Virtualmente, a mensagem chegou. Numa movimentada estação de metrô em Nova York, rush time, um jovem vestindo despojadas calças jeans, camiseta e boné chega, se acomoda perto da escada rolante, abre uma caixa, tira um violino e começa a tocar peça erudita de difícil execução.
Centenas de pessoas passam por ele falando ao celular, correndo pra começar o dia, atrasadas. Ninguém para. Ninguém o escuta. Ninguém se dá ao trabalho de, ao menos, olhá-lo. Durante quarenta e cinco minutos ele toca. Ninguém o nota. Apenas uma mulher em meio àquela multidão que o ignorou completamente se dá conta dele e estaciona à sua frente para ouvi-lo.
O jovem violinista era Joshua Bell, que dias antes se apresentara em Boston, em espetáculo disputado com ingressos vendidos até por mil dólares. O violino, de extraordinária sonoridade, era um raríssimo Stradivarius. E a iniciativa, do The Washington Post, para lançar um debate sobre Valor, Contexto e Arte.
Ao colocar um dos maiores nomes da música da atualidade se apresentando anonimamente, sem qualquer purpurina ou holofote, a equipe que bolou a experiência procurou, entre outras questões, saber se as mesmas pessoas que poderiam pagar os caros ingressos para vê-lo no teatro seriam capazes de reconhecê-lo em situação de anonimato. Ou discrição.
Há outras respostas que, acredito, deviam buscar: as pessoas valorizam o que está em suas circunstâncias embora sem etiquetas de grife? Valorizam seus pertences independente do preço que possam valer? Seus sonhos são importantes por seus significados ou isso é determinação de mercado?
Essa história me deu uma tristeza danada. Não sei se eu mesma pararia para ouvir Joshua Bell: uma coisa é possuir a coleção de seus CDs, outra é reconhecê-lo. Frequentemente me flagro achando bonitas pessoas que a televisão diz que são; concordando que não adianta eu tirar o traseiro do sofá porque as coisas no Brasil são assim mesmo e pronto. Sonho ter o que vi outra pessoa comprando; imaginando-me mais feliz se trocar meu carro; ser mais magra, tirar as rugas, esforçar-me em parecer mais jovem que minha própria filha. Submeto-me às imperiosas regras ditadas pelas revistas - vista-se assim!, pense assado!, fulana é linda!, ninguém canta igual à cantora Y!, minha felicidade depende das pérolas e brilhantes da joalheria tal!, a apresentadora X é um fenômeno! Surpreendo-me dizendo yes! ao que antes odiava e no! aos meus valores mais essenciais.
Azar meu! Qualquer dia desses a ficha cai e vou perceber que as melhores coisas do mundo estão ao alcance de minhas mãos, gratuitas e abundantes. Que meu colar mais bonito é o feito das flores do meu jardim. Que não preciso de carro: minha imaginação me faz voar. Que não existe som mais agradável que o produzido por cinco gargantas infantis gritando uma por vez: `Vó! Vem me limpar!`. Que posso aprender - muito mais que ensinar - se abrir simultaneamente ouvidos e coração. Que não preciso sempre ter razão: abaixar a cabeça alivia a tensão dos ombros. Que ouvir é muito, mas muito mais importante que falar. E que saber é fácil, difícil é pôr em prática. Tentarei abolir ações como impor, exigir, determinar - passiva, reflexiva ou ativamente e terei Eu, etiqueta, poesia de Drummond, impressa na cabeceira da cama.
<b>MITOLOGIA </b>
Alimento natural dos deuses, a Ambrosia era preparado à base de mel. Podia tornar os deuses invulneráveis. Igualmente, conferir juventude eterna ao mortal que a ingerisse. A sobremesa natural feita por minha avó (homônima daquela e destinada a um bando de mortais gulosos) era preparado à base de leite, ovos, canela e muito açúcar. Tinha a capacidade de tornar-nos insatisfeitos com as porções ridículas que mamãe nos dava. Também podia fazer-nos explodir, se ela não nos brecasse a gula. Sonho com ambas até hoje: com vovó e com a ambrosia...
<b>FILME</b>
O segundo, dos 100 Filmes Inesquecíveis: Match Point. Tem Jonathan Rhys Meyers e Scarlett Johansson nos papéis de destaque. Deslumbrante desde a cena inicial segue um dos melhores roteiros originais da história do cinema. Está recheado de influências de Dostoyevsky (Crime e Castigo) e Somerset Maugham (The facts of life). O diretor, Mr. Woody Allen, consegue brincar com nosso lado negro: de repente nos flagramos torcendo pelo bandido. O filme é uma narração do papel e do poder da sorte no destino de cada ser humano.
<b>ASPAS</b>
`O homem que disse `antes sorte que virtude` entendeu o sentido da vida. É comum termos medo de assumir o quanto nosso sucesso depende da sorte. E é aterrorizante pensar o quanto ela está fora do nosso controle. Há momentos em uma partida de tênis em que a bola bate no topo da rede e, por uma fração de segundo, fica paralisada. Impossível prever o momento seguinte: ela tanto pode avançar quanto retroceder. Com um pouco de sorte, ela vai para a frente e você ganha. Ou talvez não, e aí você perde`. (Texto de abertura de Match Point)
<b>SOM</b>
... e cenário. Momento perfeito: fim de tarde, beira de rio. Sol caindo, Lua nascendo. Água escura, imóvel, espelhando céu quase sem nuvens. Nem tão frio, nem tão quente. Fundamental perceber os tons de verde das árvores, na outra margem. Aves - garças - surgem e desaparecem elegantemente. Montanhas se destacam, lá longe. Peça silêncio a quem estiver perto. Arme o som e saia correndo pra começar a ouvir Ave Maria (Schubert) através do violino de Joshua Bell. Sem sapatos, ponha os pés na água e deixe o pensamento voar...
<b>Lúcia Helena Maniglia Brigagão</b>
<i>Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras</i>
luciahelena@comerciodafranca.com.br
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