Quase tudo o que o morador de Delfinópolis consome chega a ele pelas balsas que fazem a travessia sobre o Rio Grande. Quem tem que entrar ou sair da cidade também precisa contar com o sistema. Não há como fugir. Ou entra na fila para garantir um lugar na embarcação ou se aventura por uma estrada de terra sinuosa que leva a São João Batista do Glória (MG) ou ao Triângulo Mineiro, aumentando em mais de 60 quilômetros a distância com localidades do lado paulista.
As balsas de Delfinópolis há muito tempo não vêm conseguindo atender a demanda de transporte de quase 600 veículos diários. Há 21 anos, quando foram colocadas em operação, a média mensal não chegava a esse número.
Para o contra-mestre Ivamar Rodrigues Oliveira, chefe dos marinheiros que trabalham no local, talvez seja mais fácil mudar Delfinópolis de lugar que construir uma ponte ali. Oliveira justifica sua expressão. Mesmo antes de chegar à sua metade, o lago já tem mais de 40 metros de profundidade, o que, em sua opinião, dificultaria a realização de uma obra deste porte.
O trabalho que comanda não sofre interrupção. Mesmo reparos costumeiros - ou até a parada de um dos motores - são feitos com os barcos trabalhando. As travessias de margem a margem duram entre 12 e 15 minutos. Curiosamente, os 21 empregados são servidores da prefeitura, mas são supervisionados pela capitania dos portos, órgão ligado à Marinha.
Com 30 anos de serviço, o contra-mestre Ivamar já viu de tudo. Nas filas para embarcar, que em dias de feriado, mas principalmente no Carnaval, podem chegar a quatro ou cinco quilômetros de comprimento, paciência é mais que uma virtude.
“São cinco, seis horas de espera para poder atravessar”, disse ele. “Nesse tempo, é gente armada querendo cortar fila, pessoas bêbadas, cansaço de quem aguarda, discussões de todo tipo”.
Para complicar ainda mais a vida de quem simplesmente não tem alternativa segura para sair da cidade, o motorista tem que torcer para não ficar atrás de um caminhão de gás, combustível ou carro-forte. Uma norma recente da Marinha obriga essas e algumas outras modalidades de carga a transpor o rio isoladamente. “Se você der o azar de pegar um desses na sua frente serão pelo menos 45 minutos ou mais para poder cruzar a represa”, disse Gustavo Ferreira, presidente da associação comercial local.
No dia em que a reportagem esteve na cidade, o tempo instável já dava uma pequena ideia do que como podem ser nada agradáveis as viagens sobre balsas abarrotadas de veículos, passageiros e cargas. Com o limite para 139 toneladas, as embarcações afundam no leito do rio. Na viagem de volta para Franca, com chuva forte e vento, já por volta das 17h30, a balsa foi sendo levada pelo vento, tendo dificuldade para atracar. Se a chuva apertasse, ficaríamos no meio do rio como medida de segurança. Também cruzamos com a embarcação menor transportando um caminhão carregado com botijões de gás e com o convés praticamente na linha da água.
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“A vida de todos os moradores está fracionada aqui. Para tudo o que fazemos temos que nos planejar com, no mínimo, uma hora de antecedência. Já o turista, aquele que é consciente jamais ficará numa fila de cinco, seis, sete horas, sendo que ele não leva isso para vir de São Paulo até aqui. Furnas fez com que Delfinópolis chegasse ao fundo do poço”, disse
Gustavo Ferreira.
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