Ranking da violência


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Estive esta semana com o advogado Geraldo Américo Taveira, vítima de dois tiros durante assalto à imobilitária que mantém com outro conhecido e respeitado homem público, Osvaldo Ferro, o Ferrinho. Geraldo integra agora, as crescentes estatísticas de violência que imperam nesta cidade. Era mais um dia normal de trabalho. De repente, materializa-se à sua frente um jovem, camisa puxada até o nariz, revólver em punho apontado para seu rosto. Calmo – a idade ensina – e experiente, usou a mão em gesto lentíssimo para afastar o cano da arma. O bandido, ansioso, apertou o gatilho da arma. Geraldo foi atingido no braço e, momentos depois, na perna. Viu-se como um “nada” perante o assaltante e seu revólver. Não foi a primeira vez. Ele e Ferrinho já enfrentaram furtos e roubo 6 vezes, mesmo não mantendo valores financeiros na empresa. Os tiros foram a gota d’água. Geraldo se cansou. Resolveu falar, contar as tristezas que apertam o coração e a alma de quem é vítima de violênciao. Não que alguém furtado também não sofra violência física. Sofre. Não há nada pior que a dor de encontrar sua casa ou escritório de pernas para ar e perceber que lhe levaram anos de trabalho e suor. A vida e os bens valem, para quem assalta, a mesma coisa: nada, quem sabe, uma “troca justa” do aparelho de televisão, da câmera digital ou do notebook por R$ 20 ou uma pedra de crack. O homem comandou o Hospital Regional, promovendo saúde. Foi Secretário de Administração da Prefeitura, tomando conta de gente. Passou pela ACIF buscando fórmulas para que as pessoas pudessem viver melhor. Agora, aos 75 anos, tem que iniciar outra batalha, falar das indefiníveis sensações de fragilidade e de impotência que acomete o ser humano perante gente que não tem nada a perder. Não acha que deve ser calar e deixar tudo com está só porque saiu no lucro no embate que empreendeu pela vida. Segundo pesquisas sobre segurança pública, mais da metade dos que sofrem com a violência preferem o silêncio. Conheço dezenas de casos de furtos, roubos, assaltos com reféns, violência gratuita. Contam-se nos dedos quem denunciou, registrou queixa ou exigiu das polícias, resultados. Ainda assim, a maioria dos casos fica sem solução. Às vezes, mais por sorte do que planejamento, prende-se alguém que fala sobre cometimento de crimes, mas as feridas deixadas não cicatrizam; os bens levados não voltam; os resultados das investigações – se é que andam – jamais são dados a conhecer às vítimas. Há, e sei, uma “política”: correr atrás de grandes casos. Coisas pequenas não permitem que a imagem policial prospere. E há mais ainda, que me declaram agentes públicos em off, mas não tenho como contar. Os jornalistas deste Comércio estão indignados. Produzimos um ranking da violência e resolvemos publicá-lo com periodicidade mostrando os casos não resolvidos, agregando casos novos, apontados os resolvidos, mantendo a atenção pública desperta e pronta a gritar, se for o caso. Para Geraldo, um homem objetivo, de fala clara, idéias pertinentes capazes de motivar pessoas, chegou a hora de “dar um basta” na escalada de violência que impera em Franca. Será o personagem da entrevista principal deste Comércio, amanhã. Se às vozes de Geraldo e deste Comércio somarem-se as das centenas de vítimas que permanecem caladas porque acham que “ninguém poderá nos defender”, lembro a sabedoria contida na fórmula com que o personagem de televisão, Chapolin Colorado, ajudava seus companheiros de cena: “Não contavam com a minha astúcia”. Penso que os comandos dos órgãos de segurança pública devam se reorganizar para deflagar a guerras da guerras: o bandido precisa voltar a temer, pelo respeito, o aparato de segurança e seus agentes. Garanto que cidadãos exemplares vão ajudar no que for preciso. Recuso-me a concordar com quem já tem quase certeza que este é o País da desordem e do retrocesso. AINDA TEM JEITO M.M.N. é um jovem de 16 anos, estudante antenado que regularmente escreve para a seção de Cartas da página 2 deste jornal. O texto que encerra minha coluna de hoje é dele, enviado em comentário à Objetiva “Silêncio e Insegurança”, publicada em 10 de novembro (leia em http://www.comerciodafranca. com.br/materia.php?id=49765). Suas palavras são fortes e demonstram que em meio a tantas nulidades ainda se forma consciência crítica que pode ajudar este País a dar solução a seus graves problemas: “O que mantém a violência é o descaso. De ano para ano reduzem-se mais e mais os recursos destinados aos organismos de segurança pública, remetendo os arsenais policiais ao sucateamento enquanto o armamento da bandidagem se moderniza. A isso se soma desestruturação familiar, desemprego, má distribuição de renda, falência da educação. As leis não são aplicadas como se deve e estão ultrapassadas. Há pouca repressão policial. O Estado está ausente das regiões periféricas das grandes cidades e as famílias se descuidam de darem aos filhos, cidadania e educação. Penso que o movimento de renovação do País melhor, mais seguro e mais justo deve começar - ou recomeçar! - pela família. Dela, como célula, estender-se ao organismo integral, a sociedade. Só mobilização popular pode combater a violência, seja através do voto consciente, seja através de fiscalização e cobrança forte às autoridades competentes. A televisão precisa deixar de conceber novelas e divulgar filmes de estímulo à violência. Por causa do que vê, o indivíduo está cada vez mais estimulado a cometer delitos. A renda continua mal distribuída e isso gera não atendimento a necessidades básicas das pessoas. Buscar o que falta sem dinheiro contribui para que a violência se produza. A riqueza brasileira continua sendo canalizada a banqueiros e especuladores. Penso que as polícias militar e civil devam se unificar para buscarem modernização, melhor qualidade de vida e de trabalho para o policial. Penso que as leis devam ser aplicados sem subterfúgios e imediatamente quando há flagrante. Penso que o País tem que produzir um novo Código Penal com urgência urgentíssima. Penso que o sistema carcerário deva ser modificado para que o preso trabalhe duro, fazendo jus à sua alimentação e manutenção. Só venceremos o crime e a violência quando as leis passaram a ser aplicadas para valer contra o bandido e não em prol de seus direitos”. Luiz Neto Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br

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