No caderno de Artes, hoje, o leitor do Comércio vai encontrar reportagem de Paula Faciroli a respeito de um pequeno mas importante movimento que busca, ainda de maneira tímida, resgatar o ensino de música na escola pública. Alguns músicos da Orquestra Sinfônica de Franca, tocados pelo desejo de alunos da Escola Sudário Ferreira, arregaçaram mangas e se ofereceram para ensiná-los. Mesmo com poucos instrumentos, os músicos se organizaram e as aulas estão acontecendo duas vezes por semana. Com a divulgação da ação, é provável que consigam os instrumentos de que necessitam para formar o primeiro grupo e ampliar a idéia que é muito bonita: levar música a todas as escolas de Franca, de forma prazerosa, sem currículo ou notas, apenas como forma de expressão de sentimentos e celebração da vida.
A música é humanizadora, pode despertar nos seres mais rudes sentimentos nobres e fortalecer nos mais frágeis a vontade de superação sempre demandada pela vida. Nos meios de comunicação e nos de ensino tem-se falado muito na inclusão da música na grade curricular das escolas estaduais. Talvez a incidência do assunto neste 2009 esteja associada aos registros que se fazem em lembrança dos 50 anos da morte de Villa-Lobos. Além de ter inscrito seu nome no rol dos grandes compositores de música erudita, Heitor Villa-Lobos era educador. Foi o primeiro a apresentar um projeto consistente de educação musical. Em busca de apoios e patrocínios gastou parte expressiva de seu tempo.
No governo Getúlio Vargas viajou pelo Brasil dando aulas e comandando oficinas. Usou toda sua influência, que já era grande desde a Semana de Arte Moderna, para instituir o ensino obrigatório de música nas escolas brasileiras. Criou o Guia prático, com temas populares, pois era um defensor ardoroso do folclore e das manifestações artísticas regionais. Organizou uma orquestra que deu certo e se apresentava pelo País. Tornou-se conhecida sua afirmação de que `o canto orfeônico integra o indivíduo dentro da herança social da Pátria; é a solução lógica para o problema da educação musical nas escolas, não somente na formação da consciência musical, mas também como um fator de orgulho cívico e disciplina social`. Ousaríamos acrescentar que a música é um canal para a exteriorização de sentimentos individuais e, como tal, expressa agonias e êxtases, coloca para fora o que angustia e o que eleva o ser humano.
Brasileiros são seres musicais por excelência. Este é um traço de nossa exuberância de povo tropical. Tanto quanto o futebol, a música pode ser uma experiência decisiva na educação de crianças e adolescentes. Banida das escolas públicas pelos governos militares, que quiseram amordaçar também mais esta manifestação de liberdade e individualidade, ensaia voltar. Seria um ganho enorme para esta geração que parece perdida e tem canalizado sua energia para atos de agressão contra colegas, professores e prédios. Que o exemplo bonito que nos dão os músicos na Escola Sudário Ferreira possa motivar outros grupos, novas ONGs. Porque tudo indica que esperar pelos governos é condenar-se à perpetuação dos males.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.