Na última sexta-feira, a reportagem foi pela segunda vez à casa de Claudinei. Queria encontrar Juliana, a mulher que ele elogia, mas que parece ter perdido a luta para um inimigo tão persistente quanto destrutivo. Chegada havia pouco tempo da fábrica em que trabalha, Juliana já estava com o varal cheio de roupas e a máquina de lavar idem. Queria descansar um pouco no sábado. “Sabe como é, o trabalho de casa não para nunca”.
A cozinha com móveis pela metade, como a mesa sem cadeiras, revela um pouco da dura realidade de Juliana, cujo salário de sapateira é a única fonte da casa. No armário, seis contas de água e luz atrasadas, cujo valor - R$ 400 - ela não sabe como vai pagar, apesar da iminência de corte nos serviços.
Juliana e Claudinei se conheceram em uma casa de lanches em Franca, os bolotas tão comuns por toda a cidade. Estavam, ambos, com 16 anos e a vida se abria toda pela frente. Ela, dependente de álcool, consumia muito mais cerveja do que podia e deveria. Com isso, como se imaginasse haver um equilíbrio, era permissiva com relação ao vício de Claudinei.
Veio o casamento; vieram os filhos. Como o consumo de crack do marido era relativamente “leve”, Juliana nunca criou caso, já que eram apenas duas ou três vezes por mês. Depois de alguns anos, precisamente sete, conseguiu largar a bebida e queria o mesmo para Claudinei, o que não aconteceu. “A gente era muito jovem e não dava importância para nada. Mas chega um momento da vida que você vê que o tempo passou e você não se cuidou, não conseguiu nada, uma roupa boa, um carro. É só sofrimento. Está tudo errado. Comecei a pensar se queria envelhecer com isso na minha vida”.
As agressões, que nunca foram físicas, mas verbais, foram ficando cada vez mais constantes. A cada retorno de Claudinei, as brigas eram piores. Agora, não se cruzam, não se falam. Hoje ela não mais procura o marido nas ruas, como fez quando estava grávida, nem vai atrás dos objetos que tirava da cozinha, da sala, do quarto, para trocar por pedras. Foi assim com um DVD, com o celular da filha, com o aspirador de pó da sogra - este, vendido por R$ 5 e “resgatado” por R$ 30. A bicicleta do filho ela desistiu de procurar e comprou outra. “Quantos churrasquinhos fizemos que a carne queimou na churrasqueira porque ele saía e ninguém via. Quando meu pai morreu, quando meu irmão morreu, ele não estava por perto. Não tinha um ombro amigo”, disse Juliana.
Um advogado está cuidando da separação. Ela não deve voltar atrás.
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