A angústia de um viciado


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Claudinei estava vendo televisão quando a matéria do telejornal mostrou o caso de um homem que, sob o efeito de crack, esganou e matou a adolescente que estava ao seu lado. Nesse momento, o que seria chocante para qualquer pessoa, abalou esse ex-pespontador, ex-cortador de fábrica e esporádico pedreiro. O homem de rosto chupado, com feições esquálidas, braços e pernas finos, magros, voz aguda já sem muita força e a boca com alguns dentes a menos estava ao lado da própria filha, de 16 anos, vendo a TV, quando viu nos olhos da menina o espanto que abrigava uma pergunta: “Será que isso pode acontecer comigo?”. Claudinei é viciado em drogas há 20 anos; há 14 encontrou o crack e, como disse, sua destruição. Certo de que a filha viu nele uma ameaça aquele dia, resolveu escrever para o diretor-artístico da Rádio Difusora, Everton Lima, sem saber muito bem o que pedir. A carta era, na verdade, um grito de socorro. Com 34 anos, Claudinei mora com a família no Jardim Aeroporto II, um bairro sem nada de bonito, sem nada de atrativo, sem nada que chame a atenção com suas casas de cor ocre, inacabadas, e ar de desconfiança que permeia a aproximação de seus moradores com estranhos. Na entrada da residência, caixas de piso se acumulam na garagem. Deveriam servir para decorar o chão do corredor e de outros cômodos que ainda estão por ser terminados, mas estão todos empilhados. Na sala, apenas uma televisão sobre um aparador, um sofá de dois lugares e mais nada. Nenhum quadro pendurado na parede, nenhum aparelho de som, celulares pelos cantos, estantes, nada. As paredes estão sem acabamento, apenas no reboco. O ar cinzento é triste e incomoda. Claudinei, casado com Juliana, cinco filhos, pais separados, está à beira da morte. Em quatro páginas de caderno relatou seu envolvimento e dificuldade em largar o vício. Falou da mulher, a quem se refere como “a guerreira”, e de como sua vida está por um fio. A carta foi sofrida de escrever. Ele tem certa dificuldade para se expressar em letras e frases, já que estudo não teve mais que a quarta série de antigamente. Mas é, sobretudo, tocante e dolorida. Na sala com dois dos três vidros da porta quebrada por boladas do menino menor, de 6 anos, eu me senti um completo intruso. Não sabia o que perguntar nem o que dizer. A reportagem foi quase um monólogo, em que Claudinei falou durante uma hora, com a mãe, Maria, ao lado, maior parte do tempo de cabeça baixa, em silêncio. A mulher, Juliana, estava na fábrica em que trabalha no Distrito Industrial, para aonde vai às 5h30 e só volta por perto das 18 horas. Os filhos, todos presentes, à exceção do maior, de 17 anos, não ouvem o pai contar sua história. Mas sabem, mesmo os mais novos, de todos os problemas. Dona Maria passou por tudo junto com Claudinei. Veio de Cássia (MG) pouco mais de 20 anos atrás para assistir em Franca a destruição do filho, que de três irmãos é o do meio. O primeiro contato com a droga se dá aos 14 anos, experimentando maconha com amigos. A cocaína passa a ser usada aos poucos, e aos fins de semana. Depois vem o mesclado, em que o crack é misturado à maconha. Aos 16 anos estava entregue ao crack. As quantidades que consumia vão aumentando cada vez mais. Quando vê, não tem mais como sustentar o vício causado pela droga que já é considerada epidemia no Brasil e cujos efeitos surgem em até oito segundos após absorvida pelo organismo. Passou a vender e consumir direto num círculo sem fim. Na tentativa de se esconder de traficantes de Franca, voltou para Cássia (MG), onde foi preso por vender e consumir drogas. Na cidade mineira, passou mais de um ano de uma sentença de três a que foi condenado. Em Franca, está em regime semiaberto e sua pena alternativa só terminará no final de 2010. Deveria ir todo sábado ajudar no preparo da sopa distribuída por entidades assistenciais no Jardim Santa Bárbara, mas não está indo. Sua pena deixou de ser cumprida porque comprou drogas na região, não pagou e agora está jurado. Faltou a quatro sábados e já tem medo de sua prisão ser decretada. Diz não ter a menor ideia de quanto deve em crack pela cidade, embora o irmão mais velho tenha arrumado R$ 500 na semana passada para quitar parte dos débitos que fez. “Só estou vivo até hoje pela misericórdia de Deus e pelo amor da minha família”, diz Claudinei. Não se trata aqui de elevar Claudinei à condição de frágil vítima, um coitado desinformado. Mesmo assim, não deixa de ser visível como o crack levou sua dignidade, suas amizades, seu dinheiro, a confiança da família. E é impossível não associar sua história ao problema pelo qual passam inúmeras famílias, apenas em Franca. “Eu queria é que as pessoas vissem o que o crack faz com o viciado. Que as autoridades acordassem. Agora todo mundo está preocupado, porque o crack chegou à classe média, mas muita gente já morreu. O crack é a morte!”. Nos períodos que alterna consumo e abstinência, a vida se transforma. Nos meses que afirma conseguir ficar longe do cachimbo, engorda, arruma a casa, acompanha os filhos, arrisca algum trabalho. Depois, destrói tudo o que conseguiu. Nos meses seguintes, vende tudo o que encontra pela frente: o celular da filha, tesouras de Juliana, que tinha uma banca de pesponto na garagem, linhas, DVDs, panelas. Qualquer coisa serve para ser vendida por R$ 5, R$ 10, no máximo, ou trocada por uma pedra do tamanho de um grão de feijão, que será consumida em cinco minutos. Na semana que passou havia ganho R$ 30 por um “bico” como pedreiro no bairro mesmo. Deu R$ 20 para a filha e comprou duas pedras com o resto. Recebeu outros R$ 50 e ficou com R$ 10. De novo, comprou duas pedras. Como a neurose é grande, o efeito só obriga o viciado a procurar mais e mais. Com isso, Claudinei deixa sua casa, mulher e filhos para ir atrás do crack. Anos atrás, com os filhos pequenos, consumia em casa, no quarto dos fundos, inacabado. Por lá dormia, sem contato com ninguém. Agora, quando volta da rua, parecendo um bicho, está sem banho, sem comer; furtou pessoas, pequenas lojas, supermercados, pediu dinheiro a desconhecidos e levou uns tapas da polícia. Antigamente, disse Juliana, ela ainda discutia, cobrava explicações. Hoje, depois de tantos murros em ponta de faca, ignora, não conversa, não olha. Cansou.

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