Desinteresse matou laboratório de análise de diamantes


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<b>O COMEÇO DE TUDO</b> - Lapidário mostra um diamante já lapidado. Em Franca, até o momento, 25 pessoas já foram denunciadas por comércio ilegal de pedras preciosas e operações nã
<b>O COMEÇO DE TUDO</b> - Lapidário mostra um diamante já lapidado. Em Franca, até o momento, 25 pessoas já foram denunciadas por comércio ilegal de pedras preciosas e operações nã
No dia 12 de agosto deste ano, Franca foi sacudida com uma grande operação da Polícia Federal, realizada simultaneamente em outras quatro cidades, voltada para o combate ao comércio ilegal de diamantes. A Operação Quilate prendeu acusados e apreendeu bens nos Estados de São Paulo e Minas Gerais. No seu último capítulo até agora, a Procuradoria Federal local denunciou 25 pessoas pelos mais diferentes crimes, entre contrabando, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Dez dos indiciados possuem alguma ligação com Franca. O processo está nas mãos do juiz Fausto De Sanctis, o mesmo que julgou os acusados da Operação Satiagraha. À parte a operação policial, outro fato ligado à extração e comercialização de diamantes sempre é citado quando o assunto toma conta do noticiário. É o pólo diamantário de Franca, um projeto da década de 90 firmado entre a Prefeitura e o Governo do Estado, com apoio do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), ligado à Universidade de São Paulo, cuja face mais visível seria o Laboratório Gemológico de Franca, único do tipo na América do Sul. O laboratório teria como objetivo principal analisar as pedras encontradas na região, certificando a procedência, qualidade e seu valor no mercado. Apenas um laboratório gemológico pode, oficialmente, atestar quantos quilates tem um diamante e autorizar sua venda no exterior. O projeto teria nascido depois que a administração do ex-governador Luiz Antônio Fleury Filho (1991-1995) encomendou um estudo geológico com o objetivo de identificar as potencialidades de produção mineral no Estado de São Paulo. A iniciativa de Fleury aproveitava as diretrizes do Pró-Minério (Programa de Desenvolvimento de Recursos Minerais), criado em 1982 pelo então governador Paulo Maluf, e tinha como coordenador o geólogo José Peres Algarte, que atualmente mora em Franca. Algarte, 67, recebeu a reportagem em seu escritório num prédio no Centro de Franca. Ex-funcionário da CPRM (Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais), hoje Serviço Geológico do Brasil, ele chamou a atenção para a importância que o projeto do governo tinha, mas que, natimorto, nunca saiu do papel, apesar dos recursos públicos empregados e das diversas tentativas para a sua viabilização. Durante anos, três salas comerciais no Edifício Esmeralda foram alugadas pela Prefeitura de Franca para receber equipamentos e funcionários que nunca vieram. Trabalhando ainda para a CPRM, Algarte foi convidado a coordenar o estudo para o Governo do Estado de São Paulo. Era preciso identificar no território paulista as áreas com potencial para exploração mineral. “Conseguimos traçar um panorama o mais completo possível sobre as diferentes regiões. No caso da nossa região, ficou estabelecido que seria criado o Pólo Diamantário do Nordeste do Estado, com o laboratório gemológico sediado e em Franca”, disse ele. Com o projeto em pleno funcionamento, assegura o geólogo, todo o trabalho de certificação de diamantes e pedras preciosas do Brasil convergiria para Franca. Para alcançar tal status, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas chegou a enviar dois professores para seis meses de aperfeiçoamento no GIA, sigla em inglês para Instituto de Gemologia da América (www.gia.edu), o mais respeitado órgão do mundo no segmento de lapidações e certificações, com sede no estado americano da Califórnia. Com isso, segundo José Peres Algarte, poderiam ser treinadas e capacitadas pessoas para atuarem nesta área. Pela parceria firmada com o município, caberia ao IPT a execução técnica de diversos projetos e à Prefeitura, a implementação física do laboratório. <b>DESINTERESSE</b> Mas o fato é que o projeto nunca avançou em suas propostas, sendo dado por encerrado em 1997, quando o prefeito Gilmar Dominici assumiu a Prefeitura de Franca. Para José Peres Algarte, nem mesmo as seguidas reuniões com secretários municipais, principalmente Cassiano Pimentel, da pasta de Desenvolvimento, foram suficientes para retomar o projeto e colocá-lo em funcionamento. Por e-mail, Algarte ainda afirma que as verbas encaminhadas pela Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia foram usadas em outros programas municipais. “Pude constatar junto ao secretário de Planejamento que o recurso direcionado para o laboratório já tinha sido usado para atender ações sociais da Prefeitura”, disse o geólogo. Cassiano Pimentel, no entanto, negou as afirmações. Com o desmantelamento do laboratório gemológico, Franca, na opinião do geólogo Algarte, deixou de ter uma instituição única no Brasil e na América do Sul, que, agora, já vê surgiu algo parecido no Panamá. “A discussão sobre a realidade dos diamantes em Franca deve ir muito além de uma questão policial. É necessário abrir uma discussão sob outra ótica e muito mais ampla que isso, com foco na história, na tradição e cultura francana, lembrando que esta sempre foi uma atividade tradicional na cidade, com mais de um século de existência. O laboratório, tenho certeza, incrementaria a economia de Franca, principalmente a prestação de serviços”, disse ele. Como nada disso ocorreu, continuou, manteve-se o comércio informal e não-regularizado de diamantes, trazendo o fechamento de pequenas indústrias de joias e de dezenas de tradicionais lapidações. “O Brasil é um dos maiores produtores do mundo e Franca tem tradição no negócio, mas colocar a cidade dentro desse cenário é uma questão de envolvimento coletivo. Estamos perdendo o bonde da história. Dependemos de uma única atividade econômica e nossas divisas estão indo embora. Temos a chance de mudar o rumo, mas parece não haver vontade para isso”.

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