Trabalhosos tempos aqueles quando criamos nossos filhos, que hoje estão às voltas com nossos netos. Nossos maridos - provedores - davam-nos de "um tudo", não deixavam faltar nada em casa, porém aquele negócio de trocar menino, esquentar mamadeira, dar papinha, levar ao médico ... era tarefa exclusiva da mulher. Quer dizer, nossa.
A maioria da mulherada daqueles distantes tempos abdicou das carreiras - não, eles não exigiam isso - e se dedicou totalmente à tarefa da educação e criação dos filhos. Bem, eles não exigiam, mas não moviam uma palha para diminuir nossa carga... O montante que recebíamos por nosso trabalho, com raríssimas exceções, só servia mesmo para "nossas calcinhas" - expressão que muitos maridos u-savam para designar a finalidade dos salários das esposas. Equiparação salarial era apenas um sonho, em muitos casos.
Em pouco tempo houve mudança devastadora. As mulheres começaram a trabalhar em outras atividades que não aquelas incentivadas pela tradição. Começaram a aparecer advogadas, contadoras, médicas, dentistas, empresárias, comerciárias, operárias. Seus salários começaram a ser significativos, dentro do orçamento do casal. Como os horários diminuíram pelas atividades extradomésticas, os maridos começaram, sem perceber (por isso não espernearam tanto) a assumir tarefas que antes eram motivos de arrepios, pois exclusividade das mulheres.
Hoje nos vemos - todos - favorecidos pela quantidade de máquinas que auxiliam na rotina da manutenção do lar - lavadoras de roupa e de pratos, secadoras, congeladores; contamos com o auxílio ímpar dos produtos químicos que só faltam falar - tira-manchas, desengordurantes, sabão para isso e aquilo; e demos uma racionalizada legal no cardápio do cotidiano - menos proteína!, mais cálcio!, menos frituras!, olha o colesterol!... Olha só a gente comendo menos e melhor, com disponibilidade e opções de comida semi-preparada... Meu pai iria ficar horrorizado se viesse almoçar comigo, sem avisar: muita salada, nada de carne verme-lha, arroz só de vez em quando e pouquíssimo doce! Ele iria botar a mão na cabeça e falar (alto), lamentando: Mama mia, quanta porcaria!...
Meus filhos (e genro) trocam fraldas, limpam bunda de criança, dão banho, levam ao médico, discutem com os filhos na escolha das roupas, freqüentam reuniões nas escolas, as esposas viajam e eles sabem a gaveta dos uniformes, dos agasalhos, cadê a roupa de gala, qual remédio os filhos tomam, percebem as anormalidades (um espirro, um cocô mole, um nariz escorrendo, uma tosse mais esquisita) e, se tiverem que telefonar para o pediatra, não suam ou gaguejam, sem saber o que dizer, informar ou perguntar. Conhecem as preferências alimentares de cada filho e comunicam aos avós as preferências deles. Adoro vê-los servindo as crianças, distribuindo as porções nos pratos com delicadeza e cuidado...
O homem moderno não mudou apenas quando dividiu tarefas domésticas e cuidados com os filhos. Ele descobriu a porta da cozinha e entrou. Comprou avental, chapéu, um monte de equipamentos absolutamente desnecessários e disputa conosco as trempes dos fogões. E não é que ele sabe cozinhar? Claro, não é essa bobagem de arroz e feijão, não. É bacalhau reviravoltado com tru-fas e capins cheirosos; arroz de chinês com molho de açafrão: essas coisas esquisitas (adoro vê-los batizar os pratos...)
Mais dia, menos dia não estranharei se, quando formos para a maternidade, eles reivindicarem uma cama extra, alegando que as dores do parto acabaram com eles...
<b>MITOLOGIA </b>
"A Aflição é divindade grega. Filha da Noite, está sempre acompanhada do Desgosto e da Dor, também divindades". E assim os gregos foram "batizando" os sentimentos humanos.
<b>FILME</b>
Caso haja interesse em algum filme raro; caso tenha procurado o título (em vão) no Submarino, no Ebay, no 2001; caso haja urgência na busca ... só uma solução: buscar no site www.filmesdificies.com.br. Os organizadores possuem lista enorme de títulos disponíveis e se comprometem a procurar aqueles que não constem da relação. Foi através deste site que consegui o argentino Otra historia de amor, que procurava desde, literalmente, o século passado.
<b>SOM </b>
O Grupo Balaio é formado por 4 jovens - uma linda moça (que usa flor no cabelo) e três rapazes. Fazem som brasileiro, de raiz. Pesquisam música de norte a sul, falam com desenvoltura sobre Mário de Andrade e executam com a mesma tranqüilidade e segurança as suas composições, as resultantes de suas buscas e os clássicos do sertão. Quando cantam são afinadíssimos, as vozes se completam - é muito prazeroso ouvi-los.
<b>PONTO FINAL</b>
Tenho carteira de habilitação desde os dezoito anos. Faz, portanto, muito, muito tempo. Nunca havia sido parada por um comando: acho que não tinha cara de bandida. Acho que agora tenho: no espaço de duas semanas por duas vezes pediram-me documentos - meus e os do carro. Da primeira vez, achei até engraçado, estava debutando. Da segunda, já considerei redundância: estava com pressa, vinha da feira, a cozinheira me esperava. Perguntei ao guarda se o comando parava aqueles carros "Fórmula Zero", se faziam vistoria neles. Siiiiiiiiiiim, ele disse. Mas como? Perguntei. Eles continuam mi-lhares por aí, sem tudo: sem buzina, sem freios, sem faróis, batendo na gente e o motorista saindo do carro gritando "Não tenho dinheiro, não tenho dinheiro!" Ele não me respondeu, me olhou feio, devolveu-me os documentos que estavam em ordem. Fui embora.
<b>Lúcia Helena Maniglia Brigagão</b>
<i>Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras</i>
luciahelena@comerciodafranca.com.br
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