Poucos podem se valer da sensação de cruzar um Estado ou um País a pé. Adepto das grandes caminhadas, o médico Marco Aurélio Piacesi já tem muita história para contar. Caminho da Fé - que corta o interior de São Paulo e Minas Gerais - e de Santiago de Compostela - entre Espanha e França - já se acumulam no rol de viagens do carioca de 59 anos.
Não satisfeito com todas essas andanças, sempre solitárias por escolha própria, Piacesi resolveu aprontar mais uma. Ficou mais de 20 dias andando por um trecho da Estrada Real, famosa rota de mais de 1,4 mil quilômetros entre Diamantina (MG) e Paraty/Rio de Janeiro (RJ) criada em tempos coloniais, no ciclo do ouro, para o transporte oficial de mercadorias e pessoas entre Minas Gerais e a costa brasileira.
Nosso aventureiro saiu no dia 30 de agosto de Ouro Preto - antiga Villa Rica e ponto de confluência dos dois trajetos principais da Estrada Real - e seguiu até Diamantina, respirando o ar puro e admirando a beleza das montanhas que outrora viram muares e bois levando ouro e diamantes para o litoral. A peregrinação de Piacesi, que perfaz o chamado “Caminho dos Diamantes”, supera o contato com esse importante recorte da história brasileira. Ele desvendou o patrimônio cultural forjado em cada cercania, das antigas construções de igrejas e bucólicas praças ao modo simples de encarar a vida dos habitantes.
Entre cidades e distritos, somam-se cerca de 20 lugares diferentes de parada. O médico andava em média dez horas por dia, incluindo as pausas de três horas para comer e descansar. Saía cedo, às seis da manhã, e chegava no fim da tarde em cada povoado. Superando cãibras, dores musculares, picadas de carrapatos, bolhas nos pés e sol a pino, conheceu Mariana, Bento Rodrigues, Santa Rita do Durão, Catas Altas, Barão de Cocais, Ipoema, entre outras cidades. Perdeu oito quilos.
No meio do percurso fez uma “escala”, de carona, até Itabira, cidade-natal do escritor Carlos Drummond de Andrade, com estátuas e monumentos em homenagem ao autor. “A cidade respira poesia, valeu a pena”, lembra. Após passar por Nossa Senhora do Carmo, Córregos, Itambé do Mato Dentro e completar o árduo percurso até Morro do Pilar - com 38 quilômetros em um único dia -, foi presenteado com a Cachoeira do Tabuleiro, queda d’água de 273 metros de altura em Conceição do Mato Dentro, a mais alta de Minas e a terceira maior do Brasil.
Chegando em Serro, conferiu a patente do legítimo queijo mineiro e os encantos da localidade. “Milho Verde, distrito de Serro, é um povoado de beleza, paz, harmonia e paisagens deslumbrantes”, comenta.
<B>VEJA O MAPA</B>
<p style="text-align: center;"><a target="_blank" href="http://gcnturismo.wordpress.com/files/2009/10/mapa-estrada-real.jpg"><img class="size-full wp-image-427 aligncenter" title="Mapa Estrada Real" src="http://gcnturismo.wordpress.com/files/2009/10/mapa-estrada-real.jpg" alt="Mapa Estrada Real" width="300" height="692" /></a></p>
<b>FICOU NA LEMBRANÇA</b>
Da experiência vivida pelo médico Marco Aurélio Piacesi resultam muitas recordações. Lembra de ter sido encarado por alguns búfalos em uma das fazendas por que passou, do jeito arredio dos moradores de Cabeça de Boi, povoado de Itambé, e da forte presença das mineradoras na região.
Uma das coisas mais marcantes foi vista perto de Morro do Pilar. “Lá existe um trecho de formações rochosas com muitas cavernas. Numa delas mora há 20 anos um homem que, ao ser traído pela amada, nunca mais foi até a cidade”, conta.
Em Diamantina, se encantou com a casa onde morou Juscelino Kubitschek e com as vesperatas, em que vários músicos distribuídos nas varandas dos antigos casarões são regidos por um maestro no centro histórico. O encontro acontece uma vez por mês, sempre aos sábados. “É preciso assistir antes de morrer”.
O médico também se lembra da diversificada gastronomia. Provou do típico feijão tropeiro, pastel de angu, geleia de pimenta, couve desfiada na manteiga e, claro, pinga artesanal. Em Conceição do Mato Dentro, comeu peixe assado com batata e bebeu vinho na Cantina do Bem Servir, um restaurante pertencente a um português que vive na região.
Após a aventura, o carioca retornou sossegado. Pegou um ônibus de Diamantina até Belo Horizonte e outro até Franca. Cansado? Não. Piacesi já tem mais um destino na cabeça: Caminho das Treze Missões, Rio Grande do Sul, no ano que vem. Mas essa já é outra história.
<B>VEJAS AS IMAGENS DO ESPECIAL:</B>
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