Foi uma amiga quem contou e os depoimentos foram dados por um famoso médico francano para seu pai, que por sua vez lhe relatou as histórias. Era naquele tempo em que os pais tinham tempo para conversar com os filhos talvez em volta da mesa, depois do jantar, sem televisão, sem novela das oito, sem correria.
Nos começos do século passado, o médico, então jovem, foi estudar na Inglaterra. Primeira história: amassou o maço de cigarros vazio, jogou-o na beira da calçada. Sentiu alguém bater-lhe no ombro e pedir-lhe gentilmente que recolhesse o lixo e o jogasse na vasilha adequada. (Quase morreu de vergonha). Segunda história: entrou num pub e pediu uma cerveja. Foi atendido, tomou-a e pediu outra. O garçom gentilmente negou, explicando: era tempo de pós-guerra, havia racionamento, a cota de cerveja era de um copo por cidadão. Ele concordou, mas perguntou: o que me impede de ir ao pub vizinho e pedir outra caneca? Nada, o garçom respondeu. Nada o impede, mas o senhor faz essa pergunta porque não é inglês. (Entendeu como lição de cidadania e respeito).
Não tão antiga, mas também do século passado. Conheci numa viagem, uma moça sueca chamada Mainy. No ano seguinte, quando fui conhecer Estocolmo, ela veio de sua cidade me encontrar. Chegou no comecinho da noite, quando eu já havia `turistado` bastante. Lógico, perguntou-me o que achara. Adorei, respondi, mas fiquei intrigada, continuei. Numa praça tinha um enorme tabuleiro de xadrez incrustado no chão, todo em mármore preto e branco. E as peças, também grandes, soltas, eram verdadeiras esculturas: lindíssimas! (Ela abriu bem os olhos, me olhou, sem entender meu espanto.) Ninguém as tira dali? perguntei. Ninguém as leva embora? (Ela abriu mais ainda os olhos e agora a boca também.) E emitiu um som: Noooo! Oh no! Elas são públicas, explicou-me. Elas são de todos nós! Bom, e aí quem ficou com cara de tacho, fui eu.
Quase setenta anos: é o tempo que separa a primeira história do momento atual... e parte do povo brasileiro ainda não conseguiu melhorar seu desempenho moral e ético. Ainda gostamos de levar vantagem em tudo e a preocupação com o próximo, na maioria das vezes, não passa de conversa mole. Há quem atribua esse mau-caratismo aos exemplos dados por nossos colonizadores para os quais saques e oportunismos sempre foram práticas comuns. Fico em dúvida, pego-me em contradição, mas não sei resolver o paradoxo: de um lado esses péssimos conceitos sobre a gente. Mas olho meu povo, vejo alegria, vejo beleza, escuto melodias criativas, percebo manifestações artísticas das mais variadas naturezas, observo esse povo lutar, pular da cama cedo, trabalhar de sol a sol. Quem diz que brasileiro é acomodado e preguiçoso nunca acordou antes das cinco da manhã e o viu tomando uma, duas, três conduções para chegar ao trabalho.
Odeio aquela piada da criação do mundo quando Deus, na distribuição dos benefícios aos continentes teria privilegiado o Brasil mas, em contrapartida, colocado aqui um povinho de má qualidade. Eu não sou de má qualidade, meus filhos, marido e netos não são de má qualidade, meus amigos e parentes também não. Os escritores brasileiros que leio, são ótimos. Os jornalistas, artistas, profissionais que admiro são mistura fina. O pessoal que colabora comigo é maravilhoso. Quem é esse povo de má qualidade da piada?
Saúde a gente tem. Por mais que exibam fotos de miséria nordestina, quem andou por lá, mesmo nos interiores, sabe que há certo exagero nas tintas com as quais pintam desgraceira. Falta melhorar o sistema de atendimento médico. Falta saneamento básico em muitos lugares. Agora, falta educação - não jogar lixo nas ruas; não furar filas - a maioria acha que basta pedir licença: `é só um minutinho!`; não fumar escondido no banheiro do restaurante; não ultrapassar pela direita; não furar sinal; não estacionar em lugar proibido; não falar alto nos lugares que exijam silêncio; não mentir para justificar o que não foi feito a tempo, não parar em fila dupla. Falta aprender a votar, pelo amor de Deus! Aprender a discernir o bem do mal, o ruim do bom e a não se deixar levar por mentiras. Ah! e não perdoar - ninguém - pela impunidade e apoio à corrupção. Só isso (tudo) e estaremos vivendo no Paraíso...
<B>MITOLOGIA </B>
Aracne tinha habilidade extraordinária na arte de tecer e bordar. Confeccionava tapeçarias lindas, que a tornaram famosa. Um dia vangloriou-se em demasia: seus trabalhos seriam superiores aos de Minerva. Mortal e deusa entraram em disputa. Há duas versões para o fim do litígio. Segundo uma, Minerva teria ficado tão irritada que matou a rival. Na outra, quando tudo terminou, Aracne teria se enforcado e Minerva a transformou em aranha, destinada a fiar e tecer por toda a eternidade. A história pertence à mitologia grega, mas o prefixo aracni deu origem a um monte de vocábulos, todos eles referentes ao estranho bicho que tece, construindo lindas teias, nas quais outros bichos se enroscam.
<B>ASPAS</B>
`A morte é o clube mais aberto do mundo`. (Otto Lara Rezende)
<B>FILME</B>
Um dos Cem Filmes Inesquecíveis? Feitiço da Lua, vencedor de três Oscar em 1988: melhor roteiro original; melhor atriz (Cher), melhor atriz coadjuvante (Olympia Dukakis), melhor roteiro (John Patrick Shanley). Abertura emocionante: a Lua imensa subindo e Dean Martin cantando That`s Amore.
<B>SOM </B>
Justamente Dean Martin cantando That`s Amore! (When the moon hits your eye like a big pizza pie, that`s amore! When the world seems to shine like you`ve had too much wine, that`s amore)
<B>PONTO FINAL</B>
A ira manifesta quando contrariados e a inflexibilidade de `cristãos` que não conseguem perdoar quem consideram `errados`, dão-me a certeza de que o Cristo que reverenciam está sentadinho bem ao lado de Alá.
<B>Lúcia Helena Maniglia Brigagão</B>
<I>Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras</I>
luciahelena@comerciodafranca.com.br
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