Com o vermelho do cetim e a música apaixonada nos remetendo a um intenso drama, a abertura do filme nos mostra Don Juan de Marco se vestindo ao mesmo tempo em que se apresenta. Com palavras ternas, amorosas, mas melancólicas, somos introduzidos em sua vida: com capa, luvas, botas e uma máscara, o filho da bela Dona Ignez Santiago y San Martine e do famoso espadachim Antonio Garibaldi De Marco, diz ser o maior amante do mundo. Parte para o que seria sua última conquista amorosa antes de morrer: tem apenas 21 anos. Conquistar mais de mil mulheres não foi difícil, entretanto a única que realmente despertara o seu amor o rejeitara. Parece-nos estarmos em outros tempos, outro século, mas ele sai à rua e o descobrimos em Nova York, há poucos anos atrás: realidade e fantasia começam a se entrelaçar.
Embora o filme seja de 1995, este mito que o diretor e roteirista Jeremy Leven nos apresenta, inspirado em livro de Jean Blake White, continua bastante atual. Don Juan de Lorde Byron é distinto deste: ambos os personagens são irresistíveis, atraem as mulheres, mas o herói-vilão do poema-épico de Byron as seduzia e sem remorsos as abandonava; o sedutor Don Juan de Marco, no entanto, encanta as mulheres por que as arrebata com sua sensibilidade, mas, seduzido pelos encantos femininos, sofre por amor.
Embora não se saiba a origem de Don Juan, ele parece ter surgido pela primeira vez no folclore espanhol em 1630, com Tirso de Molina: El burlador de Sevilla y convidado de piedra. O poema épico inglês Don Juan escrito por Byron em 1821 originou um personagem mítico, símbolo de libertinagem, de compulsão pela sedução. George Gordon Noel Byron foi um grande poeta inglês do Romantismo, e tinha um público imenso e fiel aos seus escritos. Seja Don Juan, seja Don Giovanni -como no libreto escrito por Lorenzo Da Ponte na ópera de Mozart -espanhol, italiano ou mesmo inglês, temos aí um mito que transcende ao pessoal e torna-se universal e atemporal como um aspecto da mente humana.
Don Juan de Marco está em busca da mulher que o inspirara "a amar até que todos os seus sentidos ficassem impregnados dela, fazendo com que seu coração soubesse que tinha encontrado um lar." Acredita que a tenha encontrado na Ilha de Eros, lugar paradisíaco, onde morariam para sempre, mas foi abandonado. Podemos compreender tal sentimento como inspirado por sua mãe, relembrando o mito edípico. Estamos diante de um Don Juan humanizado, que em seu primeiro encontro com Dr. Mickler apresenta sua crença nesta mulher inspiradora de seu amor: "sua vida começa com ela e sem ela certamente deve terminar."
Ilhado em Eros, o deus do amor, sua fantasia o transporta para lugares onde se torna o amante terno e sensível que sabe como nenhum outro a arte de dar prazer às mulheres que conhece. Falta-lhe contraditoriamente o amor verdadeiro que promove vínculos: Eros. Portanto, um paradoxo: com alma capaz de tanta ternura e tanto deslumbramento, se utiliza de uma ficção para proteger-se da insuperável experiência do sofrimento. Cria pais amorosos, cuidadosos e protetores que escondem seu verdadeiro desamparo.
Fomos gerados por um casal que nos amou como lhes foi possível e de quem nos separamos para vivermos nossas próprias vidas. A elaboração dessa frustração, dessa ausência, pode ser assimilada como presença dentro de nós. É através desta relação primitiva, amorosa ou não, que construímos nossas possibilidades de relações com os outros. Freud já dizia que tratamos nossas relações de amor como se todas fossem com o objeto edípico original. As repetições apresentadas em relações inconsistentes ou conflituosas mostram uma reedição transferencial dos conflitos encontrados nessas primeiras relações. São reedições externas do que levamos internamente. Assim acontece com Don Juan de Marco que conquista inúmeras mulheres, mas continua em busca de amor.
O filme nos conduz da fantasia para a realidade, oscilando entre uma e outra. O menino nascido em Queens, filho de imigrantes, evade-se de sua realidade interna criando para si construções idealizadas de sua família, para proteger-se da dor do abandono. Sua vontade de viver pode ser restabelecida através da presença forte e confortadora do Dr. Mickler - Don Octavio de Flores, parceiro amoroso que consegue levá-lo a reencontrar a esperança. Nessa relação podemos ver a importância da contratransferência numa relação terapêutica: as trocas emocionais que acontecem entre eles favorecem o crescimento de ambos. Deixando de lado suas teorias psiquiátricas e o uso de medicação Dr. Mickler privilegia o desenvolvimento da confiança entre eles e consegue que Juan desenvolva sua história pessoal.
Eros, deus do amor, exalado nessa relação favorece o desenvolvimento de vínculos permitindo que ela se torne muito íntima. Como a letra da música de Brian Adams: "Para realmente amar uma mulher você precisa compreendê-la, conhecê-la profundamente, ouvir cada pensamento, enxergar cada sonho, dar-lhe asas quando ela desejar voar... mas você precisa sentir-se desamparado em seus braços para saber que você realmente ama uma mulher..." Em minhas reflexões estimulada por esse filme tão bonito, penso ser assim uma relação psicanalítica, quando a pulsão amorosa, Eros, é capaz de manter-se jovem, porém em equilíbrio.
<b>SERVIÇOS</b>
Evento: Cinema e Psicanálise
Filme: Don Juan de Marco
Apresentação: Sônia Godoy
Quando: sábado, 12 de setembro
Horário: 15 horas
Onde: Sede Campestre do Centro Médico de Franca
Inscrições: R$ 5
Informações: (16) 3724-3330
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