Um ano após ver o marido matar seus dois filhos, Valéria recomeça: `Decidi ser feliz`


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DISPOSTAS A RECOMEÇAR - Na casa localizada na Rua Ouvidor Freire, onde viveu uma das maiores tragédias ocorridas em Franca, a cabeleireira Valéria Gomes Freitas cuida da filha Júlia.
DISPOSTAS A RECOMEÇAR - Na casa localizada na Rua Ouvidor Freire, onde viveu uma das maiores tragédias ocorridas em Franca, a cabeleireira Valéria Gomes Freitas cuida da filha Júlia.
<p>Rua Ouvidor Freire, número 2538, Centro. Um ano se passou. O portão continua branco e as paredes verdes. A diferença está nas moradoras da antiga e espaçosa residência que fica neste endereço. A casa foi palco de uma das tragédias que mais chocaram Franca no dia 24 de outubro de 2008 e hoje abriga as duas únicas sobreviventes do crime que ficou conhecido como chacina da Ouvidor Freire. O ex-seminarista Hélder Massucato Rezende, de 46 anos, atirou na cabeça de sua mulher, a cabeleireira Valéria Gomes Freitas, 38, nas filhas gêmeas Letícia e Júlia, no filho Alexandre, 7, e na mãe dele, Lourdes Massucato, de 75 anos. Depois ele se matou. Apenas Valéria e Júlia, hoje com 11 anos, sobreviveram. Numa decisão que causa surpresa para muita gente, Valéria resolveu morar com a filha no imóvel onde o crime aconteceu. Desde junho, ela e a filha residem na casa que pertencia ao sogro Augustinho Rezende, 79. Ele morreu no dia 20 de maio. </p> <p>As duas dormem no mesmo quarto onde o filho caçula foi alvejado. Na casa de cômodos amplos, os móveis não foram substituídos. Há muitas imagens de santos e anjos. Chama atenção um quadro grande com o desenho de Jesus pendurado na parede do corredor, local onde foram encontrados os corpos do marido de Valéria e de sua sogra. Sobre os móveis há muitas flores. Valéria sempre gostou de ter rosas em casa. A diferença é que antes eram presentes do marido e agora são compradas. Foi esse marido romântico e atencioso, como sempre descreve Valéria, que na manhã do dia 24 de outubro do ano passado pegou o revólver do pai e atirou contra os familiares. Os filhos ainda estavam deitados quando foram atingidos. Hélder e a mãe morreram na hora. A esposa e os três filhos foram socorridos, mas Letícia e Alexandre não resistiram aos tiros na cabeça. </p> <p><br />Um ano depois da tragédia, Valéria parece ter encontrado uma possível explicação para a atitude do marido, que teve problemas com dependência química e depressão. A cabeleireira acredita que ele era esquizofrênico e teve um surto no dia do crime. Na entrevista concedida no início deste mês, Valéria demonstrou a mesma serenidade de sempre. Não chorou em nenhum momento e deu lições de superação. Ela disse que chegou um momento em sua vida que teve de escolher entre ficar triste ou recomeçar. Optou pela segunda opção.<br />Com o tiro no lado esquerdo da cabeça, Valéria perdeu a visão do lado esquerdo, mas está se recuperando. Nestes dozes meses que se passaram, Valéria nunca pisou no Cemitério da Saudade para visitar os túmulos dos filhos, do marido e da sogra. Também não pretende ir até lá no próximo sábado, quando a tragédia completa um ano. Ela quer levar flores e participar da missa na igreja.</p> <p><strong>Comércio da Franca - Como foi este último ano?<br />Valéria Freitas -</strong> Foi um ano de muitas mudanças, adaptações e limitações, mas procuro vencer as barreiras que aparecem. É uma vida diferente que eu e minha menina estamos vivendo agora. Procuro fazer o possível para que tudo dê certo e principalmente para que a Júlia possa reagir aos tratamentos e medicamentos.<br /></p> <p><strong>Comércio - Como ela está?<br />Valéria -</strong> Ela está reagindo bem, graças a Deus. O tratamento é longo. Estamos trabalhando com ela todos os dias, com fisioterapia, fono e estimulando o emocional para ela estar sempre feliz, pensando num dia melhor, num amanhã melhor, para curtir também as coisas boas da vida sem ficar pensando só em tristezas.<br /></p> <p><strong>Comércio - Em janeiro, na última reportagem do ‘Comércio’, a Júlia ficava apenas deitada, sem se mexer. Hoje ela já nos recebeu, cumprimentou, mandou beijos. Que avanços teve?<br />Valéria -</strong> Fazemos o tratamento todos os dias que é importante para que ela possa evoluir. Tenho muita fé em Deus. Ela vai melhorar a cada dia. Converso bastante com ela para que se motive a voltar a sair da cama, ver televisão, ver os amigos. Ela gosta de agitação, de gente alegre. Tento estimulá-la, falando coisas boas, passeando com ela em lugares que ela sempre gostou para termos pensamentos positivos e tentarmos ser felizes.<br /></p> <p><strong>Comércio - O que ela consegue fazer hoje?<br />Valéria -</strong> Ela consegue mandar beijos, muitos beijos, faz tchau, cócegas e brinca muito. Acho bonito esse lado criança dela porque é sinal de que está feliz mesmo com todos os problemas que passamos. Para mim, vê-la feliz assim já é bom porque normalmente a pessoa fica depressiva por deixar de fazer as coisas as quais estava acostumada. Ela ia para a escola, para o clube, já tinha uma rotina. Agora está limitada.<br /></p> <p><strong>Comércio - Você já falou sobre a tragédia com ela?<br />Valéria -</strong> Não. Ainda não toquei neste assunto. Não sei se ela se lembra do momento ou só de coisas que aconteceram há seis meses. Como ela ainda não está falando, ficamos sem saber do que se lembra. Evito tocar nesse assunto por ser triste. Ela ainda está numa fase de recuperação. Tenho vontade de falar, mas no momento certo farei isso. Ainda não é a hora ideal.<br /></p> <p><strong>Comércio - Ela sinaliza a vontade de saber do pai e dos irmãos?<br />Valéria -</strong> Não. Comento pouco também porque não sei a reação dela. Não sei se vai trazer tristeza. Neste momento ela precisa estar feliz.<br /></p> <p><strong>Comércio - E a sua saúde?<br />Valéria -</strong> Estou bem, graças a Deus. Tenho recebido muita força espiritual e de amigos. Tenho de agradecer às pessoas que rezam e torcem por mim. Isso ajuda muito a gente, me faz sentir estruturada.<br /></p> <p><strong>Comércio - Recentemente você fez outra cirurgia no olho atingido pela bala. Como foi?<br />Valéria -</strong> Foi mais fácil do que imaginava. Deus tem me abençoado muito. Foi uma cirurgia para limpar os estilhaços e uma de estética para levantar a pálpebra. Fui muito feliz. Vou aplicar uma prótese também.<br /></p> <p><strong>Comércio - A sua força desde que tudo aconteceu impressiona. Você sempre foi assim?<br />Valéria -</strong> Desde nova sou assim. Ganhava meu próprio dinheiro e comecei a ser independente cedo. Acho legal a minha história para as pessoas não ficarem desanimadas com qualquer dificuldade da vida porque a gente tem de lutar sempre. Se você pensar que o problema é muito difícil, vai ficar mais difícil ainda. Problema todo mundo tem. A fé, a esperança e a determinação ajudam muito a gente a crescer. Às vezes, a pessoa cria uma depressão para não encarar a realidade da vida. Encarar as situações da vida engrandece porque você vai poder dizer: “nossa, graças a Deus, enfrentei e superei”. <br /></p> <p><strong>Comércio - O que pensa sobre tudo que viveu?<br />Valéria -</strong> Acho que temos de ter muita fé. Existem pessoas que pensam que quando as coisas chegam na vida de forma difícil não vão conseguir superar. As pessoas perdem a fé nessa hora, falam que Deus não ajudou. Penso o contrário. Nessa hora é que a gente tem de ser fortalecida com fé porque quando você está conectada com Deus, você recebe energia para solucionar de forma mais fácil. As pessoas não podem desanimar porque é difícil. A vida da gente é válida porque temos esse poder de lutar e vencer. <br /></p> <p><strong>Comércio - Como é se lembrar do passado?<br />Valéria -</strong> No começo eu ficava muito triste em ver que minha vida tinha mudado muito rápido. Não me esqueço de uma vez em que eu estava muito emocionada de ficar pensando nos meus filhos e, para ser sincera, acho que tive uma mensagem de Deus me sinalizando que não era para ficar naquela tristeza porque isso não faria bem nem para mim nem para eles. A gente não é dono de nada neste mundo. De repente a gente conquista tantas coisas e dali a pouco muda tudo e não depende da nossa vontade. É algo que costumo pensar muito. É tudo de Deus. Deus dá, mas também tira na hora que Ele quer. Temos que compreender esse lado da vida para sofrermos menos. Não adianta ficar revoltado porque não vai ter volta. Agora, voltando à pergunta, eu cheguei num ponto da minha vida que pensei: ou vou ficar triste para o resto da minha vida porque minha história foi marcante e muito triste ou posso fazer um futuro diferente. É uma escolha minha. Não partiu de mim fazer essa tragédia. Então, se posso viver melhor, por que vou viver entristecida? Se chegar perto da minha filha e ficar só chorando no ombro dela, ela vai ficar igual a mim. Não quero isso para mim nem para ela. Se posso fazer algo melhor na minha vida, vou fazer. Penso que tenho forças para vencer e tenho de batalhar.<br /></p> <p><strong>Comércio - Você e sua filha estão morando na casa onde tudo aconteceu. Como foi a decisão de mudar para cá?<br />Valéria -</strong> Muitas pessoas falaram que eu era doida de me mudar para cá porque tudo aconteceu aqui. Não respondi nem achei ruim, mas fiquei me questionando internamente e percebi que lembranças vou ter em qualquer lugar do mundo, para onde eu for. Vai depender de mim fazer meu ambiente. Então eu vim. Nos primeiros dias, fiquei com receio de enfrentar por ser só eu e minha menina. A gente estava acostumada em um ambiente com mais pessoas, mas graças a Deus, é mais uma coisa superada na minha vida. Como você viu, tento fazer um ambiente gostoso, sempre coloco flores, música, filmes. A vida da gente também passa tão rápido, então por que ficar vivendo nas tristezas sendo que a gente pode viver coisas boas também? <br /></p> <p><strong>Comércio - Na primeira vez que entrou nesta casa após a tragédia, foi inevitável se lembrar das cenas?<br />Valéria -</strong> Foi. Na primeira vez me senti transtornada, com uma sensação de angústia, pela emoção e incerteza de tudo que estava acontecendo. Mesmo depois que meu sogro faleceu foi difícil, mas nada tirava da minha mente que se viesse para cá, teria de ser forte para superar essas emoções. Só que sou uma pessoa que gosta de desafios, de ter à minha frente coisas que acho que não vou conseguir porque vou me reeducando para vencer. <br /></p> <p><strong>Comércio - Você sente a presença dos seus filhos e do Hélder aqui?<br />Valéria -</strong> Não sei se é intuição de mãe, mas sinto meus filhos muito próximos. Quando rezo, me lembro da fisionomia, do jeito e da alegria deles. Parece que tem uma conexão mesmo.<br /></p> <p><strong>Comércio - Mas nesta casa isso é mais forte?<br />Valéria -</strong> Não. É independente. A lembrança fica na mente.<br /></p> <p><strong>Comércio - Quando você recorreu ao jornal para pedir ajuda disse que foi muito difícil. E hoje, como avalia essa história?<br />Valéria -</strong> Tenho que agradecer muito porque com o jornal conseguimos muitas coisas que estão me ajudando até hoje. Foi um caso muito comentado. As pessoas foram muito humanas. Fico feliz de ter recebido esse apoio do jornal e das pessoas que nos ajudaram. Sempre fui independente e naquele momento precisava de ajuda. Achava que meu sogro me ajudaria e ele não me ajudou. Fiquei decepcionada porque ele tinha condições de nos apoiar. Não achava isso correto porque a neta dele estava precisando, mas isso não é comigo, é com Deus. <br /></p> <p><strong>Comércio - Você lida com o público no seu salão. As pessoas lhe perguntam sobre o fato?<br />Valéria -</strong> Tem pessoas que não gostam de tocar no assunto, mas perguntam da minha menina e dou liberdade para falarem. Sinto que as pessoas têm receio de me deixarem chateada, mas vejo tudo com naturalidade e o que posso passar de tudo que consegui superar tento passar. Às vezes, a pessoa tem problemas simples e acha tão difícil, aí começo a conversar sobre minha situação. Algumas clientes já falaram que me acham uma pessoa muito forte. Fico envergonhada de mim mesma, mas acho que, com minha história, as pessoas pensam em valorizar mais a família, o marido, o ser humano. Elas sabem que perdi a família e estou tentando prosseguir. Acho que olham para mim e pensam que vão ver uma pessoa enfraquecida e triste. Não sou assim. Fico feliz de ser um instrumento para passar esse lado de sabedoria para os outros. <br /></p> <p><strong>Comércio - Hoje você encontra explicações para a atitude do Hélder?<br />Valéria -</strong> Assistindo à novela Caminhos da Índia, que mostrou o Tarso (interpretado por Bruno Gagliasso) acho que o Hélder teve um problema parecido com a doença dele (esquizofrenia). Meu marido era culto, tinha duas faculdades, era poliglota e tinha estrutura financeira boa. Só que chegou num ponto da vida que precisava de tratamento. Ele começou a beber muito e acabou aceitando se tratar. Começou a tomar medicamento de tarja preta e estava dando certo. De uma hora para outra, meu sogro falou para ele parar de tomar o remédio porque ele estava dormindo demais. Ele tomava fazia dois, três anos e não poderia ter parado de uma hora para outra. Acho que deu um surto nele e ele quis levar todo mundo junto. Agora não tem volta. É algo que já aconteceu. Faço questão de falar disso até para quem tem casos na família perceber que tem de seguir o tratamento, tem que cuidar.<br /></p> <p><strong>Comércio - Se fosse para eleger o momento mais difícil do último ano, qual seria?<br />Valéria -</strong> O mais difícil foi enfrentar a situação dos meus filhos. Eles ficaram em coma. Foi difícil porque a gente sempre acha que vai enterrar os velhos. Então há muitas surpresas na vida da gente. Mesmo o caso da doação de órgãos porque é tudo tão misterioso. Só mesmo quem passa para saber. Você fica naquela dúvida. Fiquei pedindo para o médico esperar mais um pouco para ver se meus filhos poderiam voltar. De repente o médico perguntou se queria doar os órgãos. Aí eu pensei: “gente e se eu doar os órgãos e se eles tiverem perspectiva de vida, será que eu não vou estar errando?”. Tive cobranças assim. Mas o médico disse que não havia esperança. Então eu pensei que se não tinha mais jeito e era algo que não dependia de mim, deveria autorizar a doação. Agora procuro lembrar mais de momentos bons que vivemos juntos. Fui uma mãe que vivia mais para eles, para minha família e para meu serviço. Não tinha vida noturna para passear à noite. Vivi para meu marido e meus filhos. Arrependimento de não ter curtido as fases com eles não tenho. Claro que eu gostaria que eles estivessem aqui para estarmos vivendo juntos, mas como ouvimos: “Deus tem seu propósito e temos de aceitar porque fica menos doloroso”.<br /></p> <p><strong>Comércio - No dia 24 de outubro completará um ano do crime. Como será esta data?<br />Valéria -</strong> Pensei em ir à igreja e pedir para rezar uma missa e levar flores. Não tenho nada contra cemitério, mas encontro mais força na igreja, é um ambiente que me deixa mais conectada com Deus. </p>

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