Os cabelos anelados, que eram abaixo do ombro, estão curtinhos. Os brinquedos preferidos ainda permanecem encaixotados. Os cadernos da 4ª série não são usados há meses. A vida da menina Júlia Massucato mudou por completo. Há um ano, na manhã do dia 24 de outubro de 2008, uma sexta-feira, ela ainda dormia quando foi baleada na cabeça pelo próprio pai. Ele também atirou na mãe dela, matou seus dois irmãos, sua avó e depois se suicidou. A menina perdeu a fala e não consegue mais andar. Nos últimos doze meses, Júlia, que nasceu prematura, no sétimo mês de gestação, trava agora sua segunda batalha pela vida.
Com o tiro, Júlia quase morreu. Ficou em coma. Precisou da ajuda de aparelhos para continuar viva. Enfrentou três cirurgias na cabeça. Permaneceu 74 dias internada na Santa Casa. Teve que passar o aniversário de 11 anos, em 1º de novembro de 2008, no hospital. Neste ano, a data será diferente. Continuará sem a irmã gêmea, Letícia, morta pelo próprio pai, mas comemorará os 12 anos em casa, ao lado da mãe. A menina não voltou a falar nem a andar e ainda usa fraldas, mas já consegue se comunicar, movimenta o braço esquerdo, mexe a cabeça e sorri. Não depende mais de uma sonda passada no nariz para se alimentar. Está reaprendendo a mastigar os alimentos. Para quem a viu em janeiro, deitada na cama, totalmente imóvel, com os braços travados sobre o peito, fica difícil controlar a emoção ao encontrá-la sentada no sofá, alegre, sorrindo e mandando beijos. Júlia ainda tem muito a vencer, mas sua evolução surpreende os médicos.
Só o fato de estar viva já é uma surpresa para os especialistas. “Foi um caso muito grave. O quadro inicial era de pouca expectativa de sobrevida”, disse neurocirurgião Sinésio Grace Duarte, que acompanha a criança desde que deu entrada na Santa Casa no dia do crime. A recuperação de Júlia no último ano está além do esperado. “A evolução dela é muito satisfatória. Ela consegue fazer coisas que achávamos que seria impossível por causa da lesão causada no lado esquerdo do cérebro, que afetou as partes motora e da linguagem. Ela emite sons, se comunica, tem consciência e uma organização das ideias”.
Sinésio disse que não é possível afirmar se Júlia voltará a andar e falar, mas que existe essa possibilidade. “Temos de aguardar, acompanhar e acreditar que é possível. Nossas expectativas são boas porque a Júlia está evoluindo bem, o que não acontece na maioria dos casos desse tipo “.
O fato de ser criança ajuda na recuperação. Na infância, o cérebro tem maior capacidade para recuperar funções que perdeu. Para o médico, o trabalho com fonoaudióloga e fisioterapeuta também são fundamentais para os avanços de Júlia, além do apoio da família, especialmente da mãe, a cabeleireira Valéria Gomes Freitas, 38. A menina faz tratamento todos os dias. Chega a ter sessões de fisioterapia duas vezes por dia. “O suporte das profissionais é essencial, mas fatores extra médicos, como a fé, também ajudam na recuperação. Tenho conversado com a Valéria e sei da crença dela”.
Valéria não perde as esperanças e sempre pede para Deus realizar seu maior sonho: ver a filha voltar a falar e a andar. “Procuro pensar só coisas positivas para ter uma vida melhor ao lado dela”, disse ela.
<b>ESTÍMULOS</b>
A mãe procura estimular a filha levando-a para passear, colocando músicas para ela ouvir e filmes para ela assistir. Evita falar sobre a tragédia, mas costuma fazer alguns testes para descobrir do que a filha se recorda sobre os familiares. Uma vez, mostrou fotos dos irmãos e do marido tiradas com o celular e Júlia ficou feliz. “Percebi que ela tem noção do passado, sim. Ela riu quando eu mostrei os irmãos e falei os nomes deles”.
Enquanto não consegue recuperar a fala, Júlia continuará se expressando com sorrisos, beijos e caretas. Sempre dá gargalhadas quando ouve a banda NX Zero, nas vezes que passeia pelo shopping ou faz cócegas nas pessoas. Quando ouve músicas sertanejas ou notícias tristes na televisão, fecha a cara. Se depender da mãe, o rádio da casa delas só vai tocar NX Zero e as duas ainda vão rir muito fazendo cócegas uma na outra. “Luto por um futuro feliz para mim e para minha menina”.
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