Apaixonada pela educação


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EMOÇÃO - Maria Conceição Mazzola, professora de educação especial na Apae há nove anos, em entrevista em sua casa: ela começou a dar aulas aos 19 anos e relembra emocionada de episódios de sua
EMOÇÃO - Maria Conceição Mazzola, professora de educação especial na Apae há nove anos, em entrevista em sua casa: ela começou a dar aulas aos 19 anos e relembra emocionada de episódios de sua
<p>Aos 57 anos, a professora Maria Conceição Mazzola relembra emocionada a primeira vez que pisou numa sala de aula. Era jovem. Estava com apenas 19 anos quando assumiu a primeira turma, uma classe de alunos deficientes, numa escola em Santos (SP). Esse foi apenas um dos desafios que enfrentou. Foi nestes anos iniciais de sua carreira que precisou aprender, sem qualquer treinamento prévio, a socorrer, sozinha, os alunos durante as crises convulsivas. </p> <p>Ela afastava as carteiras e colocava um lenço na boca deles para evitar que mordessem a língua. No dia que tiveram a primeira convulsão, Conceição chorou muito e teve vontade de desistir por se achar muito nova para enfrentar situações tão adversas. Mas, como sempre em sua vida, enfrentou os desafios e prosseguiu na carreira. Não se arrepende. Hoje, as lágrimas que derramava de desespero e medo no início da carreira ainda caem, mas como choro de emoção ao ver o progresso de seus alunos, como um jovem deficiente, aluno da Apae (Associação de Pais e Amigos do Excepcional), que deu os primeiros passos, aos 16 anos, com sua ajuda.</p> <p><br />Conceição já lecionou em várias escolas. É professora da Apae de Franca há nove anos. Sempre fica com os olhos marejados ao falar das histórias que vivencia com os alunos da instituição. Os vínculos que cria com eles é grande. Ela dá aulas para Cristiane de Souza, uma das jovens envolvidas no acidente na curva da morte em março de 2008, quando cinco pessoas morreram. Elas ocupavam a kombi que as trazia de Rifaina para a Apae de Franca quando o veículo se chocou com um caminhão. A menina sobreviveu. Ficou internada vários dias na Santa Casa. Como alguém da família, Conceição a visitou diariamente. </p> <p>Hoje, as duas sempre de despendem com um abraço forte antes de Cristiane tomar a estrada novamente. Na vida de Conceição, paciência e força de vontade são marcas fortes. E não poderia ser diferente. Ela diz que, quando se lida com deficientes, é preciso estar preparado para desempenhos surpreendentes dos alunos e frustrações. Mas ela é uma apaixonada pelo seu trabalho e sempre arregaça as mangas para fazer a diferença na vida das crianças. “Entro na Apae todos os dias e é como se fosse o primeiro dia. Estou sempre inventando. É uma paixão que tenho. O amor pela educação especial corre no sangue, de verdade”.<br />Em entrevista concedida em sua casa, a professora de educação especial opinou a respeito da lei que determina a transferência de alunos deficientes para as escolas de ensino regular e se emocionou ao relembrar fatos de sua carreira. </p> <p><strong>Comércio da Franca - Por que seguir a carreira de professora?<br />Maria Conceição Mazzola -</strong> Minha mãe foi professora. Minhas tias, irmãs do meu pai, também.Todo mundo levou essa vida dentro da educação. De primeiro, era muito comum ser professora. Se tornou uma paixão para mim.</p> <p><br /><strong>Comércio - O que marcou o ensino no Colégio de Lourdes?<br />Conceição -</strong> O respeito daquela época ainda é algo muito marcante para mim. É difícil entender como pode ter acabado o respeito. Não era castigo, mas respeito. Quando estávamos no pátio do colégio, a madre superiora passava e ficávamos de pé. Se ela passasse no corredor, ficávamos em silêncio. Às vezes, ouço que as pessoas dos anos 60 não tiveram liberdade. Eu não vejo assim. Eu tive respeito mesmo.</p> <p><br /><strong>Comércio - Considerando sua formação, pautada nesse respeito, como a senhora vê agressões em sala de aula hoje?<br />Conceição -</strong> Assusto muito com tudo isso. Acho que o que levou a tudo isso é a questão das drogas. Acabou com o respeito, com a hierarquia. Se não existe respeito dentro de casa, com os pais, eles terão lá fora? Não. O comportamento grupal, fora de casa, por mais presente que a família seja, é mais forte na vida do jovem. Por mais que a família tente cercear, a influência dos amigos é muito grande. Não dá para colocar o filho dentro de uma redoma e achar que não irá acontecer nada.</p> <p><br /><strong>Comércio - Então qual seria a solução?<br />Conceição -</strong> Acho que ainda não foi encontrada. Eu não conheço a solução. Conheço tentativas. Já participei de vários movimentos e estudos que podem ajudar a melhorar o comportamento desses jovens, como o Grupo Amor Exigente, que auxilia os pais. Os jovens sofrem muito também e isso dói muito em mim como professora, como mãe, como cidadã. Os jovens de hoje não vibram como nós vibrávamos com o primeiro beijo, primeiro copo de cuba libre.</p> <p><br /><strong>Comércio - A senhora já foi agredida em sala de aula?<br />Conceição -</strong> Já. Infelizmente não passei isenta. A maioria de nós já foi agredida. Como lidamos com pessoas que tomam medicação e nem sempre em casa a medicação é certa, existe toda uma problemática que interfere na mudança de comportamento dos alunos. Então também já fui agredida, mais de uma vez. Não perdoamos quando acontece. Os pais são chamados e a criança é repreendida dentro daquilo que é capaz de entender. Fui agredida por um menino com síndrome de Down, que tinha comportamento calmo, mas tive de trabalhar com ele um hábito que tinha dentro da sala de aula (se masturbava) e, ao repreendê-lo, ele me agrediu. Ele arrancou cabelos meus. Ele tinha muita força. Fiquei no chão e ele foi arrancando os cabelos até os funcionários aparecerem para me ajudar.</p> <p><br /><strong>Comércio - Como foi o primeiro contato com alunos deficientes?<br />Conceição -</strong> Na escola da minha tia, em Santos. Era uma sala de alunos especiais que nunca tinha professor. Tinha alunos com síndrome de Down e com outros comprometimentos. Então me interessei muito por aquilo. Achei que eram diferentes e eu poderia fazer algo para ajudá-los. Acho que é dom porque na educação especial, além do conhecimento e da vontade, se não tiver amor e muita disposição mesmo, não dá certo. Quando você ensina uma criança com mais facilidade, num instante você está vendo o retorno daquilo que você fez. Às vezes passamos um ano com uma criança e o progresso é tão pouco e nem sempre continuamos com ela no ano seguinte. Então temos de estar muito desprendidas e muito certas de que estamos fazendo o melhor.</p> <p><br /><strong>Comércio - Como saber quando já atingiram o limite de desenvolvimento?<br />Conceição -</strong> Tenho um lema comigo que nós nunca sabemos o limite de ninguém. Sempre acho que vou descobrir algo. Sempre falo para os pais que a alfabetização não é pegar um livro e ler, mas é a alfabetização da vida. Encaro assim a educação especial. Educo os meus meninos -meus, porque são meus - pensando que alguma coisa ainda tenho para ensinar. Não saberia lhe responder como avaliar porque até as avaliações documentadas erram. Às vezes temos uma classificação padrão e você vai trabalhando com a criança e ela surpreende, como pode também nos decepcionar. Por isso acho que é preciso estar muito preparado para a educação especial.</p> <p><br /><strong>Comércio - E de onde vem esse preparo?<br />Conceição -</strong> O acadêmico é necessário, mas a vida ensina muito e a vontade também. Não existe faculdade que ensine como fazer com uma criança com necessidades especiais aprenda. Você sabe os nomes das síndromes e suas características, mas é o dia-a-dia, é a vontade de vencer mesmo, enfrentar os desafios que te ajudam a encontrar um caminho.</p> <p><br /><strong>Comércio - Como é o primeiro dia de aula na Apae, quando o professor não sabe como são os alunos, se falam, se andam?<br />Conceição -</strong> Posso falar do meu primeiro dia de aula na Apae. Comecei com uma sala de maternal. As crianças eram pequenas e com idade aquém da idade cronológica que tinham. Aos 47 anos, tive de sentar no chão, arrumar tapete. Me emocionei muito. Estou falando agora e volto a reviver tudo aquilo. Eles são muito espontâneos. Eles beijam, abraçam. A descoberta das necessidades de cada um é feita só no dia-a-dia mesmo. Na Apae já cheguei com certa maturidade, mas minha primeira experiência, na Móoca, em São Paulo, posso lhe dizer que eu chorei por mais de uma semana. </p> <p><br /><strong>Comércio - Como foi essa experiência?<br />Conceição -</strong> Fui para uma classe especial numa escola estadual, era 1971, eu tinha 19 anos. Os alunos tinham deficiências múltiplas, havia casos que ninguém sabia explicar. Eu nunca tinha lecionado em outro lugar. Foi tudo muito novo, de susto. Eu tinha muita vontade caso contrário teria largado. O aspecto físico impressionava, era muito nova, sem maturidade, sem vivência, sem ter filhos porque tudo isso ajuda muito. Outro caso que também me impressionou muito nessa sala foram três irmãos deficientes e eu ficava com muito dó da mãe. Aquilo mexia muito comigo. E eles tinham convulsão. E a mãe me explicava como eu tinha de fazer com eles se tivessem crises (começa a chorar) e era muito difícil para lidar com tudo aquilo. Eu era muito, muito nova. Quando tinham convulsão, a gente afastava as carteiras, eu deitava eles no chão e tinha de colocar um lenço para eles não morderem a língua. Além do medo de estar lidando com uma situação muito nova, me impressionava muito. Isso me marcou muito. </p> <p><br /><strong>Comércio - A senhora pensou em desistir?<br />Conceição -</strong> Depois da primeira crise, fui embora muito preocupada. Posso dizer que quase desisti da classe porque achei que era muito pesado para eu resolver tudo aquilo sozinha. Na Apae temos todo um aparato para resolver esses casos, com profissionais preparados. Lá era eu e eu. Era uma escola normal, pública, e eles pensavam que eu era a única preparada para lidar com aquela situação porque eu vinha formada na área. Passei a procurar de tudo para saber o que fazer com aquela sala. Por isso eu falo que não é um banco de escola que deixa alguém apto totalmente. É um estudo na vida inteira porque cada dia é uma novidade.</p> <p><br /><strong>Comércio - Por que a senhora não desistiu?<br />Conceição -</strong> Porque não desisto fácil não. </p> <p><br /><strong>Comércio - Como foi ver um aluno da Apae andar com sua ajuda?<br />Conceição -</strong> Na Apae, como em qualquer escola de educação especial e qualquer escola comum, é sempre um desafio. Tinha estado com outras salas onde vi o desenvolvimento na parte de alfabetização. Neste ano fui para uma sala que trabalhava muito pouco a alfabetização. Era mais a socialização e os hábitos de higiene. Esse aluno estava na minha turma e percebi que tinha certa coordenação. Tentava os movimentos com ele e achava que conseguiria andar. Era uma intuição porque não sou fisioterapeuta, não sou médica ortopedista, mas achei que pudesse ser feita alguma coisa para ele andar. Dentro da sala mesmo, tirei o tampo da mesa que estava solto e coloquei ele no cercado da mesa como se fosse um andador e comecei a incentivá-lo a dar passos. Aquela mesa rodava a sala inteira e fazia barulho, ele caía, levantava, rodava novamente. Depois com ajuda da fisioterapeuta, começamos a investir nessa criança e para nossa surpresa ela andou. Não é uma criança que tem a marcha normal, mas ela anda. Quando chega de perua na Apae fica brava e não vai mais de cadeira para a sala de aula. Ele não é autônomo porque ele não tem senso de direção porque tem outro comprometimento, mas caminha. Ele tem uns 16 anos hoje. Isso aconteceu há dois anos. </p> <p><br /><strong>Comércio - Vocês criam um vínculo com as crianças. Como lidar com a separação?<br />Conceição -</strong> Não sei se tem que tratar as crianças ou os professores (risos). Fico mal. É um trabalho de terapia minha que preciso fazer porque sinto eles meus e sempre acho que têm mais coisas a serem feitas. Nem sempre os alunos que estão na sua turma neste ano continuarão sendo seus novamente. Estou na Apae desde 2000 e acho que não vou me acostumar com a separação nunca. </p> <p><br /><strong>Comércio - A senhora é professora da Cristiane Santos, aluna de Rifaina, que estava na kombi da Apae que se envolveu no acidente em março de 2008, e deixou um saldo de cinco mortos. Como foi a tragédia para a senhora?<br />Conceição -</strong> Foi um susto. Ela sempre me emociona muito antes de ir embora. Ela me abraça. Eu a visitei durante todo período que ficou afastada da Apae em recuperação e isso criou um vínculo maior comigo. Visitei a Cristiane todos os dias na Santa Casa. Era sagrado (começa a chorar). Todos os dias na hora de ir embora ela tem essa dor da separação. Acho que ela fica com medo de voltar para casa e fazer o mesmo caminho. Ela me abraça muito forte, me beija e quase todos os dias ela chora. Sinto as lágrimas dela em mim. Acho que ela quer que eu deseje que ela vai chegar bem em casa. Fico também apreensiva. Não vejo a hora de ter notícias que chegou bem lá. </p> <p><br /><strong>Comércio - A Apae de Franca está cumprindo a lei federal que determina a inclusão de deficientes na rede regular até 2010. O que a senhora acredita que vai funcionar?<br />Conceição -</strong> A lei diz que as crianças que tiverem condições de acompanhar, o pai tem a liberdade de fazer a matrícula na escola regular. Com minha experiência de direção, de professora na rede comum, acredito muito no ensino da Apae para a maioria dessas crianças. O professor pode não estar preparado, mas para isso, poderá fazer cursos. Mas trabalhar numa sala com 35 alunos e com dois especiais dentro da sala é pedir muito para o professor da sala comum dar conta. Essa inclusão do jeito que está acontecendo não sou favorável. Ela pode até existir, mas o benefício que ela vai trazer, para mim, é uma incógnita. <br /></p> <p><strong>Comércio - A senhora acredita que as escolas estão preparadas?<br />Conceição -</strong> Não. A educação ainda tem muito a fazer para estar preparada. A parte física, a emocional, psicológica, o grupo de apoio, a equipe multidisciplinar. Falta muita coisa para essa lei estar efetivamente ser aplicada. Para essa inclusão ainda cabe muita discussão. Defendo a inclusão desde que a criança esteja naquele lugar bem. E para estar bem, há necessidade de ter todo atendimento que ela tem dentro da Apae, onde temos menos alunos, equipe multidisciplinar completa. Temos fisio, fono, psicóloga, monitor. Quem vai atender essas crianças na escola regular? Estou querendo viver para ver. </p>

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