É muito mais até do que se eu tivesse morrido. Estas manifestações têm me deixado tremendamente sensibilizado. Outro gesto que eu gostaria de registrar é o atendimento dos bombeiros. Aquilo, sim, justifica chegar rápido como de fato chegaram. Não sei os nomes mas, na hora em que eu estiver andando, vou lá abraçá-los e agradecer um por um. O trabalho deles é sensacional. Eles salvam a gente. Estas pessoas são os anjos da comunidade.</span></div></p>

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