Basta estar viva...


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Das lembranças deixadas por minha mãe, a mais preciosa é a da sua figura sentada numa poltrona na sala, recém saída do banho: perfumada; vestido de malha (que não amassava); colar e brincos de pérolas; relógio; cabelo no lugar e fixado com laquê, aquela onda sobre a testa. A bolsa (pesadíssima), prontinha sobre a poltrona e o xale cuidadosamente jogado sobre ela parecendo uma composição para um quadro; o perfume francês dando o toque final pairando feito uma nuvem no teto e invadindo o nariz da gente feito uma geléia. Insisto em me lembrar dela assim, porque aquela figura sobre uma cama na sala de terapia intensiva, cheia de tubos entrando pelo nariz e pela boca; vestida com uma camisola branca sem amarrar despencando pelos ombros; pernas, braços e esfíncteres sem controle; cabelos com raízes crescidas depois de um mês sem tintura ou qualquer condicionador além do barulho do respirador artificial fazendo as vezes de uma trilha sonora macabra... definitivamente não é recordação: é um pesadelo. Muitas vezes conversamos com ela sobre morrer. Tinha medo de defuntos porque na infância haviam forçado sua presença no velório da avó e obrigaram-na a dar um beijo na falecida. Pouquíssima idade, carregou o pavor daquele instante pela vida afora. Nós, filhos, falávamos e víamos com naturalidade - vai ver até pelo cuidado que teve de nos informar - esse episódio. Ela brincava com o assunto mas não queria morrer, de jeito nenhum, e tinha medo, confessava. Argumentávamos que era incoerência: sua religião prometia reencontro com os pais, com meu pai, parentes que ela amava e até com outras pessoas com as quais ela nunca escondeu algumas pinimbas... `Morrendo você vai se reencontrar com....` e a gente completava com o nome de algum desafeto. `Por isso mesmo, não quero morrer!` E ela ria gostosamente. (Esse som eu ainda escuto quando bate a saudade.) Ficou doente. Levou um tombo, foi hospitalizada, seu organismo rapidamente se deteriorou, coisa de um mês faleceu. Foi atordoante. Do quarto foi levada para a terapia intensiva. Lá ficou inconsciente, traspassada por tubos, num sono profundo, alheia e completamente distante de qualquer carinho que pudéssemos lhe fazer ou demonstrar. Durante uma visita, visivelmente angustiados, perguntamos ao plantonista sobre a possibilidade de mudança do quadro. Ele respondeu que ela sofrera uma parada cardíaca durante a noite, revertida por outro médico. Mas que se ele estivesse presente não teria feito esforço para prolongar o sofrimento dela. Entendemos o recado. Sobre morrer, inútil questionar: mais dia, menos dia até Gisele Bündchen vai embora. Sobre quando morrer, ninguém - mentalmente são - pode deliberar. A causa do morrer constitui outro mistério. Agora, como morrer, pelo menos a gente pode sugerir para os que ficam tomando conta. Então eu imploro que me deixem morrer com dignidade. Se não tiver a sorte de cair dura no chão que não prolonguem inutilmente minha estada neste mundo. Que não transpassem tubos no meu corpo, que não botem aparelhos para fazer mecanicamente funcionar esse meu coração tão inconstante, arrítmico e empedernido. (Nem os pulmões que sobrecarreguei com fumaça e fuligem). Se ficar caro fazer traslado para um crematório, que mandem o resto de mim para uma faculdade de medicina (a de Franca, não!), mas não me enterrem! Só posso entender como egoísmo injustificado prolongar neste mundo a estadia de alguém inconsciente, com sequelas e lesões profundas, justificando a permanência pela apresentação de `reações vitais`, apenas mecânicas. Bom. Pretendo ficar bastante por aqui mesmo correndo o risco de ser trespassada por um tiro ou uma pedrada fatal caso, ao escrever, cometa outro suposto erro de Português ou critique a cantora Maria Rita. Só estou dando um toque porque para morrer... basta estar viva. MITOLOGIA No Olimpo os deuses viviam brigando. Zeus, absoluto! Quando deu Perséfone - sua filha com Deméter - para Hades (o rei do Inferno), a mãe discordou, mas palavra de Zeus não volta atrás. Berros e desespero: a única filha iria morar sob a terra (localização do Inferno desde esse tempo). Chorosa, abandonou obrigações com a alimentação dos deuses que começaram a passar fome. Provisões escassas, reclamações, Zeus negociou. Propôs: metade do ano Perséfone passaria na superfície, metade passaria no - literalmente - quinto dos infernos. Durante a separação, Deméter, desesperada, descuidava da natureza. Próxima do reencontro, animava-se: árvores floresciam e frutificavam. A filha chegava. Assim apareceram as estações do ano. Inverno e Outono são tempo de, respectivamente, desespero e preparação. Verão e Primavera, de esplendor e de apogeu. (Adoro isso!) ASPAS `Sabe o que é a meia-idade? É a altura da vida em que o trabalho já não dá prazer e o prazer começa a dar trabalho`. (Autor desconhecido, mas sábio...) FILME Sobre o polêmico assunto eutanásia, proponho: De quem é a vida afinal?; A direção é de John Badham, 1981; Menina de Ouro, dirigido por Clint Eastwwod, 2004 e Mar adentro, de Alejandro Amenábar, 2004, com o maravilhoso Javier Bardem. Nada como encarar o assunto de frente e experimentar pensar como quem está do lado incapacitado. Como senhores absolutos da verdade, é fácil. REGISTRO Roberto Carlos gravou com Elas - Hebe, Sandy, Celine Imbert, Paula Toller, Adriana Calcanhoto, Alcione, Cláudia Leitte, Daniela Mercury, Fafá de Belém, Luíza Possi, Marina Lima e outras -, um especial da Globo no final do ano. Está quentinho o CD de registro desse encontro. PONTO FINAL Os Jogos da Primavera ainda existem, sim. Começaram dia 23 de setembro e irão até 9 de outubro. Participação de mais de 2000 alunos de 44 escolas públicas e particulares e Franca. E a Rainha dos Jogos da Primavera? Lúcia Helena Maniglia Brigagão Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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