Venezuela, democracia e nós


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Petistas são, em geral, figuras interessantes do ponto de vista da coerência. Quando questionados logo se apressam em dizer que estão sendo agredidos. Assumem invariavelmente a posição de vitimas. Não suportam a crítica. Confrontados com a realidade, ora afirmam uma posição ora outra na linha da “metamorfose ambulante” que estabeleceram como critério de ação. Pior ainda quando se critica a postura de Lula e de seu governo. Ai então o argumento é rápido, contrapondo-se ao “governo anterior”. Tudo fica polarizado, canhestro, simplista. Quando se referem às alianças políticas de seus críticos, se esquecem de mencionar a presença do Partido Progressista de Paulo Maluf et caterva no atual governo petista. Por essas e outras razões, Cassiano Pimentel, articulista deste Comércio, imagina que qualquer critica é devaneio pessoal e rancor anti-petista. Não pode admitir que, à esquerda, é possível ser critico ao PT e sua visão sobre o Brasil, a América Latina e o mundo. Não sou eu mas o governo do PT que levanta agora a idéia (ou melhor, o devaneio) do Brasil grande potência, como na época do regime militar. Para Lula, o Brasil será em breve a quinta economia mundial! Pouco importa a universalização de uma educação de qualidade, a qualificação técnica e cultural, a perspectiva de um crescimento integral e pleno da pessoa humana, uma convivência democrática entre movimentos sociais e Estado, bem como uma cultura política plenamente democrática que aposte no equilíbrio entre os poderes e na sua reforma para melhorar e aprimorar o Estado brasileiro. Ao contrário, hoje, os discursos grandiloquentes de revalorização do Estado Novo varguista e do estatismo do período militar passaram a fazer parte da semântica do governo Lula. Mais do que isso, a confusão entre Estado e governo, numa comunidade fraternal, visa eliminar toda oposição, trazendo todos os partidos para dentro do Estado. A perspectiva é desfigurá-los por completo, tornando-os todos “partidos estatais” sob a égide de um líder carismático. Isso coloca em risco latente o que o País avançou em termos de política democrática na resistência ao regime militar, com a conquista da Carta de 1988 que abriu espaço, pela primeira vez, a uma convivência plural entre atores políticos e sociais. A sugestão do coronel Chávez para que Lula continue no governo já que tem cerca de 80% de aprovação popular vai no mesmo sentido. Lula somente não cede porque as conquistas institucionais e democráticas das últimas décadas das quais o PT teve participação no mínimo duvidosa são ainda sólidas. Desta forma, não há nenhum “escorregão intelectual” em aproximar, do ponto de vista reflexivo e político, o PT, seu governo e os militares. Na verdade, a aproximação é mais profunda: o PT, com o governo Lula, infelizmente, vem se tornando não mais do que um partido que visa reciclar a política da modernização conservadora entre nós mudar para continuar como antes. O apreço ao coronel Chávez por parte do governo Lula, do PT e dos petistas (em sentido pragmático e oportunista ou não), comungado pelo articulista Cassiano Pimentel ao defender o ingresso da Venezuela no Mercosul, a despeito da lateral e envergonhada crítica às suas condutas autoritárias e eludindo as clausulas democráticas que marcam a união dessas nações latino-americanas, é revelador de uma concepção política cujo nome tem que ser dito e não escamoteado numa retórica vazia e confusa. Alberto Aggio Professor de História

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