‘Nunca mais’ de araque


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Estou começando a entender quando alguém se apega amorosamente a um animalzinho. Estou por um triz para admitir que eles - os bichinhos - se não preenchem, fazem diminuir um ou outro buraquinho emocional.
Estou começando a entender quando alguém se apega amorosamente a um animalzinho. Estou por um triz para admitir que eles - os bichinhos - se não preenchem, fazem diminuir um ou outro buraquinho emocional.
Minha relação com a maioria dos bichos nunca foi muito boa. Com a fauna humana já caminhei bastante embora ainda me considere em processo de aprendizagem. Todo dia construo o castelo interno, onde pretendo abrigar amigos: lentamente, pedra a pedra - que são os exemplos que chegam mostrando o significado de reciprocidade, tolerância, amor, fraternidade, simplicidade e humildade, afeto, desprendimento. Tudo isso vem, muito mais do que vai de mim mesma. Ainda imatura, sem conhecimento e prática suficientes com relação a essa capacidade maravilhosa de convivência ou comunicação entre semelhantes, faço meu trabalho. Na infância não tive cachorrinhos, gatinhos, passarinhos, nem nada. Nem de pelúcia. Lá na puberdade ganhei um canário do reino do avô paterno, tradicional e hábil fazedor de gaiolas da cidade. Um gato horroroso acabou com ele e comigo: ainda lembro da minha impotência dentro de casa ouvindo o canarinho piar e do meu pavor em sair e brigar com o bicho, que mais me parecia uma fera a julgar pelos sons que emitia. Durou pouco e eu já antecipava o final - cedo soube que ao fraco cabia a derrota. Obediente à ordem dos pais ausentes, não abrir a porta em hipótese alguma, esperei que chegassem e sumissem com os vestígios da chacina. Claro, chorando de ódio, principalmente da minha covardia. Nunca mais, disse, pela primeira vez. Depois um gatinho de rua, um daqueles gatos vadios e livres que, de repente, escolhem e adotam alguém. Ainda traumatizada e dolorida pela experiência anterior, ouvi-o chorando na porta da cozinha. Dei-lhe um pires de leite. Uma vez, duas ... virou freguês. Era me ver, se enrolava todo, miava, me olhava suplicante. Numa madrugada, ouvi-o chorar. Chamei meu pai, que prestou atenção e comentou meio dormindo: o gato não queira leite, não. Ele estava ‘namorando’. ‘Namorou ‘ a noite toda, até silenciar. Pela manhã, estava sob uma cama-de-vento (lembra?) no quartinho do fundo, mortinho. Nunca mais, disse pela segunda vez. Meu caçula ganhou um cachorro. Dei-lhe nome de cientista, era meio maluquinho. Nem sob tortura confessava, mas - à minha maneira frágil, inexperiente em gostar de bicho, medrosa, traumatizada, apaixonei-me por ele. Foi um companheirão nas madrugadas insones... até que morreu jovem, envenenado, talvez. Nunca mais, disse, pela terceira vez. Totó está morando em casa. Cachorrinho de madame, daqueles que precisam de tosa especial, parece um floquinho. É da Clara, minha neta, cuja irmãzinha não pode (ainda) ter contato com animais. Não o deixo entrar; fica só lá fora. É dar chance, ele lambe meus pés - o que eu odeio; faz xixi nos meus tapetes - fico tiririca; chegou a deixar uma ‘lembrança’ nos pés da minha cama - quase tive um enfarte. Mas quando ela chega, fico emocionada, testemunhando o encontro. Os dois - cachorro e menina rolam na grama, ela ‘conversa’ com ele, como se ele fosse um bebê. Tudo que lhe ofereço - do chocolate ao sorvete passando pela pipoca, compartilha com ele. Fico só olhando: percebi que meu ‘nunca mais’ é de araque... Estou começando a entender quando alguém se apega amorosamente a um animalzinho. Estou por um triz para admitir que eles - os bichinhos - se não preenchem, fazem diminuir um ou outro buraquinho emocional. Já me mostro receptiva à possibilidade de afagá-los com mais carinho que indiferença. Mas ainda não consigo atribuir-lhes sentimentos humanos, nem achar que substituem ou recheiam vazio da alma. Muito menos que amam, ou compreendem suas responsabilidades: ‘Entre, sem medo, ele não morde...’. Vejo por mim. Sim, tenho sangue italiano, mas sou racional, razoavelmente culta e em terapia há longo tempo. Dependendo da provocação, avançaria no pescoço alheio. E o cachorro?... <b>MITOLOGIA</b> Pandora é invenção devastadora de Zeus: a ‘primeira mulher’, versão grega da Eva cristã. Prometeu (‘ o que prevê’) rouba o segredo do fogo e o dá aos humanos que, achando-se poderosos, enfrentam Zeus. Como castigo, encomenda Pandora, artefato com qualidades presenteadas pelos deuses: beleza, encanto, capacidade de persuasão... e várias artimanhas: imprudência, ardis, mentira e astúcia. Pandora (‘dona de todos os dons’) é enviada como presente a Epitemeu (‘o que pensa tardiamente’), irmão de Prometeu. Embora avisado para refugar presentes, encanta-se com a esposa e com o presente que ela traz. Abre a caixa, vê escaparem todos os tormentos da humanidade: inveja, tristeza, ignorância, saudade, ganância, ira, etc. Ao tentar fechar, viu que sobrou apenas a Esperança que, usada pelo humano, torna-se sua única possibilidade de não sucumbir às dores e sofrimentos da vida. <b>ASPAS</b> ‘Aquele que ao longo de todo o dia é ativo como uma abelha; forte como um touro, trabalha que nem um cavalo e que ao fim da tarde se sente cansado como um cão... deveria consultar um veterinário. É bem provável que seja um grande burro’ (Anônimo). <b>FILMES E LIVROS</b> Fim de caso, de Graham Greene, um dos maiores casos literários do século passado, traz a história de seu romance extra-conjugal com a norte-americana Catherine Waltson. O filme - homônimo - é com Ralph Fiennes e Julianne Moore. O véu pintado, romance de Somerset Maugham, virou produção cinematográfica de fotografia estonteante. Em sua terceira versão para o cinema, traz Edward Norton e Naomi Watts nos papéis principais. No original o filme mantém o título do livro. Traduzido, virou O despertar de uma paixão. <b>PONTO FINAL </b> Feriado prolongado, cidade vazia. Haja alarme, guardas, vigias eletrônicos, sistemas de proteção ligados e a postos para dar segurança a quem decidiu viajar. Quem vai, tem medo de voltar. Quem fica, tem medo de sair. Tristes tempos. <b>Lúcia Helena Maniglia Brigagão</b> <i>Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras</i> luciahelena@comerciodafranca.com.br

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