Fátima Maria Cassis Ribeiro Santos, médica e psicanalista em formação, é quem analisa o filme escolhido para mais uma edição do evento Cinema e Psicanálise, amanhã, na sede campestre do Centro Médico, em Franca. Chama-se Valentin, traz a assinatura de Alejandro Agresti, um dos nomes do que vem sendo considerado o Novo Cinema Argentino. Os outros são Pablo Trapero, Lucrécia Martel, Adrián Caetano, Bruno Stagnaro e Martín Rejtman. Eles têm idades entre 40 e 48 anos e alguns prêmios expressivos em festivais da América Latina, dos Estados Unidos e da Europa. No último maio, em Curitiba, na Semana Ficção Viva do Cinema Argentino, foram exibidos alguns dos principais títulos destes cineastas, muito elogiados por Walter Salles Junior, diretor de Central do Brasil.’ Agresti se destacou com Valentin, mas antes havia feito outros filmes, que não tiveram distribuição no Brasil. Depois viria o bem recebido, pela crítica e pelo público, A casa do lago, com Sandra Bullock e Keanu Reeves. Em Valentin o espectador vai reencontrar Carmen Maura, musa de Pedro Almodóvar, no papel da avó do menino que empresta seu nome ao filme. O pai é vivido pelo próprio Agresti. Atores menos conhecidos, nem por isso menores, aparecem nos papéis do tio (Jean Pierre Holer), do pianista (Mex Urtizheara), da namorada do pai (Julieta Cardinale). A grande surpresa é encontrar o menino-ator Rodrigo Noya dando vida à criança que sonha e através dos sonhos consegue concertar seu mundo, orquestrando-o com uma musicalidade própria, da qual as lições de piano com o vizinho acabam sendo uma bela metáfora.Valentin aventura-se no mundo, armado com o que tem de melhor: os sonhos que o ajudam a organizar a vida.Abaixo, comentários da palestrante de amanhã, Fátima Cassis: O SONHO DE VALENTIN “Era uma vez, em um mundo distante, vivia uma princesa....”. Todos nós conhecemos as histórias infantis ou já presenciamos crianças ouvindo-as atentamente: parece que somos transportados para aquele mundo onde sentimentos de quaisquer qualidades nos invadem estimulando-nos a buscar, na história ouvida, um sentido para tal situação afetiva. A criança pede para repetir a mesma história inúmeras vezes para que ela possa representar em sua mente situações de medo, separações, ciúmes, inveja, etc e assim aprender a como lidar com elas. É comum também presenciar situações como a seguinte: “ depois que sonhei (sonho noturno), acordei mais leve”. Outras experiências cotidianas como assistir a um filme, ler algum romance, contemplar alguma obra de arte ou conversar com alguém podem nos dar algum sentido em determinada situação de vida que estava aparentemente estagnada, à espera de solução. O que será que acontece com nossa mente quando nos deparamos com situações deste tipo? Sonhamos, e o sonhar é uma forma de pensar a nossa existência, portanto a nossa vida mental se constitui de sonhos ou da capacidade para sonhá-los. Poeticamente, Shakespeare em A Tempestade, ato IV, nos diz: “Somos feitos da mesma matéria dos sonhos.” Quando falo em sonhos, não estou me referindo apenas àqueles que acontecem durante o sono, mas também aos que acontecem quando estamos acordados, quer sejam conscientes (sob a forma de fantasias) ou inconscientes (vida inconsciente de vigília). A função dos sonhos corresponde a um “decodificador”, onde impressões, experiências, sentimentos de qualquer natureza precisam sofrer transformações para serem pensados ou guardados como lembranças. A importância deste processo é o desenvolvimento ou a criação de um espaço mental que possibilite ao indivíduo estar em contacto com suas experiências mais íntimas para saber melhor de si. Se esta capacidade sonhante estiver comprometida então temos desde doenças psicossomáticas até distúrbios mentais graves pois o indivíduo se distancia do seu próprio mundo mental. Os sonhos nos ajudam a “ler” as emoções, as sensações corporais, enfim, a experiência emocional para conseguirmos mudar, crescermos, sermos diferentes do que sempre fomos. E quando não se consegue “ler” as emoções, porque não se aprendeu ou porque a “leitura” foi interrompida? Procura-se uma análise. É esta a função da psicanálise: o psicanalista e o analisando vão sonhando juntos sonhos não sonhados ou sonhos interrompidos. Em Valentin observamos esta capacidade sonhante. Ele é uma criança de 8 anos, que vive com a avó viúva, o pai que pouco aparece para vê-lo e uma mãe ausente. Mas é capaz de “ler” os seus sentimentos, os sentimentos das pessoas com quem convive, sem se esquivar do sentimento de falta de alguém que possa acolhê-lo. Consegue sofrer a vida, transformar esta dor em experiência , reunir dados a respeito de si e das pessoas com quem convive (consciente e inconscientemente) e assim manter a capacidade sonhante apesar das frustrações. [FOTO2] Imagina que se for um astronauta a dor passa, ou quem sabe ainda se esperar pela capacidade do pai em arranjar uma namorada e conseqüentemente uma mãe para si, ele possa se acomodar. Nenhum desses sonhos se realizaram. Ele então precisou buscar um outro sonho, desta vez contando com uma maior capacidade criativa, reunindo um casal e criando uma família para si. Conseguiu sonhar sua própria experiência, que desta maneira lhe proporcionou o sentimento tão importante de ter um lugar no mundo. Valentin não é só um filme sobre uma criança, é um filme sobre uma pessoa com uma mente muito bem aparelhada para viver a vida em toda a sua plenitude. SERVIÇO Filme: Valentin Gênero: Drama Direção: Alejandro Agresti Evento: Cinema e Psicanálise Quando: Sábado 14 Onde: Sede Campestre do Centro Médico Horário: 15 horas
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