Era para ter saído tudo como os noivos sonharam. O grupo vocal e os músicos contratados deveriam interpretar clássicos próprios para a data. Os padrinhos já estavam todos convidados, os enfeites escolhidos, equipes de filmagem e fotografia selecionadas depois de muita pesquisa. Nada poderia dar errado no casamento de Wellington e Keila. Mas esqueceram de combinar isso com o padre do mosteiro de Claraval (MG). Depois de reservar o local para a celebração, o religioso, há uma semana, teria mudado todas as regras que regem solenidades do tipo dentro do mosteiro.
Vão-se os padrinhos, vão-se os músicos, enfeites e tudo o mais. Indiferente aos apelos, padre Marcos manteve sua posição de não negociar mais com o aflito casal que se uniria em março de 2010. O detalhe é que as tais novas regras só vão vigorar a partir de janeiro do ano que vem, quase oito meses depois da assinatura do contrato de prestação de serviços que ocorreu em maio.
O drama do vendedor Wellington Meneghini Ferreira, 24, e da auxiliar financeira Keila França Junqueira, 26, começou logo depois deles terem se encantado com o mosteiro de Claraval, uma espécie de objeto do desejo de muitos casais, construído na vizinha cidade mineira e inaugurado em 1969. No dia 30 de maio, resolveram reservar a data do enlace. Tinham escolhido 27 de março. Pagaram R$ 50 apenas pelo direito de ter o nome da lista. Tudo certo e combinado, partiram para os preparativos, para a fabricação dos convites, para o anúncio geral. Os dois, que se conhecem há um ano e quatro meses, enfim iriam se casar.
O sonho começou a se tornar pesadelo quando foram chamados no dia 13 de setembro, domingo passado. Padre Marcos estava a postos para recebê-los, não com a alegria e simpatia que esperavam, mas com três páginas de papel contendo as tais novas normas, proibindo ou limitando quase tudo o que haviam acertado em maio. Saem os 15 casais de padrinhos, entram apenas seis; músicos, enfeites, cerimonialistas, pajens, tudo passaria por nova aprovação da igreja católica, e quase tudo ficaria limitado ao crivo dos monges.
Nesta altura do campeonato, Keila e Wellington já tinham dado o sinal para o fechamento de diversos serviços. Foram 10% para a filmagem (R$ 190), 10% para a fotografia (R$ 620), R$ 500 para a decoração, que ficaria em R$ 1.100, R$ 200 para os convites.
Apesar de todos os questionamentos, argumentos e horas de conversa, padre Marcos teria se mantido impassível. Em determinado momento, quando perguntado sobre como fariam com os prejuízos, Keila e Wellington teriam ouvido um comentário nada providencial: “Vocês rezam de lá que eu rezo daqui. Dará tudo certo”.
Para o casal, pior que o dinheiro já pago seria ter que escolher os casais que não poderiam participar mais. “Isso ainda está sendo o mais doído. Como você vai dizer para um padrinho, que até já comprou presente, que ele não vai poder entrar mais?”.
No caso dos dois, ambos católicos, a fé na igreja não se abalou. Por via de dúvidas trocaram o mosteiro de Claraval pela igreja São Vicente de Paulo, no bairro em que moram. A cerimônia de casamento será no mesmo dia que tinham escolhido antes (27 de março), o que evitou cancelamentos de contratos e mais prejuízos, para uma festa que, estimam, devam custar R$ 30 mil.
“Não fomos para lá por causa apenas do mosteiro. Agora não queremos nem passar perto. Ele quase acabou com a nossa alegria”, disse Keila. “Normas e regras são necessárias, mas não como esse padre nos impôs. Ficamos muito tristes com isso”.
O Comércio procurou o padre Marcos durante dois dias. Na sexta-feira, pelo menos quatro ligações foram feitas para o mosteiro. Em todas, informaram que ele estava em oração e não poderia atender à reportagem. Ontem, por volta das 11 horas, informaram que o padre continuava em oração. Às 15 horas, o diácono Mateus disse que o religioso estava em confissão e não poderia ser interrompido. Às 18 horas, Mateus informou que o padre havia saído. Ele não retornou as ligações.
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