‘Mula’ revela suas viagens mundo afora


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Viajar para o exterior, comprar roupas, gastar dinheiro sem pensar, andar com os melhores carros, frequentar os lugares mais badalados. Para muita gente, uma realidade assim depende de fatores muito particulares: um ótimo emprego, ascendência familiar, acertar na loteria. Uma atividade, porém, permite tudo isso, mas cobra um preço alto para aqueles que se aventuram: o tráfico de drogas. Quando uma das muitas portas desse submundo se abre, surge a figura do mula. É ele quem fará o trabalho mais sujo e arriscado do esquema, afastando o traficante principal das ações policiais e chamando para si toda a responsabilidade pelo ato de levar drogas, principalmente cocaína, para outros países. Se tudo der certo, ganha livre os seus US$ 6 mil (R$ 12 mil) por viagem. Se não der, será preso e deixado esquecido em um país desconhecido, onde não fala a língua e não tem assistência jurídica adequada. Em Franca, muito além da calma das praças no Centro, suas ruas escondem um vai-e-vem de traficantes atrás de seus mulas, trabalho sempre intermediado por terceiros. Os donos do pó nem sempre são da cidade. Boa parte atua em São Paulo e paga para que pessoas encontrem gente, geralmente em situação financeira difícil, disposta a embarcar em um voo que a levará para países europeus, principal destino a partir do Brasil, mais precisamente do Aeroporto de Cumbica, em São Paulo. A reportagem conversou com Cláudio (nome fictício), que durante cinco anos esteve envolvido com o tráfico local. Nesse período fez 14 viagens ao exterior. Itália, Espanha, Grécia, Holanda eram, segundo ele, os destinos mais comuns. Aos 25 anos de idade, os argumentos dos traficantes eram mais do que aceitáveis. O dinheiro ao final das viagens era certo e assim, conforme afirmou, misturando desejo de consumo com necessidade financeira, começou a sair do Brasil levando cápsulas de cocaína no estômago. Dezenas delas. Não se considera um traficante, mas sabe que se caísse em mãos de autoridades estrangeiras isso não teria a menor importância. Para sua sorte, disse, nunca foi pego. Mas “passou perto”. Carlos estava desempregado quando um amigo, sabendo de suas dificuldades, ofereceu-se para ajudar. Marcaram de almoçar juntos e o tal amigo, bem vestido e todo arrumado, disse que estava mexendo com “umas coisas complicadas”, mas que dava um bom dinheiro, e que poderia ajudar. De imediato, pagou as contas de luz e água vencidas de Cláudio, que não pensou duas vezes antes de aceitar a proposta, mesmo porque, como afirmou, não via outro caminho. Em questão de dias, providenciou os documentos que precisava para viajar ao exterior. O passaporte, que não tinha, foi o primeiro. Chegou a usar quatro deles simultaneamente. Explicou que a tática serve para despistar policiais no Brasil e no exterior, já que não concentra todas as viagens em um único documento. Em algum momento, tinha certeza, alguém ia querer saber como que um sapateiro conseguia viajar tanto para a Europa. No processo que se deu a seguir, Cláudio fez todo e qualquer contato apenas com o amigo que intermediou a viagem e pela qual receberia uma comissão do traficante. Com este, a aproximação é feita apenas no dia da viagem. De Franca segue-se para São Paulo onde, normalmente, se chega dois dias antes da data de embarque. A véspera é reservada para compras de malas, ternos, camisas novas. O dinheiro para a viagem é entregue e então pessoas como Cláudio são levados a um hotel onde vão ingerir as cápsulas. A esta altura, a reserva de cinco dias em um hotel quatro ou cinco estrelas qualquer na Europa já está feita em nome de Cláudio. Apesar do período reservado, apenas uma diária, que geralmente custa até R$ 500, é paga. Ela não será sequer aproveitada. Na chegada, com as reservas em mãos e US$ 2 mil no bolso, os agentes nos aeroportos dificilmente farão perguntas, fora as de praxe: “aonde pretende ir, quanto pretende gastar, quantos dias vai ficar”. A droga que Cláudio engoliu no hotel paulistano está em seu estômago. Cem, 110, 120 cápsulas de até 10 gramas cada uma. Bombas em forma de bala, que ele ingeriu uma a uma durante horas. Nos aparelhos de checagem e raios-X dos aeroportos não são detectadas. Não há cachorro farejador que dê conta de descobri-las. “Não há dificuldade para entrar. O que eles querem é turista para gastar dinheiro. Quem tiver controle emocional consegue entrar, entregar a droga e voltar sem nenhum problema”, disse. Dez anos atrás, afirma Cláudio, de 10 a 15 pessoas cooptadas pelo tráfico em Franca chegaram a deixar a cidade ao mesmo tempo e para diferentes destinos. Hoje, afirma, o movimento caiu. “Se a viagem corre bem, tudo certo. Mas você pode ser descoberto e preso. É aí que você vai descobrir que está sozinho em um país estranho. Ninguém vai te ajudar; você está perdido. Todos vão te virar a cara, os amigos, a família, todo mundo. Ninguém pode fazer nada por você”.

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