Improvável pensar que passados 50 anos, a minissaia, invenção de Mary Quant, na Inglaterra, ainda causaria tanta polêmica. Há três semanas, uma universitária chegou à Uniban (Universidade Bandeirante), em São Bernardo do Campo, São Paulo, usando um minivestido cor-de-rosa. Saiu escoltada pela polícia sob xingamentos de mais de 700 alunos. Eles se aglomeraram em torno de Geyse Arruda insultando-a com palavrões que eu não escreveria, por causa dos trajes considerados “impróprios” que usava. Mas quem pode dizer o que é ou não apropriado para usar em uma faculdade?
Nesta semana, o Se Liga visitou universidades de Franca para saber o que os estudantes da cidade acham da polêmica. Adivinha só qual era - ainda - o assunto nas rodinhas de estudantes no intervalo do Uni-Facef (Centro Universitário de Franca) e na Faculdade de Direito de Franca na última terça-feira? O vestido rosa da Uniban ...
A opinião da maioria não diverge: o vestido era mesmo MUITO curto, a faculdade não é lugar para desfile de moda. Mas NADA justifica o ataque dos outros estudantes à garota. Para Ana Teresa Saturi, 22 anos, aluna de administração, que também vai à Unifacef de vestido, a dica é ter “desconfiômetro”. “Não dá para mostrar tudo, mas cada um tem que usar o que te faz sentir bem. Com este calor insuportável dos últimos dias é quase inevitável se render aos (vestidos ou saias) curtos”.
Vanessa Brunetto, estudante de administração, já viu colegas que exageraram no comprimento - ou na falta dele - das roupas. Mesmo assim nunca presenciou nenhum ato de desrespeito ou perseguição. “Já vi uma garota que usa microvestidos, principalmente às sextas-feiras, quando acredito que ela já venha vestida para a balada. Acho falta de respeito e de noção, mas não defendo de modo algum a violência”, diz.
Colega de Vanessa, Eduardo Vieira disse nunca ter visto nenhuma apelação por parte das mulheres que exageram no vestido curto. No caso da Uniban ele acredita que já havia algum tipo de perseguição pessoal contra Geyse e que culminou com o fato que todo mundo já conhece. “Estamos no verão e o Brasil é um País tropical e quente. Elas têm mesmo é que mostrar as pernas para a gente. Está liberado”, brincou.
Na outra instituição “investigada” pelo Se Liga, a Faculdade Municipal, não é diferente. O desfile de moda continua. Filipe Franco e Saulo Faria Oliver defendem a “seriedade” do ambiente da faculdade de Direito, mas garantem que “de vez em quando pode”.
Larissa Bertoni, se permitiu nesta semana, pela primeira vez a ir com um vestido à escola. Longo, mas se rendeu... A estudante do quarto ano de Direito é adepta dos curtos, desde que não seja no ambiente escolar. “Tem lugar e ocasião para tudo”. Marcela Andrade e Mariana Gomes, também do curso de Direito, não se importam em usar roupas curtas na faculdade. Elas garantem: nunca foram discriminadas ou sofreram qualquer tipo de insulto. Marcela adora vestido, saia e shorts curtos. Bem curto, como ressalta. “O importante é ter bom senso e saber quem pode ou não usar. Venho à faculdade com o tipo de roupa que quiser, mas não vou assim ao Fórum”.
A pesquisa de “campo” do Se Liga chegou a uma conclusão: o ambiente universitário é alegre e tranquilo, pelo menos em Franca. Nas poucas horas em que os “caçadores de minis” andaram pelos corredores das faculdades viram de tudo: calças largas e justas, saias, vestidos muito curtos, muito longos, na altura do joelho, shorts de todos os tamanhos, bermudas, blusas decotadas, camisetas, salto alto, tênis, chinelo e sandálias... Só não encontramos ninguém de burca.
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