Devo iniciar confessando minha ignorância técnica para avaliar os aspectos a definirem o justo tombamento de um bem e seus conteúdos, seja na arte, arquitetura ou motivações culturais. No entanto, me incluo entre aqueles que defendem a preservação da memória. Ao longo da vida tenho me encantado com experiências gratificantes a partir da maravilha em que se transformou uma velha estação ferroviária em Paris – o Musée d`Orsay – tornada relíquia da história.
A Holanda se abre para turistas mostrando sua elevação em museologia através de seus artistas consagrados – Van Gogh, Rembrandt – e peças de altos valores conquistadas no mar, de onde vieram suas grandes riquezas. Seus homens das águas – piratas – ao ancorar em Amsterdã, recolhiam ao Estado 25% dos bens auferidos mundo afora, segundo regras da época. Parte dos valores em ouro, prata e pedras preciosas repousam em um museu de Amsterdã.
Referir a isso era necessário para estabelecer comparativo com a prática adotada no Brasil. Muito poucas cidades do País cuidam de suas histórias. Quando não destróem brutalmente, relegam a esquecimento sem manutenção. Ouvi recentemente que um bem, ao ser apontado para ser tombado, se for particular, provoca corre-corre que o evite. A cultura nacional ainda guarda temor por sua desvalorização ou pensa torná-lo imexível. É grande o engano.
Passa o bem tombado a obedecer a regras dispostas nas linhas de preservação. Não se trata de desapropriação e deveria ser aceito como valorativo. Ao contrário, quando se trata de bem publico, passando pelo processo de tombamento, acaba no abandono imposto pelos gestores da coisa pública, ignorando-o até seu triste finito. Parece faltar à Secretaria de Estado da Cultura urgente trabalho de conscientização através do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat), aclarando vantagens a proprietários e gestores públicos, inclusive sobre a obrigatoriedade de boa conservação.
Franca vem discutindo o prédio da AEC-Centro. Não entro no mérito técnico, no entanto, valeriam alguns depoimentos sentimentais, beijos roubados à meia-luz, os boleros dolentes em trôpegas pernas de peitos apaixonados ao seu ritmo (como descreveu Lúcia Helena Brigagão em texto neste Comércio), pureza de brancos vestidos de debutantes em seu primeiro baile, alguns casamentos apressados, hoje habituais. Justificado.
Desejo botar em pauta alguns crimes cometidos no passado. Onde foi parar o velho mercado com sua ferragem importada da Inglaterra? Não falo daquele caixão erigido no lugar, vida curta, insanidade mental momentânea, mas, sim, do mais antigo, cujas fotos a Graciela mantém catalogadas no Arquivo Histórico. Onde, que fim se deu ao coreto da praça principal? Era ali aos domingos, sob regência de Laureano do Vale que exibia-se a "furiosa" – assim era chamada – a Banda Municipal. O som da banda servia de fundo ao alarido das crianças brincando na praça.
O Hotel Francano. A cidade assistiu chorando seu enterro, embora se registre em alguns momentos sua história negra, iniciada em 1928 pelo Major Torquato Caleiro copiando projeto de Sorocaba, que lá, não se concretizou por contrariar a legalidade prevista na Constituição Federal. Outros capítulos seus lindos vitrais importados, grossos cristais que já não se tem; soirée requintado no salão rosa. Fechamento, abandono, invasão de mendigos, apreensão de contrabando. Triste grande final de uma praça e suas palmeiras, dando lugar ao poder econômico e seu caixão de dinheiro, circundado por barracos de mau gosto. Impossível restaurar o Hotel mas viável reaver a praça alienada de forma inadequada.
Garcia Netto
Jornalista
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