O chanfrador Vicente Cassiano, 58, enfrenta todos os dias 40 degraus de escada e mais quatro quilômetros a pé no percurso casa-trabalho-casa. Vicente mora sozinho em um cômodo em cima de um cômodo comercial na Avenida Moacir Vieira Coelho, no Jardim Redentor, e trabalha numa fábrica no Jardim Guanabara. A rotina parece comum a um trabalhador de Franca, mas a diferença é que Vicente usa uma perna mecânica e a prótese está em péssimas condições. Além de estar mais curta em relação a perna natural e desgastada, o pé está quebrado e não dá sustentação ao corpo de Vicente. Sem recursos para comprar uma nova, ele pede ajuda.
Natural de Londrina, no Paraná, ele perdeu o pé direito aos 3 anos em razão de uma doença mal diagnosticada. Aos dez anos, já vivendo na região de Franca, a família improvisou um suporte para o pé, feito de madeira, para que ele pudesse trabalhar na lavoura. “Naquela época não tinha os avanços de hoje, então fiquei muito tempo sem o pé”, conta.
A primeira prótese na vida do chanfrador só surgiu aos 30 anos, por meio de uma doação do Hospital Sarah Kubitschek de Brasília (DF), especializado em reabilitações. Para colocá-la, ele precisou amputar a perna até o joelho. O procedimento foi feito sem ressentimentos. “Era necessário, uma nova experiência e essa perna só fui trocar mais recentemente, há cerca de cinco anos”.
A nova peça, também conseguida por doação, tem hoje um aspecto deteriorado. A espuma que protegia o ferro se soltou. A meia em volta da peça está podre e remendada com elásticos e fita. Quando Vicente anda, a perna parece deslizar. “Tem dia que não consigo trabalhar, dói muito. A prótese está me machucando”, disse o chanfrador, que também luta para se aposentar.
Amiga de Vicente, a coladeira Edna Mara Souza, 42, disse que nos últimos dias ele caiu duas vezes, uma na escada do prédio onde mora. Na outra queda, escorreu dentro do cômodo que serve de quarto, sala e cozinha. “A situação dele é precária. Mesmo com a perna nessas condições ele vai todos os dias trabalhar a pé e, para encurtar caminho, passa pela rodovia. Ele perdeu o benefício do ônibus e não tem como pagar passagem para ir e voltar”. O chanfrador ganha R$ 650 por mês, paga aluguel, despesas de água e energia, a alimentação e remédios.
Para Vicente, a troca da prótese daria melhor qualidade de vida a ele. “Não consigo dobrar a perna e o esforço tem sido muito grande. Quando vou tomar banho é um sacrifício ter que tirar essa perna”. Apesar das dores que sente e de perceber claramente o problema na perna, ele não teve ainda como procurar um ortopedista. “Nem lembro quando foi a última vez e depois a gente trabalha direto e nem tem como ficar saindo. Fora a dificuldade que é conseguir uma consulta”.
Segundo a amiga, Vicente é quieto e não gosta de incomodar as pessoas com o seu problema. “Ele é sozinho, só tem um filho de criação que ajuda como pode, então tudo se torna mais difícil. Ele sonha com a perna, mas não sabe como conseguir”.
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