Hoje quero fazer como o País tem feito: enrolar. Ficou impossível viver fora da escola onde o bom é aquele que sabe enrolar. Aprendi contristado que enrolar os outros passou a ser o melhor dos caminhos neste nosso clima tropical de lindas palmeiras, de flores e perfumes exalando na doce planície de verdejante campina. Aqui onde se glorifica a mentira nos mais distinguidos poderes, sem pejo usufrui-se do poder para enganar e furtar; onde se solta bandido confesso para nas ruas em liberdade seguirem na senda do crime afrontando pessoas, impunes e festejados, só mesmo nos basta falar de romance.
Não quero falar da menina de escassa roupa na faculdade, afinal não precisaríamos chegar a ela para isto, pois, pelo andar da carruagem, logo estarão fechadas as fabricas de tecidos por falta de consumo dos seus produtos. Se tivéssemos que usar xingamento para atingir todas as pessoas na rua, nas repartições, nas festas e até nas igrejas, – com pouca ou nenhuma roupa – já não haveria palavrões disponíveis. O fato foi parar na internet, alcançou a mídia e mantém aguçado desejo na discussão, com muitos opinando contra ou a favor do direito de despir-se onde quer que seja. São acusados os responsáveis pelos apupos de selvageria, invejosos, feias, eles e elas, ao mesmo tempo em que outros, afirmam que quem procura acha.
Não devo entrar no mérito da polêmica. No entanto, cabe-me, saudoso, recordar o recato da mulher permitindo um furtivo olhar ao seu tornozelo ou ainda, com muita sorte, deixar vazar por entre saias e discretamente a curva do branco joelho, excitação escondida até mesmo do sol.
Perdi-me divagante nas lembranças de um tempo em que o oculto guardava maior sabor levando homens e mulheres a irrefreável paixão. Hoje se vive o desgaste do excesso da exposição, fator anulante dos encantos.
Na verdade o assunto de hoje homenageia o suave canto de meu canário belga invadindo todo o meu ambiente com afinado chilrear alongado em meus ouvidos sensíveis à sua poesia. Trinando canções trazia-me enlevamento até o dia em que resolvi dar-lhe uma companheira. Ela chegou linda e delicada em suas vestes amarela dourado. Saltitante em seu aposento mostrou-se coquete aos olhos do macho que nunca mais cantou, se entregando ao pipiar do insistente assédio à fêmea fartamente empenada nas cores de sua paixão.
Agora, quando me aperta a saudade de seu canto, corro a retirá-la da sala para juntos sofrermos mergulhados na solidão embalados pelo seu acalanto de dor.
Garcia Netto
Jornalista
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