Tudo o que Fernando Carrijo Silva tinha em mente quando estava prestes a se alistar era que os dias de dormir até mais tarde estariam riscados da sua vida por, provavelmente, um ano inteiro. Fora isso não tinha mais nenhuma informação. Pensava que durante o serviço militar obrigatório viveria enclausurado em um quartel e que a rotina reconhecidamente dura do Exército acabaria com ele. Nove meses depois de ser admitido, e a dois de pegar sua carteira de reservista, o atirador Carrijo já pensa em seguir carreira e diz, com certa convicção, que acordar todos os dias antes das 5 horas não é de todo ruim.
A reportagem acompanhou um dia de instrução no TG 02-013 de Franca e parte da rotina dos seus 60 atiradores e dois sargentos-instrutores na tentativa de entender sua importância. Antes, no entanto, de qualquer consideração, é preciso dizer que, até que o governo federal decida pela sua extinção, o SMO (Serviço Militar Obrigatório) é e continuará sendo a sombra que acompanha meninos até que completem 18 anos. Em alguns casos atrapalha, em outros desenvolve e desperta. Mas no fim, quase todos vão se lembrar especialmente do ano que passaram juntos no TG.
Tão antigo quando o próprio povoamento do Brasil, o SMO surgiu ainda no tempo das capitanias hereditárias, tendo como finalidade defender o território da colônia contra invasores e índios.
Oficialmente, foi criado em 1542, com a efetivação de uma milícia de colonos. Em 1574, já regulamentado, previa que todo cidadão com idades entre 14 e 60 anos seria obrigado a servir nas companhias de ordenanças. Na primeira Constituição republicana, em 1824, foi novamente ratificado, assim como na última, em 1988.
Apenas em Franca, em média, três mil garotos comparecem à Junta Militar todos os anos para cumprir com o dever constitucional de se alistar. Uma peneira levará 400 deles para uma segunda avaliação, em que sobrará pouco mais de um quarto desse número. A economia e a ausência de ameaças externas à pátria fizeram com que os contingentes nos tiros de guerra fossem caindo gradualmente nos últimos anos. Na unidade local, dos 240 atiradores que serviam há 10 anos, apenas 60 manejam os antigos fuzis Mosquefal, pré-segunda guerra, armamento que é a base da instrução militar.
Em um dia normal, que começa impreterivelmente às 5h50, os atiradores manuseiam o armamento, treinam ordem unida, realizam exercícios e pequenas missões e são orientados e conscientizados sobre sua importância.
No ano em que Franca ficou sem o desfile de Sete de Setembro, o sargento Roberth Cesar Gonçalves dos Santos, 39, instrutor-chefe, lembra que o papel dos atiradores é, a princípio, defender a localidade em que estão inseridos. Mas o que reza a cartilha dos sargentos dos tiros de guerra espalhados pelo Brasil, são noções arraigadas de civismo, travestidas em ações de cidadania que os atiradores realizam durante todo o ano.
Como seu auxiliar, sargento Vasconcelos, Roberth dirige-se aos atiradores com firmeza incontestável. Nas figuras dos dois militares, que vieram, respectivamente, do Rio de Janeiro e Piauí, os jovens enxergam muito menos a doutrina militar reinante nos quartéis após o golpe de 64 e mais posturas de confiança, ordenamentos e segurança. “Esses rapazes encaram, abraçam e sentem orgulho de poder servir ao País deles. Os valores que cada um desses atiradores adquire ou aperfeiçoa aqui serão levados para a sociedade, para suas famílias, para a vida toda”, disse o sargento Roberth.
Como o atirador Carrijo, seus amigos Breno de Almeida Correia e Mike Albert Moreira Oliveira, tinham visões sobre o SMO que não se confirmaram depois de passar do portão para dentro. “No começo ainda tinha dúvida se deveria ou não fazer. Muitos disseram que era ruim. Hoje vejo que cresci muito como pessoa”, disse Moreira, que quer prestar concurso público para sargento do Exército. “Eu ficava pensando muito na instrução militar, mas acabei aprendendo muito mais. Como pessoa, são valores que normalmente os outros acham bobagem. Você acaba mudando e vendo as coisas de maneira diferente”, disse Correia.
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