Chegou o mês de outubro que tem como assunto importante a Vida Missionária da Igreja e dos cristãos. Neste 27º Domingo do tempo comum a liturgia propõe o tema do matrimônio conforme Deus pensou. As leituras são colhidas do livro do Gênesis 2; Carta aos Hebreus 2; Evangelho escrito por Marcos 10.
O livro do Gênesis reflete sobre a condição humana à luz daquilo que caracteriza Israel como povo de Deus. O autor relata a criação da mulher e mostra o que significa ser humano na perspectiva do projeto de Deus. A criação da mulher aconteceu enquanto o homem dormia. A mulher se torna "auxiliar" do homem. Ser auxílio significa dar apoio ou força, possibilitar que os outros realizem seu destino. Na relação homem-mulher, a mulher é destinada a ser alguém em quem o homem encontra força. A mulher é dom gratuito de Deus. Homem e mulher, seres humanos, em pé de igualdade; um é parte do outro; qualquer um deles sem o outro é incompleto.
Eis a primeira lição da nossa história: no mundo existem homens e mulheres para que possam ajudar-se a sair da solidão. Seu destino é encontrar-se, dialogarem, completar-se reciprocamente. Se um casal não realiza este objetivo não conquista a verdadeira felicidade embora tenha casa, bens e filhos, porque a finalidade primária do casamento é o amor recíproco entre o homem e mulher.
Quando é que continua havendo solidão também na vida do casal? Quando na família reina o espírito de domínio, quando se considera os outros inferiores; quando marido e mulher conduzem a vida por conta própria; quando as decisões não são tomadas em comum; quando o marido gasta o que ganha sem consultar a mulher; quando ele tem os seus amigos (ou amigas?) e quando ela tem as suas amigas (ou amigos?); quando os bens não são administrados em comum; quando o marido só pensa na sua satisfação sexual sem se preocupar com o prazer da sua mulher e esta, insatisfeita, se apega aos filhos e esquece o marido.
O segundo ensinamento da história é a paridade da dignidade entre o homem e a mulher. Logo que a mulher lhe é apresentada o homem entende que ela é completamente diferente de todas as outras criaturas, que não é um objeto ou um animal; é carne da sua carne e osso dos seus ossos (expressão hebraica que significa: da mesma natureza).
Se está dotada da mesma dignidade, a mulher não pode ser dominada, escravizada e usada como instrumento de prazer. No projeto de Deus o homem e a mulher unidos pelo amor conjugal, já não são dois indivíduos separados, mas uma só pessoa. Desta consideração surge o terceiro ensinamento importante de leitura: duas pessoas se casam para realizar em conjunto um projeto comum.
O tema da indissolubilidade do casamento é introduzido por Marcos na parte central do seu Evangelho. Ao responder a pergunta que lhe foi dirigida Jesus esclarece antes de tudo que Moisés não deu qualquer permissão para divorciar. O divórcio existia antes dele. Somente estabeleceu regras e limites para uma situação problemática. Não exigiu dos israelitas (ainda muito "duros de coração") um comportamento moralmente superior ao dos outros povos.
"No princípio" os homens foram criados homem e mulher, não para que se entregarem a orgias, aventuras, sensações, mas para que formarem casais estáveis, unidos numa única pessoa pelo amor e pela bênção do Senhor. O divórcio, como a poligamia, não faz parte do projeto de Deus e foi introduzido pelos homens e tolerado por algum tempo, por causa da dureza do coração deles.
Com Jesus começa no mundo o Reino de Deus, cumprem-se as profecias. Aos homens são dados "um coração novo e um novo espírito".
Somente o matrimônio monogâmico e indissolúvel respeita o projeto de Deus e alcança o objetivo pelo qual os homens foram criados "homem e mulher".
Na última parte do evangelho Jesus convida os discípulos a acolherem o Reino de Deus. Os que já se julgam adultos, os que confiam na própria sabedoria, os que já se empederniram em suas próprias convicções e não aceitam que sejam questionadas pela palavra de Cristo não entrarão no reino dos céus. Para compreender a indissolubilidade do matrimônio é preciso voltar a ser criança e deixar-se penetrar por uma sabedoria completamente nova, a de Deus.
A Carta aos Hebreus lembra: Jesus é grande, mas é um de nós, não é homem somente na aparência. Viveu os nossos mesmos sentimentos, passou pelas nossas mesmas experiências, inclusive o sofrimento e a morte. Um guia para se depositar toda a confiança.
José Geraldo Segantin
Pároco da Catedral de Franca - segantin@comerciodafranca.com.br
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