No dia 12 de agosto Franca virou manchete e ganhou destaque nacional ao ser apontada pela Polícia Federal como um centro de distribuição de diamantes sem procedência legal e sede da organização criminosa voltada para o comércio ilícito. Para muitos, foi surpresa saber que a terra dos calçados também era fértil na compra e venda de pedras preciosas. Ignorada pelas autoridades por muitos anos, a atividade corria sem segredos e em plena luz do dia. Era justamente na Praça Barão, um dos locais mais movimentados, que a negociação corria solta. A relação diamante/Franca é tão antiga quanto a própria história do município.
Quando os primeiros diamantes foram descobertos na região de Franca o comando do País ainda era do Império. Nem uma década havia ainda se passado da Proclamação da Independência quando as primeiras gemas foram garimpadas no Arraial Bonito do Capim Mimoso. Os garimpeiros denominavam uma das principais áreas diamantíferas de “Garimpo das Canoas”, referindo-se às águas do Rio Canoas onde, segundo o historiador e professor José Chiachiri Filho, hoje existe a vizinha cidade de Claraval (MG). “Alguns riachos e córregos da região são reconhecidos pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e pelo IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) como áreas diamantíferas, tendo este último, nos anos 1980, considerado a região como área de potencial muito bom para o garimpo”, conta.
Negócio altamente rentável e responsável pela construção de valiosos patrimônios atualmente, a exploração de diamantes não era bem vista no começo de 1800. De acordo com o historiador, os plantadores de café e criadores de gado da região não viam com bons olhos a devastação das nascentes de água provocada pela ação dos aventureiros. “Mesmo após a visita do Visconde de Taunay à vila, na segunda metade do século 19, e sua constatação de que a exploração de diamantes seria uma vocação desta terra e uma boa saída para a crise do café, a resistência dos regionais à liberação do garimpo foi intensa”, diz Chiachiri.
Apesar da resistência, o garimpo se manteve, a lapidação tornou-se ofício para muitos francanos e a qualidade do trabalho de alguns desses profissionais passou pela aprovação dos mais exigentes comerciantes de gemas do mundo.
Chiachiri Filho relembra que entre 1987 e 1990 formou-se uma comissão apoiada por autoridades locais para oficializar tanto os trabalhos de lapidação quanto a extração local de pedras. Com o apoio do IPT, do Governo de São Paulo, através da Secretaria de Ciência e Tecnologia (hoje Secretaria de Desenvolvimento), e executivo local, foi implantado o Laboratório de Gemas de Franca. “A idéia era erguer também um centro de ensino, com treinamento especializado para garimpeiros e lapidários, principalmente, que seria acompanhado pelo IPT. Já naquela época os envolvidos operavam na clandestinidade em todas as etapas. Sempre achei que seria uma forma de solucionar uma boa parte do problema. Ainda hoje desconheço as razões de o projeto ter sido engavetado”, lamenta o professor.
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