A obra literária que desde sua publicação desperta grande interesse, especialmente para os estudantes de Jornalismo e Psicologia é, sem dúvida, A Casa do Delírio, livro escrito pelo jornalista Douglas Tavolaro retratando a realidade nua e crua vivenciada pelos pacientes no Manicômio Judiciário de Franco da Rocha.
O livro foi resultado do aprimoramento do trabalho de conclusão de curso de jornalismo, pelo autor, na Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Dentre outros procedimentos, Douglas entrevistou 107 pacientes do manicômio, considerado o maior abrigo de doentes mentais criminosos do Brasil.
Atendendo solicitação escolar, minha filha Rafaela Maia Freitas Salerno Miguel, estudante de Psicologia leu o livro e fez um comentário bastante interessante sobre a obra. O conteúdo, com autorização dela, passo a retratar aos meus leitores: "A Casa do Delírio é um livro forte que impressiona pela descrição da realidade vivida pelos pacientes dos manicômios. Contém histórias de vidas marcadas pelo sofrimento e que, ao mesmo tempo em que é triste e revoltante, é também uma maneira real de mostrar como vivem essas pessoas. Acredito que exista loucura na razão, mas existe muito mais razão nessas loucuras, razões estas que podem estar implícitas para alguns e explicitas para outros, só que de uma forma ou de outra elas existem na nossa sociedade".
`Temos aqueles que procuram enxergar o mundo além do que ele nos mostra e também temos aqueles que vivem em um mundo bonito e perfumado, onde tudo dá certo e todos são aparentemente felizes, que vivem `de frente para o mar e de costas para o Brasil`. Como diz o autor, o livro é `uma aventura pelo mundo da razão perdida`. Considerei também um mergulho no abismo dos maiores males que tomam conta da sociedade brasileira: miséria, abandono, injustiça, fome, exploração, desemprego, doenças, corrupção... Lá no manicômio estão alguns frutos do sistema político, econômico e social em que vivemos.
Além do levantamento histórico da instituição e dos crimes que cometeram alguns internos, o autor nos mostra também o lado humano, familiar e social dos personagens entrevistados, e o que vem sendo feito institucionalmente no sentido de `reabilitar a dignidade perdida`. O que me tocou muito foi quando o autor descreveu uma cela (o CTI) onde eram colocados os internos mais perigosos, violentos e em surto psicótico. Nas paredes, em que haviam diversas palavras e símbolos escritos e desenhados, aparentemente sem sentido, mas uma frase ele conseguiu entender, e dizia assim: `Quando eu morrer, que não seja só de tédio`.
Quantos de nós, que nos consideramos normais, temos esta lucidez de ver quando a nossa vida está um tédio, ou de reconhecer e perceber que é possível e preciso fazer algo para que isso mude? Com tudo o que vivenciei na leitura deste livro, afirmo que não tenho mais a mesma opinião sobre a loucura de uma maneira geral e nem a mesma opinião a respeito da sociedade. Porque ser aceito nessa sociedade, apesar de ser um triunfo, não vai `nos` definir!".
Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e professor da Faculdade de Direito de Franca
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