Bolerando...


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<b>SAUDADE</B> - De qualquer forma, quem não dançou um bolero no capricho não sabe o que é sedução, não imagina o que seja excitação, não tem a menor ideia do significado de
<b>SAUDADE</B> - De qualquer forma, quem não dançou um bolero no capricho não sabe o que é sedução, não imagina o que seja excitação, não tem a menor ideia do significado de
Saudades do bolero. De ouvir bolero, de cantar bolero. Sobretudo de dançar bolero. Bolero... Lembra como era? Ele vinha, nos tirava para dançar, pegava na cintura da gente, mão direita circundando completamente a cintura. Peito com peito. Os sutiãs de enchimento, idênticos a ninhos de passarinho, corriam o risco de ficar achatados nos bicos. Dois pra lá, dois pra cá, a cabeça rodando com os cuba-libres, gin com tônica, uísque com guaraná. Mão na mão, a gente ali, respirando com dificuldade muito mais por causa da quentura vinda do lado de baixo do Equador que pelo arrocho dos braços que nos rodeavam. Medo de vexame, eles se protegiam com cuecas de apertar. De vez em quando tudo se encostava, no breque do ritmo, do rosto à ponta dos pés. Eram reduzidas essas oportunidades e experiências bolerescas nas festas domiciliares: luz excessiva, muito mais rock`n`roll que Lucho Gatica ou Gregório Barrios. O clima pintava nos clubes, nas brincadeiras dançantes, nas boates, em salões - digamos, mais privês... De qualquer forma, quem não dançou um bolero no capricho não sabe o que é sedução, não imagina o que seja excitação, não tem a menor ideia do significado de lúbrico, voluptuoso, lascivo ou sensual... Saudade de bolero. Dançar bolero e conversar simultaneamente, jamais. Eram atividades excludentes. Fundamental entregar-se totalmente àquele exercício semelhante a um prenúncio de sexo, dos bons. Os títulos - Tu me acostumbraste, Perfídia, Quizás, quizás; Contigo en la distancia, Sin ti, sugeriam amor frustrado, sofrido, assumido, drama e tragédia. La Barca é a música mais cantada no mundo todo, em todos os tempos. Fortemente presente em todas as letras, tanto o substrato de todos os boleros – os homens amam, as mulheres são (apenas) amadas; a perspectiva ou ameaça da possibilidade de perda do ser amado ou a amargura subentendida na lembrança do que passou. Saudade de sentir bolero... Nosso multifacetado entorno revela a presença do bolero em singulares manifestações. São verbos-boleros: arfar, fremir, estremecer, palpitar, bramir, clamar, suar, gotejar, ansiar, angustiar, anelar, ofegar, padecer, esquecer. São coisas-bolero: unhas pintadas combinando com o batom vermelho, perfume com cheiro de talco, pó de arroz Promessa, maiô inteiro, brilhantina, luvas compridas, gargantilha de pérolas de três voltas, camisola de rendas, casaco de peles curto, vestido tomara-que-caia, cabelo com ondas, velas com perfume e óleos aromáticos. São atitudes-bolero: peito cheio de esperança, impulso de passear na madrugada, ficar sob a luz do poste na rua, sonhar olhando Lua Cheia, suspiros profundos. Suflê é comida-bolero. Pimenta cheirosa é condimento-bolero. A expressão `nunca mais` é absolutamente bolero. Disco de vinil, vultos enfumaçados, cigarro, abajur lilás, luz difusa, são parte do cenário-bolero. Sofá de veludo, também. Homem de chapéu? De camisa preta? De bigode? Bolero puro! O pecado original, além de ter sido sugerido e motivado, com certeza foi cometido aos acordes de um bolerão. Saudade de viver bolero... Para captar o clima dramático de bolero é preciso tempo e imaginação. Tenha-se uma noite enluarada, ponha-se na vitrola (eletro-doméstico-bolero) o disco de vinil de Lucho Gatica. Imagine-se numa praia, coqueiros balançando freneticamente (adjetivo-bolero) como antes de um temporal. Vista-se com summer (calças pretas, paletó branco... roupa-bolero). Acenda um cigarro - não precisa fumar, só a fumacinha subindo já vale. Fique em pé. Uma mão no bolso, a outra segurando o copo de uísque (com gelo e guaraná). Olhe longe, além da lua. E deixe as frases invadirem seu coração: `Contigo en la distancia, amada mia, estoy`; `Solamente uma vez amé en la vida, solamente una vez y nada más`, `Aunque sea pecado, te quiero, te quiero lo mismo`; `La puerta se cerró detrás de ti y nunca más volviste a regresar`; `Por eso me pregunto, al ver que me olvidaste, porque no me enseñaste como se vive sin ti`. Bolero é coisa de macho. Mulher, no bolero é coadjuvante... Saudade de bolerar! <b>ASPAS</b> A prova de que o sexo feminino é o grande culpado das infelicidades do mundo aqui está: automóvel é masculino; trombada é feminino. Fratura é feminino; curativo é masculino. Dor é feminino; comprimido é masculino. Doença é feminino; remédio é masculino. Miséria é feminino; dinheiro é masculino. Nascimento é masculino; morte é feminino". (Max Nunes) <b>MULHERES</b> As mulheres são um capítulo à parte na redação da história de Franca. Existem homens, grandes homens. Mas elas merecem capítulos especiais, referências laudatórias, comentários de rodapé, milhões de estrelas chamando a atenção, muitas linhas separando essas apreciações do texto principal. Luiza e Luizinha Trajano, Evelina Gomes, Olga de Faria, Helena Barbosa, Lúcia Ceraso, Lúcia Helena Garcetti, Dona Melica são alguns dos nomes que surgem quando qualquer grupo fala de romper paradigmas, quebrar tabus, ir além dos limites, desbravar. Terei a honra de, nos próximos dias, começar a escrever a biografia de uma grande mulher, cujo nome encabeça qualquer lista de grandes mulheres francanas. <b>PONTO FINAL</b> Como prova de que os antigos compositores de bolero não tinham suas musas em alta conta ou consideração a julgar pelos títulos das canções – que relam o insulto –, há piada absolutamente incorreta do ponto de vista feminista...: `na antiga Rádio Nacional, Gregório Barrios, tendo ao lado a locutora Heloísa Helena, começava a atender pedidos dos fãs. Mentirosa!, pedia um. Pervertida!, exigia outro. E os pedidos se sucediam: Pecadora!, Aventureira!, Hipócrita!, Perdida!, títulos de sucessos musicais do cantor. Um mineirinho, recém-chegado ao Rio e sem entender bem o que se passava, virou-se para Heloísa Helena e disparou: "Sem-vergonha! Descarada! Vagabunda!". <b>Lúcia Helena Maniglia Brigagão</b> <i>Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras</i> luciahelena@comerciodafranca.com.br

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