É imprevisível o fim da polêmica no que diz respeito à legitimidade da expulsão da estudante da Uniban. Com relação à moça - correndo o risco de ser rotulada maldosa e machista - aposto: loguinho estará nas páginas de revistas de mulher pelada.
Aí vai mostrar de costas, frontal, lateral e totalmente todos os atributos que em grande parte já exibiu nos corredores da universidade, com vantagem adicional de rechear bolsinha, bolsinho e cofrinho e mais a possibilidade de fazer carreira como apresentadora de televisão. Qualquer história de moça circulando com pouca roupa em inadequado local público e o fato de ter sido de alguma forma agredida em função disso, rende e reacende muitas e velhas discussões. Por meio delas dá para passar a noite conversando, tomando cerveja, lembrando de casos semelhantes, dando risadas ou sentindo indignação, redefinindo conceitos e renovando interpretações. Moralidade, preconceito, cidadania, ética, discriminação, intolerância: itens da pauta. Papel da mídia e da imprensa, igualmente.
Pitadinha de conhecimento de Antropologia e Sociologia e as conversas resvalarão para a discussão sobre a função das vestimentas femininas nas sociedades de consumo. Advogados contribuirão com esclarecimentos sobre direito de cada um se vestir como bem entender. Diferentes grupos femininos falarão sobre procedimento, provocação, atitude, vítimas da intolerância, inveja, o sentido da expressão `jeito dela`, agressão. Diferentes grupos, diferentes `approaches`, diferentes olhares. Diversidade...
Dois amigos homens, professores universitários, héteros, que não se conhecem, comentaram em diferentes ocasiões sobre comportamento comum de estudantes modernas em sala de aula. Um conta que algumas se sentam diante de sua mesa com saias muito curtas, olham-no com languidez, boca semi-aberta, arfantes, mostram-se claramente empenhadas em provocar suas atenções – abrem as pernas lentamente e deixam aparecer fundilhos. Conta rindo, porque a atitude é tão fora de contexto que não chega a excitá-lo. É tão explícita que vai além da vulgaridade e da grosseria. O outro, indignado e lamentando não poder aceitar gratuitas ofertas, conta que em diversas situações alunas já tentaram se insinuar, fosse esfregando-se nele assim, como se nada estivesse acontecendo, ou encostando-lhe os seios – já quase pulados para fora das mini-blusas e tops que viraram roupas de ir à faculdade. Eu quase morro de vergonha porque não consigo justificar e muito menos explicar-lhes os motivos que levam a atitudes como essas, sem ofender as damas.
Não me considero carola e sou mulher. Não defendo e abomino qualquer tipo de agressão, brutalidade ou truculência e sairia na frente da passeata para pedir pena de morte em casos de estupro – fosse a vítima uma criança (aí sou capaz de me candidatar ao cargo de carrasco), jovem ou adulto. Porém acredito em limites, acredito em respeito e uma instrução moral recebida e aceita, que virou divisa – `quem não quer ser lobo, que não vista a pele`. Talvez seja intolerância, mas argumentos como `cada um tem seu jeito`, `esse é o jeito dela` não me parecem de grande consistência - existem usos e costumes limitadores em todas as sociedades: viver em comunidade cerceia ou restringe ímpetos e desejos... Liberdade para vestir? Não se pode desconhecer algo chamado de propriedade ou adequação: quem iria de camisola ou pijama para a escola ou com um grande decote, fendas e transparências a um velório? Constrangimento? Unilateral, não vale. Provocação? Está certo, pode-se desviar e selecionar o olhar, mas e o assédio físico?
Estou longe de ser careta mas quer saber de uma coisa? Mulheres que se vulgarizam; homens que atacam; gente louca para alcançar seus dois segundos de fama; imprensa que não tem critério para distinguir informação de escândalo; mídia que promove bizarrice; político que rouba; político que consente o roubo; quem escuta Collor cantar lula-lá e dá risada; moça que coloca uma minissaia de boate e vai para a escola ... sofrem todos, igualmente, de Falta de Vergonha na Cara.
<b>ASPAS</b>
Quando a Segunda Guerra Mundial começou, a Rainha Mary e o Rei Edward VIII da Inglaterra foram aconselhados a mandar as Princesas Elizabeth e Margareth para o Canadá. `Não", recusou-se a Rainha. "As Princesas não se irão embora sem mim; eu não irei sem o Rei e o Rei nunca irá.`
<b>PRÊMIO </b>
...para quem descobrir o que (e quem) está por trás da mudança do formato das tomadas elétricas no Brasil. Não demora descobriremos que algum político safado entrou em acordo com alguém safado da cúpula desse governo safado, propôs a mudança – `tão necessária` – e encontrou algum empresário safado para executar. A iniciativa vai render bom dinheiro: todas as casas brasileiras terão que comprar pelo menos um adaptador, pois todos os eletrodomésticos brasileiros passarão a ser produzidos com tomadas de três furos cuja (única) vantagem sobre o mundo inteiro... é justamente de não ter parâmetros no mundo todo!
<b>PARABÉNS</b>
...a Flávia Nascimento, premiada com o segundo lugar na particularmente difícil categoria `Tradução de Obra do Francês`, do maior prêmio do mercado editorial brasileiro, o Prêmio Jabuti. Quando o trabalho de tradução é executado em áreas técnicas, exige cuidado e concentração. Em se tratando de literatura é preciso que o tradutor possua doses extras de sensibilidade, delicadeza, talento e competência. Cumprimento-a antes pelo reconhecimento ao seu trabalho e, em segundo lugar – e não com menos orgulho – por ela ser francana.
<b>PONTO FINAL</b>
Tem coisa mais irritante que o telefone tocar, você atender e a voz do outro lado perguntar fanha e preguiçosamente: `Queeeeeeeeeemmmmm?`
<b>Lúcia Helena Maniglia Brigagão</b>
<i>Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras</i>
luciahelena@comerciodafranca.com.br
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